No fundo do mar, enquanto passava uma família de tartarugas pela corrente oceânica, um polvo lamentou:
— Como é fácil percorrer distâncias tão longas a essa velocidade! Vivo cercado pela força dessa correnteza, mas gostaria de ser rápido.
Os corais ouviram o lamento do polvo e responderam:
— Ao menos tu consegues te deslocar.
O polvo era lento, mas um observador perspicaz, capaz de formular críticas e pensamentos com rapidez. Era conhecido por todos os animais marinhos por seu hábito de lamentar-se, enxergando nos outros tudo aquilo que acreditava não possuir.
Devido a esse comportamento, o polvo vivia solitário. Sentia-se inútil, era medroso e não gostava de correr riscos.
Certo dia, ao passear por uma região tranquila do mar, encontrou algo que parecia um pequeno berço. Dentro dele, havia numerosos ovos, cuidadosamente depositados entre as plantas marinhas. Procurou pela mãe, mas descobriu que ela era um peixe que havia sido capturado por pescadores.
Foi a primeira vez que o polvo desejou agir de maneira diferente.
Naquele instante, um cardume de peixes-palhaço passou apressado, agitando as nadadeiras.
— Corram! Movimentem-se!
— Vamos, velocidade nas nadadeiras! — gritavam, fugindo de uma criatura desconhecida que se aproximava.
O polvo observou a agitação e sentiu o velho medo apertar-lhe o corpo.
— O que posso fazer para proteger esses pequenos? Sou lento demais! — murmurou. — Estou pressionado, mas, embora seja lento, consigo pensar.
Em vez de fugir, examinou o lugar. Percebeu que os ovos estavam expostos à correnteza e que a criatura que se aproximava poderia destruí-los. Com seus oito braços, recolheu algas, conchas e pequenos ramos de coral caídos, construindo uma proteção ao redor do ninho. Depois, camuflou o próprio corpo entre as pedras e permaneceu ali, atento a qualquer movimento.
A criatura surgiu: era um grande peixe predador, atraído pelo cheiro dos ovos. Procurou uma abertura entre as algas, mas o polvo, usando a inteligência e a habilidade de seus tentáculos, levantou uma nuvem de tinta que confundiu o invasor. Em seguida, conduziu-o para longe do ninho, desaparecendo entre as fendas rochosas.
Quando as águas voltaram à tranquilidade, os peixes-palhaço retornaram e encontraram os ovos protegidos. Admirados, perguntaram:
— Como conseguiste fazer tudo isso, se és tão lento?
O polvo olhou para o ninho e, pela primeira vez, não encontrou motivo para se diminuir.
— Não fui o mais veloz, nem o mais forte. Apenas deixei de perguntar por que não era como os outros e comecei a descobrir o que poderia fazer com aquilo que sou.
Dias depois, os ovos eclodiram, e pequenas criaturas nadaram pelo mar. O polvo acompanhou aquele movimento com alegria silenciosa. Ainda era lento, ainda tinha medos e ainda percebia nos outros habilidades que não possuía. Mas já não confundia suas limitações com inutilidade.
Desde então, quando algum animal marinho lamentava não ser como os demais, o polvo costumava dizer:
— O mar não precisa que todos nadem na mesma velocidade. Precisa que cada um descubra como pode contribuir para a vida.