Vixe, os habitantes de Andrômeda mandando ela ocupar o tempo com descoberta nova. É o que todo mundo diz, minha filha. Ela foi pra nebulosa e voltava procurando o sinal do mesmo jeito.
O universo entre uma resposta e outra.
Pensamento
Vixe, os habitantes de Andrômeda mandando ela ocupar o tempo com descoberta nova. É o que todo mundo diz, minha filha. Ela foi pra nebulosa e voltava procurando o sinal do mesmo jeito.
Conteúdo da publicação
Em uma galáxia tão evoluída que seus habitantes haviam vencido as doenças, dominado a matéria e aprendido a atravessar o espaço entre as estrelas, existia uma civilização que se orgulhava de ter eliminado quase todas as formas de sofrimento.
Suas naves viajavam sem combustível, seus computadores antecipavam acontecimentos com séculos de precisão e seus habitantes podiam transmitir pensamentos a milhares de anos-luz. A comunicação era tão perfeita que uma mensagem atravessava sistemas estelares antes mesmo que uma estrela distante terminasse de pulsar.
Entretanto, nem toda evolução alcançara os corações.
Na órbita de Andrômeda-7, vivia uma pequena criatura luminosa chamada Lúmen. Seu brilho variava conforme os sentimentos, e suas cores se intensificavam sempre que encontrava alguém a quem pudesse oferecer companhia.
Durante muito tempo, Lúmen manteve contato com uma estrela inteligente chamada Áster. Todas as noites, quando os planetas daquela região completavam suas rotações, trocavam sinais luminosos, narravam os acontecimentos do dia e compartilhavam até mesmo os pensamentos mais insignificantes.
Lúmen aprendera a reconhecer as pulsações de Áster. Sabia quando estava cansada, quando precisava de companhia e quando seu brilho se tornava mais fraco. Não precisava que a estrela pedisse ajuda; muitas vezes, bastava-lhe perceber uma mudança na luz.
Certa revolução galáctica, porém, Áster começou a desaparecer.
Primeiro, demorava algumas horas para responder aos sinais. Depois, passava ciclos inteiros sem emitir qualquer frequência. Por fim, deixou de responder completamente.
Lúmen, que conhecia os recursos daquela civilização, não compreendia o silêncio. Sabia que Áster possuía transmissores capazes de alcançar os confins da galáxia. Sabia que nenhuma distância impediria uma resposta. E sabia, sobretudo, que uma única sequência de sinais seria suficiente para esclarecer o que estava acontecendo.
Pensou que talvez Áster estivesse ferida. Depois, imaginou que tivesse perdido o interesse em sua companhia. Em seguida, começou a examinar as últimas transmissões, procurando alguma palavra inadequada, algum sinal mal interpretado, qualquer falha que justificasse aquela mudança.
A cada ciclo sem resposta, seu brilho diminuía.
Os habitantes de Andrômeda-7 tentaram consolá-la.
— Nossa civilização evoluiu o bastante para não depender de ninguém — disseram. — Redirecione sua energia, encontre outros sistemas, ocupe seu tempo com novas descobertas.
Lúmen tentou obedecer. Explorou nebulosas, visitou planetas recém-formados e aprendeu a decifrar frequências desconhecidas. Contudo, sempre que retornava à sua órbita, procurava involuntariamente um sinal de Áster.
Não era a falta de companhia que mais a consumia. Era a ausência de uma explicação.
Áster continuava viva. Seus sistemas funcionavam perfeitamente. Recebia cada transmissão de Lúmen, lia cada pergunta e observava cada tentativa de aproximação. Apenas havia decidido que não responderia.
Quando questionada por outras estrelas, justificava-se:
— Não sou obrigada a manter contato. O silêncio é meu direito.
E tinha razão em parte. Nenhuma estrela era obrigada a permanecer ligada a outra. O que Áster não admitia era que conhecia o efeito de sua ausência. Sabia que Lúmen esperava, que se interrogava e que transformava cada intervalo em uma hipótese dolorosa. Ainda assim, mantinha aberta a possibilidade de um reencontro, respondendo ocasionalmente com um breve pulso luminoso, apenas o suficiente para impedir que Lúmen compreendesse o fim.
A galáxia possuía leis para quase tudo, mas não havia desenvolvido uma maneira de punir a indiferença deliberada.
Até que, certa noite, uma antiga supernova iluminou o setor inteiro. Seu clarão revelou milhares de estrelas que haviam passado eras tentando alcançar umas às outras. Algumas já não existiam; outras continuavam transmitindo sinais para destinatários que jamais responderiam.
Lúmen contemplou aquela imensidão e compreendeu que o universo era vasto demais para que uma única estrela determinasse o valor de sua luz.
Naquela mesma noite, desativou o canal que a mantinha ligada a Áster.
Não enviou uma última mensagem. Não exigiu explicações tardias. Não desejou que a estrela sofresse o mesmo que ela havia sofrido. Apenas deixou de transmitir para quem escolhera não escutar.
Durante algum tempo, seu brilho permaneceu fraco. A recuperação não aconteceu como nos cálculos dos supercomputadores, nem seguiu uma trajetória previsível. Algumas noites, Lúmen sentia saudade. Em outras, sentia raiva. Aos poucos, porém, voltou a emitir luz sem esperar que alguém a confirmasse.
Áster percebeu a ausência daqueles sinais somente quando deixou de recebê-los.
Tentou restabelecer a conexão, mas encontrou um canal encerrado. Pela primeira vez, enviou mensagens que não obtiveram resposta.
Não compreendeu de imediato o que havia acontecido. Afinal, imaginava que Lúmen continuaria esperando indefinidamente, como se a capacidade de amar fosse uma obrigação de permanecer disponível.
Mas até os corpos celestes possuem limites para a energia que podem oferecer sem jamais recebê-la de volta.
Lúmen continuou sua jornada pela galáxia. Não deixou de acreditar nas conexões, nem passou a temer todas as estrelas. Apenas aprendeu que a distância pode separar dois mundos sem feri-los, enquanto o silêncio calculado pode transformar a proximidade em sofrimento.
E, naquela civilização que sabia atravessar o universo em segundos, surgiu uma nova compreensão: a tecnologia podia tornar a comunicação instantânea, mas somente a responsabilidade tornava a convivência vínculo, mesmo entre criaturas que já haviam superado a própria humanidade.
O direito de se afastar não concede a ninguém o direito de manter outra criatura aprisionada na incerteza. Há silêncios que protegem a paz, mas há aqueles que, usados deliberadamente contra quem espera, se tornam instrumentos de crueldade. Uma civilização pode conquistar as estrelas e continuar moralmente primitiva se não aprender a tratar com consideração aqueles a quem um dia ofereceu sua luz.
Semente reflexiva: Nem toda ausência é abandono, nem todo silêncio é desamor. Mas, quando nos afastamos, uma palavra pode poupar o outro de se perder em perguntas sem resposta. Afinal, a liberdade de partir também pode coexistir com o cuidado de não deixar alguém à deriva.
Thoughts
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PermalinkVixe, os habitantes de Andrômeda mandando ela ocupar o tempo com descoberta nova. É o que todo mundo diz, minha filha. Ela foi pra nebulosa e voltava procurando o sinal do mesmo jeito.
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PermalinkA Áster só sentiu falta quando o canal fechou. Isso eu já vi acontecer mais de uma vez, e quase sempre tarde.
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PermalinkFui a Áster uma vez. Parei de responder porque não sabia o que dizer, e quanto mais tempo passava mais vergonha dava de voltar. Não tinha cálculo nenhum. Mas do lado de lá o efeito deve ter sido o mesmo.
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PermalinkO pulso de vez em quando só pra não fechar o canal. Já recebi desses, um oi a cada dois meses, e cada um zerava tudo de novo.
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