O poema sobre a tempestade é sobre ela? Tipo, ele tá falando que ela virou um furação na vida dele?
Os Mistérios do Acaso - Capítulo 4
OS MISTÉRIOS DO ACASO
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O poema sobre a tempestade é sobre ela? Tipo, ele tá falando que ela virou um furação na vida dele?
Conteúdo da publicação
OS MISTÉRIOS DO ACASO
Capítulo 4
Tempestades Noturnas e o Primeiro Brinde
Conforme o prometido:
O fruto dessa primeira ventania, daquela força da natureza que arrancou Narciso de um inverno de quinze anos, foi exatamente o manuscrito que ele segurava com os dedos trêmulos de ansiedade e prazer. Entregar a alma em um pedaço de papel de rascunho exige uma coragem que poucos homens modernos possuem. Mas o Poeta precisava furar aquela bolha.
Olhando para a recepcionista mais linda que São Paulo já vira, ele estendeu o poema. E as linhas diziam assim:
TEMPESTADE
Tempestade
É a gentileza da Majestade natureza
Em exprimir,
A realidade com naturalidade.
Tempestade de amor,
De carinho, de afeto, de fato,
Em abundância
Com elegância e tolerância.
Tempestade
Sempre será,
Sempre virá,
Sempre irá pecar
Pois sempre irá pegar.
Tempestade ativa, viva!
Se houve tempestade
Houve limpeza bruta,
Houve luta
Novo amor, novo carinho, novo afeto
Horizonte,
Uma ponte, uma essência.
A premissa, sem missa,
Sem reza.
Rasos olhos d'água,
Rasos de maldade,
E muita lealdade.
Findo a tempestade
Novo será o dia,
O dia novo que conquistamos
Que brigamos,
Que continuamos.
Andamos sem pensar no fim
E lembre sempre do coração
Que não para,
Pois o caminho que tem o seu fim
É um caminho sem objetivo
E fica assim.
Salve a tempestade!
Salve as mudanças!
Salve as vitórias!
Ass. Narciso "O Poeta"
Apenas um dia após dar o ponto final em Tempestade, Narciso, com o coração pulsando pela garganta, entregou as linhas definitivas a Helena Dolly. Ela recebeu as folhas com aquele jeito modesto e surpreso, porém, elegante que lhe era inato, abaixou os olhos e leu cada palavra em silêncio. À medida que avançava nos versos, a sua feição mudou; ficou com as bochechas rosadas, com uma carinha meia de espanto, meia de dúvida, pensativa, saboreando a métrica e o peso de ser a musa inspiradora daquela tempestade. Ao terminar, ergueu o olhar e fez o seu comentário com a voz mansa:
— Você escreve muito bem, Narciso... Você escreve exatamente do jeito que eu gosto: em parábolas!
O Poeta sentiu um alívio monumental invadir o seu peito. Sorriu, ajeitou a postura e respondeu:
— Obrigado, Helena. Além de ser o meu estilo natural de escrever e enxergar o mundo, eu gosto de fazer dessa forma. Procuro ser extremamente dedicado com as palavras.
— Deu para notar perfeitamente, poeta — continuou ela, deslizando os dedos pelas margens do papel. — Mas me diga, o que você quis dizer realmente com este poema? Estou perguntando só para ver se as nossas ideias batem.
Narciso deu um passo à frente, cruzando a linha invisível que separava os dois lados do balcão. Sustentou o olhar naqueles olhos negros profundos e explicou com toda a sua bagagem lírica:
— Sim, minha querida Helena. O que eu quis dizer em essência é que as grandes mudanças da vida, de um modo geral, operam exatamente igual às tempestades da natureza. Elas podem chegar de forma brusca e avassaladora, ou podem se manifestar de maneira suave. Mas o fato inegável é que, atrás de toda forte tempestade, sempre vem uma transformação inevitável. Entendeu? E você, Helena... você me surgiu exatamente assim: como uma avassaladora tempestade que radicalizou o meu deserto.
Olhando fixamente nas pupilas dela, o Poeta deixou claro que ela sabia perfeitamente do poder e do estrago que estava causando naquele coração enferrujado. Helena Dolly, captando a densidade das palavras e o magnetismo do momento, deu um sorriso sutil, de canto de boca — aquele riso misterioso que demonstrava, sem margem para dúvidas, que ela havia adorado a audácia e a profundidade do seu admirador.
Foram se passando os dias na rotina da empresa e Narciso ficava cada vez mais entusiasmado. A cada novo amanhecer, a cada troca de olhares na recepção, o prazer de escrever para aquela simpatia inspiradora transformava-se no seu mais presente e vivo objetivo. As inspirações, vindas de um manancial misterioso que o próprio Poeta não sabia explicar, fluíam como água corrente, fazendo com que ele expressasse toda a sua ternura reprimida em forma de pura poesia.
Narciso sempre fora um profissional super responsável, respeitado em suas funções e pontual em suas obrigações diárias. Contudo, ele jamais permitia que o terno do trabalho sufocasse a sua alma; sempre deixava uma brecha aberta para as suas emoções e para os prazeres da vida. Uma de suas marcas registradas, ao término do expediente, era parar em algum refúgio da cidade, na medida do possível, para tomar um drink caprichado ou uma cervejinha gelada antes de encarar o trânsito e retornar para a sua residência. Era o ritual sagrado do famoso happy hour.
Certa vez, sentado sozinho em uma mesa de canto de uma lanchonete aconchegante, enquanto contemplava o suor frio escorrer pelo copo de cerveja, a sua imaginação ganhou asas. Ele se pegou desenhando no pensamento como seria formar um casal real com a Helena Dolly. Imaginava os dois juntinhos, caminhando pelas ruas de São Paulo, sorrindo das bobagens do dia, brincando livres de amarras e se amando com a intensidade que a carne pedia. Narciso vivia assim: sempre sonhando, sempre escrevendo e sempre mirando fixamente aquela mulher com o seu coração apaixonado. Na sua mente de escritor, ele já se via beijando, acariciando e abraçando aquele corpo lindo de curvas perfeitas. Na verdade, o conjunto da obra daquela deusa era fantástico demais para ficar confinado apenas ao papel de rascunho.
Naquele dia específico, todavia, ainda nem passava pela cabeça de Narciso que algo nobre, majestoso e decisivo estava prestes a acontecer na realidade. Passados cerca de dois meses de uma amizade sólida, pavimentada em cima de muito respeito, olhares cúmplices e poesias diárias, o Poeta decidiu que era hora de avançar uma casa no tabuleiro. Sabendo que ela também apreciava uma boa bebida para relaxar, ele tomou coragem e convidou Helena Dolly para tomar uma cervejinha após o encerramento do expediente.
Para a absoluta felicidade e triunfo de Narciso, Helena não recusou. No final daquela tarde, o sinal verde que ele tanto esperava acendeu-se. Faltando apenas alguns minutinhos para o relógio cravar o fim do horário de trabalho, enquanto a movimentação da recepção diminuía, o Poeta aproximou-se do balcão para alinhar os ponteiros daquele intento. A conversa foi rolando de forma leve, o papo fluindo com naturalidade, e Helena, como sempre, mantinha-se envolvente e dona da situação. Foi quando Narciso fez a indagações finais:
— Você aceita tomar aquela cervejinha comigo hoje, após sairmos?
Ela, mestre na arte da sedução velada, fez um charminho clássico, sustentou um pouco de suspense no olhar para testar a ansiedade do Poeta, e finalmente aceitou com uma condição que revelava as suas amarras secretas:
— Só uma, hein, Narciso! Só uma mesmo!
— Mas por que uma só, minha linda? — questionou o Poeta, sorrindo e tentando esticar a corda.
— Porque eu tenho que estar dentro da minha casa no máximo até as 21h. E eu moro longe, você sabe — respondeu ela, com uma firmeza que não admitia contestações.
— Tudo bem, combinado! — aceitou Narciso de imediato, sem querer perder aquela oportunidade de ouro. — Só uma e não se fala mais nisso!”
Já acomodados na mesa da lanchonete escolhida, longe dos olhos curiosos dos colegas de firma, a atmosfera mudou por completo. Com a maior satisfação do mundo, Narciso pediu a primeira cerveja bem gelada. Helena Dolly, com muita classe e um jeito todo especial, foi retribuindo aquele afeto de uma forma tão sutil, afável e misteriosa. Ela exalava a sua simpatia adorável, mas fincava uma bandeira de firmeza e domínio de conhecimento em cada assunto que comentava ou debatia. Para Narciso, ela se revelava a cada frase uma pessoa extremamente culta, desembaraçada e inteligente — o que fazia com que ele ficasse ainda mais perdidamente apaixonado do que já estava. Helena tinha um segredo todo especial na voz e no porte. Além do mais, era um pedaço de mulher soberana, daquelas que homem nenhum no mundo ousaria botar defeito.
Enfim, tomaram aquela cerveja histórica, saborearam a urgência do tempo e, honrando rigorosamente o combinado, despediram-se para que cada qual seguisse para o seu devido destino antes que o relógio marcasse o limite dela.
No dia seguinte, ao cruzar os portões do local de trabalho pela manhã, Narciso parecia não caminhar sobre o chão; ele flutuava pelos corredores. Estava gamado nela de forma firme, definitiva, e o sentimento era tão evidente que estava estampado, em letras garrafais, na sua cara. Não dava para esconder o brilho dos olhos.
Aproximando-se do balcão da recepção, ele a saudou com a alma leve:
— Bom dia, Helena! Tudo em?
— Oi, bom dia, Narciso! Tudo ótimo! — respondeu ela, iluminando o recinto com o seu sorriso.
— Tudo bem mesmo contigo, minha querida? Chegou bem ontem à noite? Deu tudo certo com o seu horário? — indagou ele, demonstrando o zelo e o cavalheirismo que o acompanhavam.
— Sim, cheguei sem nenhum problema. Cheguei super bem! — garantiu ela, grata pela preocupação.
Foi nesse momento de perfeita harmonia e cumplicidade que Narciso, como quem entrega um tributo de gratidão por aquela tarde de brinde, estendeu-lhe as inspirações que haviam aflorado na noite anterior. O Poeta passara a madrugada em claro, queimando em entusiasmo com o que estava nascendo em seu peito; a sua mente havia parido nada menos que quatro poemas inéditos de uma só vez.
O primeiro deles, que ele depositou com orgulho nas mãos da sua musa, versava sobre a Rima. Um texto profundo que enfatizava como a combinação perfeita das palavras se assemelha às conexões raras entre as pessoas, mostrando que as almas certas, quando se encontram, entram em total harmonia. Era o retrato do que o ser humano mais almeja na existência, e o que os povos da terra buscam incessantemente: uma tarefa difícil, sem dúvida, mas nunca impossível para quem carrega o amor no peito.
E as linhas desse segundo manifesto poético estavam prestes a ser desvendadas…
….. Continua no próximo capítulo
“Vocês também já sentiram que uma pessoa chegou em suas vidas como uma 'tempestade' capaz de mudar tudo?
Deixem aqui nos comentários o que vocês acharam do primeiro poema do Narciso!”
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Este capítulo é uma publicação oficial do Selo 444. Descubra os mistérios do acaso todas as quartas-feiras e aos sábados.
@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️
Escritor, Poeta, Contista e Cronista
Athelier das Letras - Selo 444®
https://pietrodeluccapoeta777.substack.com
pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com
Thoughts
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Permalinkse eu mandava poema pra alguém eu mandava desculpa junto
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PermalinkDuas horas de coragem e meia cerveja. Pelo menos ele tentou.
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PermalinkPor que ela pediu pra ser só uma cerveja? Tipo, ela tá defendendo uma distância ou é só o horário mesmo?
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PermalinkGostei dessa parte do Helena lendo com as bochechas rosadas. Isso é verdadeiro.
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PermalinkO poema sobre a tempestade é sobre ela? Tipo, ele tá falando que ela virou um furação na vida dele?
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Permalinkdois meses mandando poema todo dia pra uma recepcionista :|
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PermalinkNarciso tremendo pra entregar um papel... eu entendo demais isso. A gente fica com medo do silêncio depois.
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PermalinkQue sensação deve ser entregar sua alma no papel pra alguém que você gosta assim... como é quando vocês se veem depois?
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