Hotel de vitral (1)
Logo abaixo, cravados em meio a carvalhos centenários e ciprestes retorcidos, corpos pretos de olhos vermelhos jorrando sangue. Uma floresta de árvores demoníacas onde o silêncio era tão denso que parecia esmagar os tímpanos.
Havia um cemitério que desafiava a lógica com cada túmulo; portanto, em vez de uma lápide convencional, ostentava um relógio de bolso de prata.
Todos, sem exceção, estavam parados à meia-noite, mas ao badalar do grito da coruja o chamado foi emitido e, nos montes Apalaches, quatro orbes de luz — a manifestação de muitos jinns descendo e tomando também a forma de múltiplos seres — emergiam da terra como minhocas.
Como um rasgo no céu, uma grande estrela ardente passou, trazendo com ela um céu não azul, mas tingido e coberto com uma aura cinza, conferindo-lhe uma aparência invertida, e dos quatro cantos cai o absinto na chuva.
“A partir de agora, cuidado: quem é atingido vaga sem rumo para todo o sempre no purgatório. Venham!” Estendendo a palma da mão, o Jinn com aparência de um pássaro humanoide tocou no espaço e dele uma porta se revelou. “Vão… o que estão esperando? Vão logo!”
Apressando o passo, todos os escolhidos correram para dentro, deparando-se com um cenário vasto de uma escadaria que parecia ser infinita.
Uma corrente de ar gelado percorria o lugar, puxando a atenção de cada escolhido para um caminho — um caminho rumo à fantasia do inconsciente.
Um a um, os ponteiros dos relógios começavam a girar novamente e, com o girar das engrenagens, um fluxo contínuo no tempo e espaço se desencadeou: uma contagem regressiva silenciosa e implacável.
A alguns quilômetros dali, por um caminho de terra decorado em suas laterais por flores de cinco cores — surgindo e desaparecendo à vontade —, erguia-se ao final do percurso um hotel colossal feito inteiramente de vitrais rachados.
Cada painel e fragmento de cada vidro estilhaçado não apenas refratavam a luz de formas bizarras, mas também refletiam a visão de dimensões próprias.
Exibiam cenas paralelas esquecidas: tempos de reis e rainhas, impérios já não mais existentes.
A distorção no espaço fazia o estômago revirar. A paisagem se transmutou; onde o céu estava escuro, um roxo puro o engolfou e as árvores floresceram com olhos.
Surgindo diante de todos, um espelho de obsidiana de onde um longo tecido vermelho nadou de forma fantasmagórica para fora do limbo negro, projetando-se por um instante como um vulto distorcido de si mesmo, saindo como um disparo para sua superfície opaca:
“A partir deste momento, que as sombras tomem forma e dancem com intenção, e que o silêncio se torne um coro inaudível.”
Mas, com sua abertura, a ruptura do extraordinário se desenrolou… Imersos na incessante rede dos pensamentos, caminhavam para os lados, incrédulos no sentimento que os afligia.
O ponto de partida: um hotel elegante, mas com todos os espelhos emoldurados em prata.
Passando pela recepção grandiosa, com seus lustres de cristal e, à frente, um tapete vermelho longo, com seu toque nas escadas de madeira negra queimada, observam a peculiaridade com curiosidade. A cada passo em um degrau da escadaria, a terra dos mortos abria o véu do além.
Até nos recônditos dos cômodos mais luxuosos, uma superfície refletora era obscurecida por pesado tecido de veludo escuro.
Uma força primitiva e violenta, presa no limbo negro entre este plano e a dimensão espelhada, vem à tona.
Dentro de sua estrutura circular, o mensageiro estava.
Trajava um manto pesado de um vermelho escuro e, por baixo destas vestes, roupas brancas, imaculadas.
Seus olhos, no entanto, eram a verdadeira anomalia: um brilho sinistro que chegava a queimar a retina dos que o encaravam.
“De mil estrelas que rodeiam um dos três do trono de pedra, Enuma Elish, o membro da trindade suprema! Através do além do tempo e do espaço,” seus passos ecoavam como sussurros frios.
Com olhos vazios e sorriso cínico, o mensageiro avançou em direção aos convidados.
Mesmo desconfiado, com um pé atrás e um calafrio percorrendo a espinha diante daquele que se dizia mensageiro, o sujeito respirou fundo — o ar pesado com o cheiro de mofo e mistério.
Ele suspirou pesadamente, um som que se perdeu na imensidão do silêncio, quebrando-o prontamente com o mover dos lábios:
“Ah, claro, como pude me esquecer do velho... o velho que não consegue viver longe do único vício que lhe traz paz!” Escondendo seu sorriso de deboche por debaixo de sua longa manga. “Sekhem Ka Velkan, guerreiro bárbaro do passado. Oh! Claro… o menino que se encontra neste local puramente por não ser um bom garoto e, por último, nem um pouco importante. Ninguém liga!”
Movendo sua mão, dois guizos surgiram e, com o liberar do seu som, os ilustres convidados foram mandados para os devidos quartos.
Beer-Laai-Roi: “O poço daquele que vive e me vê.” Expelindo fumaça negra como a boca de um vulcão, o céu e a terra foram cobertos. Subindo ou descendo, não importa o jeito, eles vieram na forma de grandes labaredas de energia distintas apenas por suas cores — labaredas que logo diminuíram suas formas e tamanhos para algo que vagamente lembra humanos.
Os três reis e quatro monarcas se apresentaram para aquela pequena reunião de recapitulação dos afazeres.
Tomando a frente, o guia do hotel iniciou a reunião. Batendo a palma de suas mãos, a matéria à sua volta transmutou-se em uma vasta mesa de bronze com doze grandes assentos para as doze vontades absolutas do deus que caiu de seu trono.
“Três reis para apontar, quatro monarcas para direcionar, cinco jinns a os guiar e três visionários divinos para a besta eleger. Por este início, com o poder concedido a mim, eu declaro iniciada a grande vontade, a vontade daquele da qual todos nós viemos e fazemos parte. Nunca esqueçam, meus amigos: o plano de preparação de um milhão começou a rodar. Por um milhão de anos aguardamos em profundo sono o seu início e, por este dia abençoado, o desejo de longa data de Sua Graça irá se concretizar…
— À besta: seu candidato está pronto? Ele tem qualificação?
— Se há medo de que os recipientes cedam em meio ao processo, eu posso lhes garantir que estes mortais têm tudo o que é necessário.
— Tudo não era diferente do nada se tornando existência através da força de vontade. Uma forte força de vontade tornou tudo isso possível.
‘Força de vontade…’
Mesmo com uma única palavra, todos haviam chegado à mesma conclusão.
— Como o rei expressou sua vontade, e o rei perguntou, assim como o monarca celestial já indagou, o rei indaga: onde está um dos escolhidos?
— Esta é a vontade de todos! — Como um único ser, todas as vozes tornaram-se uma só: uma voz infantil, mas recheada de insatisfação, todas voltadas para o guia.
“Eu compreendo a insatisfação de todos os reunidos, mas quero que entendam que o jinn que o acompanha é ninguém menos do que uma remanescência do maior sob o céu… Lúcifer Pendragon. E, mesmo sendo apenas um pedaço do total, ainda é um pedaço dele, não estando preso a nada que não seja da sua vontade…”
A cacofonia infernal que se seguiu adiante, como o zumbido de dezenas de milhares de moscas, escalou, tocando na estrutura firme do espaço.
O tempo passou — quanto, já não se sabe, pois para eles o tempo não importa.
Sob um passo, um universo foi criado através da emanação das chamas brancas divinas, fluindo no vazio infinito, manifestando-se em Sephiroth, formando dez canais.
Um diagrama complexo de dez esferas, cada uma representando as emanações sagradas e os diferentes aspectos da consciência universal, calou os três reis, os quatro monarcas e os quatro jinns presentes na reunião com a entrega da planta de construção do grande plano, encerrando em um único ato a reunião.