O filme “Cisne negro”, de 2010, é um filme marcado por muitos símbolos, que podem ser aplicados às diversas realidades da vida, e a qualquer momento. Quem assistiu ao filme quando do seu lançamento certamente sairia com outras palavras assistindo hoje, em 2026.
O meu propósito não é salvar o Cisne Branco, nem demonizar o Negro, mas sim entendê-los como duas possibilidades existenciais factíveis, porém se vividas dentro da própria realidade possível.
Somos marcados por divisores de água invisíveis e delicados. Quando nos percebemos já não estamos mais do outro lado da fronteira.
Assistir ao filme em meio a uma crise de meia-idade trouxe uma enxurrada de reflexões. Um silêncio toma conta da minha alma desde então. Os símbolos atravessam toda a trajetória profissional de trinta anos, aos relacionamentos interpessoais da juventude, naquele ponto decisivo da vida, onde dizem que janelas são abertas. Ali a linha tênue entre os cisnes poderia ter sido traçada, e não agora, 30 anos depois.
A personagem principal evoca pureza, timidez, delicadeza. Seus traços corroboram. Um lar disfuncional que internaliza perfeccionismo a isola dos outros. Mas ela permanece pura, delicada e inquieta.
Para alguns, uma presa; para outros, um objeto de porcelana que merece ser guardado e protegido.
O seu desempenho enquanto o Cisne Branco é perfeito. Não há igual. A sua interioridade e rigidez técnica combinam com um perfil cuja mensagem é a pureza e graciosidade.
A virada simbólica é terrível: viver também o Cisne Negro. Viver o outro lado da moeda. E agora não se trata de dois personagens, mas de dois símbolos e duas urgências existenciais em uma só pessoa. Não preciso de muita informação para convencer o leitor de que viver, ao mesmo tempo, duas realidades diametralmente opostas resulta em sofrimento psíquico terrivel.
Viver uma realidade exige estar disponível em energia mental quanto a isso, de forma que a nossa pulsão encontre uma satisfação adequada.
E agora viramos o jogo: não se trata mais de bom ou ruim, e sim de que Cisne Branco e Negro são verdadeiros e possuem sentido, numa abordagem simbólica. O que vale agora é refletir sobre a energia que despendemos para viver dois papeis opostos, e que não é possível fazer com excelência um papel que não nos cabe.
Assistir ao filme durante uma crise de meia idade me fez perdoa-la, ao final. Às vezes a vida nos impõe um personagem, e lutar contra ele é inevitável. E para azar de muitos, esta vida real só é possível ao final do espetáculo.
Um próximo texto refletirá sobre como a sua verdadeira essência existencial fosse, talvez, ao incorporar o Cisne negro.