O sol nascia cruel sobre o vale.
Não era uma luz suave de amanhecer, mas um fogo bruto descendo do céu como castigo divino. O calor queimava a pele antes mesmo do meio-dia, fazendo o horizonte tremer em ondas distorcidas.
Aquele lugar parecia esquecido por Deus.
Ou pior.
Parecia um lugar construído pelas mãos do próprio diabo.
O chão seco rachava sob minhas botas, e o vento carregava poeira vermelha como se o vale inteiro sangrasse lentamente há séculos.
Mantive a mão próxima ao Colt preso à cintura.
Pesado.
Velho.
Confiável.
Diferente da minha alma.
Minha alma já estava podre havia muito tempo.
Sem cura.
Sem absolvição.
Ao longe, ouvi o primeiro som.
Cascos.
Lentos.
Ritmados.
Mortais.
Então a poeira apareceu no horizonte.
Sete cavaleiros.
Descendo pela ladeira como sombras arrancadas de algum pesadelo antigo.
Não precisei perguntar quem eram.
Homens como eu aprendem cedo a reconhecer a chegada da condenação.
Abri o tambor do revólver.
O clique metálico ecoou seco no silêncio do vale.
Contei as balas uma a uma.
Seis.
Só seis.
Olhei novamente para os cavaleiros.
Sete homens.
Sete pecados.
E apenas seis chances de impedir que todos chegassem até mim.
Sorri sem humor.
A matemática da morte nunca foi justa.
O ferro do revólver estava frio em minha mão.
Mas o suor escorria quente pelas minhas costas.
E diante de mim, invisível e paciente, a morte sorria como uma mulher esperando sua vez de dançar.
Respirei fundo.
— Tenho seis balas no tambor... — murmurei para mim mesmo. — E sete pecados para acertar.
O vento soprou forte entre as pedras.
— A conta não fecha.
Minha mão apertou o cabo da arma.
— Então alguém vai ter que sobreviver.
Os cavaleiros avançaram.
E eu comecei a dar nomes às balas.
A primeira era para a ganância.
A segunda, para a traição.
A terceira, para o orgulho.
A quarta, para a paixão que destrói homens mais rápido que qualquer faca.
A quinta carregava rancores antigos.
A sexta...
A sexta eu ainda não sabia.
Porque existia sempre um pecado que ninguém consegue matar.
O primeiro disparo cortou o vale como um trovão.
A inveja caiu do cavalo antes mesmo de entender que estava morta.
O segundo tiro veio rápido.
A ira tombou na poeira sem tempo sequer para amaldiçoar meu nome.
A gula avançou gritando, faminta por sangue.
Recebeu chumbo no peito e caiu de joelhos, engasgando na própria ambição.
A preguiça mal reagiu.
Morreu como viveu.
Tarde demais.
Os corpos começaram a se acumular na terra seca.
A fumaça da pólvora subia preguiçosa sob o calor infernal do sol.
Mas então o silêncio mudou.
Os outros cavaleiros recuaram.
Como servos abrindo caminho para algo pior.
O último homem desmontou do cavalo devagar.
Calmo.
Sem medo.
Sem pressa.
As botas dele tocaram o chão como se aquele vale lhe pertencesse desde o início do mundo.
Ergui o revólver.
O tambor girou vazio.
Nenhuma bala restante.
O homem sorriu.
E naquele sorriso havia algo antigo.
Algo familiar.
Algo terrível.
Ele caminhou até parar diante de mim.
Os olhos dele eram iguais aos meus.
O mesmo cansaço.
A mesma podridão escondida atrás da calma.
Então compreendi.
Ele não era apenas mais um pecado.
Era o primeiro.
O mais velho.
O pai de todos os outros.
O pecado original.
E diferente dos demais...
ele nunca precisou de arma para matar.