Aquele medo do pai que não sai de dentro. O medo silencioso de quem ama demais. Isso é o livro inteiro.
O último juramento 🗡️
O ÚLTIMO JURAMENTO
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Aquele medo do pai que não sai de dentro. O medo silencioso de quem ama demais. Isso é o livro inteiro.
Conteúdo da publicação
O ÚLTIMO JURAMENTO
A história de Cael de Avelon
CAPÍTULO I — ANTES QUE CAEL TIVESSE UM NOME
Há crianças que nascem no meio de celebrações, sob o som de sinos e de vozes agradecendo aos céus por mais uma vida. Há outras que chegam ao mundo quase em segredo, como se a própria existência tivesse medo de anunciar a sua chegada. Cael nasceu numa dessas manhãs em que Avelorn parecia ter esquecido de acordar. O céu estava coberto por nuvens baixas, pesadas, tão próximas dos telhados que pareciam querer esmagar a cidade contra a terra. Chovia havia horas. Não uma chuva violenta, dessas que assustam os homens, mas uma chuva persistente, quase triste, que batia nas janelas com a paciência de alguém que sabe que, cedo ou tarde, toda casa precisa abrir uma porta. Naquela manhã, ninguém sabia que um menino estava nascendo. E talvez fosse melhor assim. Porque existem destinos que, quando anunciados cedo demais, começam a pesar sobre a pessoa antes mesmo que ela aprenda a carregá-los.
A mãe de Cael segurava o lençol com força. Não porque fosse uma mulher fraca, mas porque descobrira naquele momento uma verdade que nenhuma mãe consegue explicar completamente: trazer alguém ao mundo é entregar uma parte de si a um lugar onde já não se pode protegê-la. Ela olhava para o teto enquanto respirava com dificuldade, e em seus olhos havia medo. Não o medo da dor. A dor era simples; tinha começo, intensidade e fim. O que a assustava era o futuro. O futuro de seu filho. Ela pensava nas guerras que ouvira contar, nos homens que nunca voltaram, nas mães que aprenderam a reconhecer passos na estrada apenas para descobrir, pelo jeito como alguém caminhava até sua porta, que a notícia seria ruim. Pensava que talvez o mundo fosse grande demais para um menino tão pequeno. E, ainda assim, quando ouviu o primeiro choro, alguma coisa dentro dela se desfez. Não de tristeza. De amor. Um amor tão imenso que quase doía. Ela não sabia quem ele seria. Não sabia se seria corajoso ou covarde, bondoso ou cruel, sábio ou tolo. Só sabia que, naquele instante, ele era seu.
O pai estava próximo da janela. Um homem acostumado ao peso das coisas. Suas mãos carregavam marcas do trabalho, pequenas cicatrizes, calos, sinais de uma vida em que nada lhe havia sido entregue gratuitamente. Ele olhou para o filho e permaneceu em silêncio. Talvez porque os homens daquela época tivessem sido ensinados a acreditar que silêncio era força. Talvez porque não soubesse como dizer que estava assustado. Ele queria que Cael crescesse forte, mas naquele instante percebeu que força não significava não sofrer. Pela primeira vez, compreendeu que o filho que acabara de nascer um dia poderia sentir uma dor que ele jamais conseguiria arrancar de seu peito. E isso o aterrorizou. O pai queria prometer que estaria sempre ali. Queria jurar que nenhum mal alcançaria aquele menino. Mas não disse nada. Porque alguns juramentos são feitos no coração justamente quando descobrimos que não temos poder para cumpri-los.
E assim Cael chegou ao mundo.
Não como um escolhido.
Não como um herói.
Não como alguém destinado à grandeza.
Chegou simplesmente como uma criança.
E talvez essa seja a coisa mais importante sobre ele.
Antes de carregar uma espada, Cael carregou um colo. Antes de conhecer a guerra, conheceu o cheiro da madeira úmida, o calor de uma casa, o som da chuva sobre o telhado e a voz de sua mãe chamando seu nome. Antes de aprender que homens podiam matar uns aos outros por reis que nunca conheceriam, aprendeu que uma mão podia segurar outra sem exigir nada em troca.
Avelorn crescia ao redor dele.
A cidade tinha suas próprias feridas. As casas se apertavam umas contra as outras como velhos tentando se proteger do frio. As ruas de pedra guardavam marcas de passos de milhares de pessoas que haviam passado por ali e desaparecido para sempre. Havia paredes que conheciam mais segredos do que qualquer sacerdote. Havia portas que haviam sido fechadas pela última vez por homens que nunca retornaram. E havia janelas onde mães esperavam filhos, esposas esperavam maridos e crianças esperavam pais.
Uma cidade também pode sentir.
Avelorn sentia.
Sentia o peso dos invernos, a esperança das primaveras, a pobreza escondida atrás das cortinas e a riqueza exibida nas praças. Sentia o medo dos homens quando os rumores de guerra chegavam. Sentia a alegria dos casamentos, o silêncio dos funerais e aquela estranha indiferença dos dias comuns, quando alguém nascia em uma casa enquanto, na casa ao lado, alguém morria.
A cidade continuaria existindo depois de Cael.
Esse era o primeiro ensinamento que o mundo lhe daria.
Nada é tão importante para o mundo quanto parece ser para nós.
Para uma criança, perder um brinquedo pode ser o fim do universo.
Para uma mãe, perder um filho também.
E o mundo, cruel como às vezes é, continua girando nos dois casos.
.
CAPÍTULO II — A CASA DO FERREIRO
Cael cresceu na Casa do Ferreiro.
Era uma casa simples, construída com madeira escura e pedras antigas, com paredes que pareciam ter aprendido a suportar o inverno antes mesmo de seus habitantes nascerem. O fogo da forja iluminava parte dela durante as noites, lançando sombras compridas pelas paredes. Para Cael, aquelas sombras eram monstros quando criança. Mais tarde, descobriria que os verdadeiros monstros raramente tinham forma tão fácil de reconhecer.
Seu pai trabalhava o ferro.
Martelava.
Aquecia.
Golpeava.
Recomeçava.
Cael costumava observá-lo durante horas. Havia algo quase religioso naquele trabalho. O metal chegava à forja duro, frio e sem forma. Então o fogo o tornava vulnerável. O martelo o feria. O homem o golpeava repetidamente até que aquilo que antes parecia inútil começasse a adquirir forma.
Cael demorou anos para compreender a ironia.
Os homens também eram assim.
Talvez a vida fosse a forja.
Talvez algumas pessoas fossem moldadas pelo amor.
Outras, pela perda.
Outras, pelo abandono.
E algumas precisavam atravessar tanto fogo que, quando finalmente tomavam forma, já não sabiam se haviam se tornado fortes ou apenas deixado de sentir.
Seu pai nunca dizia isso.
Homens como ele não costumavam transformar pensamentos em palavras.
Mas Cael percebia.
Percebia no modo como o pai segurava o martelo quando estava preocupado. Percebia na maneira como sua mãe ficava em silêncio quando alguma coisa a machucava. Percebia que os adultos tinham um estranho hábito de dizer “está tudo bem” justamente quando nada estava.
A infância de Cael não foi perfeita.
Talvez nenhuma infância verdadeira seja.
Havia dias de felicidade tão simples que pareciam insignificantes: correr pelas ruas, sujar as mãos, rir de coisas idiotas, ouvir histórias antes de dormir.
E havia dias em que a casa parecia pequena demais para conter todos os sentimentos de seus habitantes.
Cael aprendeu cedo que amor não era ausência de sofrimento.
Amar alguém era aceitar que essa pessoa teria o poder de destruir partes de você sem sequer querer fazê-lo.
Sua mãe o amava de maneira quase desesperada. Às vezes o observava dormir durante a noite, quando pensava que ninguém percebia. Olhava para o filho e tentava imaginar o homem que ele se tornaria.
Ela tinha medo de não viver o suficiente para conhecê-lo.
Esse medo nunca dizia seu nome.
Ficava escondido.
Atrás dos olhos.
Atrás dos sorrisos.
Atrás de todas as vezes que dizia:
— Durma bem.
Porque, para uma mãe, desejar que o filho durma bem também é uma maneira silenciosa de dizer:
“Por favor, esteja aqui amanhã.”
.
CAPÍTULO III — A MENINA ATRÁS DOS MUROS
Foi na infância que Cael conheceu a menina atrás dos muros.
A cidade tinha lugares onde crianças não deveriam ir. Lugares proibidos não porque fossem necessariamente perigosos, mas porque os adultos acreditavam que certas coisas deveriam permanecer distantes dos olhos dos jovens.
Cael nunca foi particularmente bom em obedecer.
Encontrou-a atrás dos muros.
Ela estava sozinha.
E havia naquela solidão alguma coisa que Cael reconheceu sem compreender.
Talvez porque algumas pessoas não precisem explicar sua tristeza para que outra pessoa a reconheça.
Eles começaram conversando pouco.
Depois, conversando muito.
E finalmente aprenderam a ficar em silêncio juntos.
Essa talvez tenha sido a forma mais pura de intimidade que Cael conheceu.
Porque falar é fácil.
Podemos escolher palavras.
Podemos esconder intenções.
Podemos mentir.
Mas permanecer em silêncio ao lado de alguém exige confiança.
Ela tornou-se o lugar onde Cael podia existir sem precisar parecer forte.
E Cael tornou-se para ela aquilo que o mundo raramente oferecia:
um espaço onde não precisava fingir.
Os dois criaram um mundo particular.
Não era grande.
Não precisava ser.
Era um pedaço de muro, algumas árvores, uma parte esquecida de Avelorn e o céu acima deles.
Chamaram aquele lugar de Lugar Deles.
Ali, a guerra parecia distante.
Os reis pareciam distantes.
A pobreza, as diferenças entre famílias, os muros e os sobrenomes pareciam distantes.
Ali eram apenas dois jovens tentando descobrir como viver.
E talvez seja por isso que aquele lugar se tornaria tão importante.
Porque todo ser humano precisa de algum lugar onde possa acreditar que o mundo ainda é pequeno o suficiente para caber dentro das mãos.
.
CAPÍTULO IV — DOIS MUNDOS
Cael cresceu.
E crescer foi descobrir que o mundo não era dividido entre bons e maus.
Era dividido entre pessoas.
Pessoas contraditórias.
Pessoas capazes de amar e ferir no mesmo dia.
Pessoas que desejavam paz enquanto preparavam armas.
Pessoas que falavam sobre honra porque tinham medo de admitir que queriam poder.
Cael começou a enxergar dois mundos.
O primeiro era o mundo que lhe ensinaram.
Um mundo de reis justos, soldados honrados, homens virtuosos e sacrifícios necessários.
O segundo era aquele que ele via.
Um mundo de pessoas comuns pagando o preço pelas decisões de pessoas que jamais conheceriam seus nomes.
Foi então que sua infância começou a morrer.
Não de uma vez.
A infância não desaparece como uma vela apagada.
Ela se desfaz aos poucos.
Primeiro perdemos algumas certezas.
Depois algumas pessoas.
Depois algumas ilusões.
Até que um dia percebemos que estamos olhando para o mesmo céu de quando éramos crianças, mas já não conseguimos enxergá-lo da mesma maneira.
A menina continuava ao lado dele.
E talvez tenha sido por isso que Cael conseguiu suportar.
Porque amar alguém é também encontrar testemunha para aquilo que o mundo tenta apagar.
Eles riam.
Eles discutiam.
Eles sonhavam.
E, durante algum tempo, isso bastou.
Mas o mundo sempre cobra.
.
CAPÍTULO V — O AMOR E A PRIMEIRA RUPTURA
O amor entre eles não nasceu como nas histórias.
Não houve música.
Não houve declaração perfeita.
Houve medo.
Houve mãos que demoravam a se tocar.
Olhares desviados.
Palavras engolidas.
E aquela pergunta terrível que todo jovem apaixonado conhece:
“E se eu disser o que sinto e perder até mesmo o que tenho?”
Cael amava.
Mas amar não o tornou mais corajoso.
Tornou-o mais vulnerável.
Porque agora existia alguém cuja dor poderia doer mais nele do que a própria.
O Lugar Deles deixou de ser apenas um esconderijo.
Virou promessa.
E promessas são coisas perigosas.
Porque prometemos eternidade usando palavras que só conhecem o presente.
Então veio a primeira ruptura.
Não necessariamente porque deixaram de amar.
Às vezes as pessoas se afastam justamente porque amam.
O mundo começou a entrar entre eles.
Família.
Medo.
Dever.
Diferenças.
E finalmente a guerra.
Cael descobriu uma verdade que o acompanharia pelo resto da vida:
nem todo amor termina porque acabou. Alguns terminam porque o mundo não permitiu que continuassem.
Naquela noite, ele voltou sozinho para o Lugar Deles.
Sentou-se junto ao muro.
O vento passava pelas árvores.
Ele esperou.
Mesmo sabendo que ela talvez não viesse.
Esperou porque o coração humano possui essa crueldade: continua esperando mesmo depois que a esperança já morreu.
.
CAPÍTULO VI — A CONVOCAÇÃO
A convocação chegou numa manhã fria.
Um papel.
Algumas palavras.
Um selo.
E, de repente, toda a vida de Cael pareceu pequena.
Era estranho.
Uma pessoa pode passar quinze anos construindo um mundo inteiro e perder esse mundo em alguns segundos.
Seu pai leu a convocação.
Não disse nada.
A mãe percebeu pelo rosto dele.
Foi então que o silêncio da Casa do Ferreiro se tornou maior do que a própria casa.
O fogo continuava queimando.
As ferramentas continuavam penduradas.
O ferro continuava existindo.
Mas alguma coisa havia mudado.
Cael olhou para os pais e percebeu que eles estavam tentando ser fortes por ele.
E isso doeu.
Porque finalmente entendeu que os adultos não eram gigantes.
Eram apenas crianças que envelheceram sem deixar de sentir medo.
Sua mãe queria dizer:
“Não vá.”
Mas não disse.
Seu pai queria dizer:
“Eu vou com você.”
Mas sabia que não podia.
E Cael queria dizer:
“Eu estou com medo.”
Mas havia sido ensinado que homens não deveriam dizer isso.
Então ninguém disse aquilo que realmente queria dizer.
E aquela talvez tenha sido a primeira derrota de Cael.
Antes mesmo de partir.
.CAPÍTULO VII — AQUILO QUE NÃO FOI DITO
A noite havia chegado a Avelorn de maneira silenciosa. O frio começava a ocupar as ruas, e uma névoa fina repousava sobre os telhados como um véu. Cael caminhava sozinho em direção ao Lugar Deles, carregando dentro da roupa a convocação que mudaria sua vida. Era estranho pensar que um simples pedaço de papel pudesse possuir tamanho poder. Durante anos, ele havia imaginado o futuro como algo distante, uma estrada que poderia escolher quando chegasse a ela. Agora descobria que algumas estradas eram colocadas diante de nós sem que tivéssemos escolhido caminhar. Enquanto passava pelas casas, olhava para cada janela iluminada e imaginava as pessoas dentro delas. Alguém jantava. Alguém discutia. Uma criança dormia. Uma mãe cobria o filho. A vida continuava, indiferente à partida de um rapaz que naquela manhã ainda acreditava ter tempo. E Cael percebeu que talvez fosse essa a primeira crueldade do destino: o mundo nunca interrompe seu movimento apenas porque o nosso coração parou.
Ela estava esperando junto ao velho muro. Durante alguns segundos, Cael não disse nada. Apenas ficou olhando para ela, tentando guardar aquela imagem dentro de si. A princesa parecia diferente naquela noite. Não havia a postura exigida pelo título, nem a distância que os outros costumavam colocar entre eles. Havia apenas uma jovem assustada, tentando esconder o medo com a mesma dignidade que aprendera desde criança. Quando finalmente se sentou ao lado dela, os dois permaneceram em silêncio. Havia coisas que já sabiam e outras que nenhum deles possuía coragem de pronunciar. Durante anos, aquele lugar havia sido onde podiam esquecer quem eram. Agora era justamente onde precisavam lembrar. O muro, as árvores e o chão coberto de folhas pareciam testemunhas de uma infância que estava terminando.
— Você está com medo? — ela perguntou.
Cael demorou a responder. Pela primeira vez, não tentou parecer forte.
— Estou.
Ela baixou os olhos.
— Eu também.
Foi uma resposta simples, mas Cael sentiu nela algo maior que qualquer discurso. Durante toda a vida, haviam ensinado que coragem era não demonstrar medo. Naquela noite, porém, ele começou a compreender que talvez fosse o contrário. Talvez coragem fosse olhar para alguém e admitir que estamos assustados, mesmo sabendo que nada poderá nos proteger completamente. Ele contou que tinha medo de morrer, mas tinha ainda mais medo de voltar diferente. Medo de que a guerra roubasse aquilo que havia nele antes mesmo de roubar sua vida. Ela ouviu sem interromper. Então disse que tinha medo de um dia olhar para a estrada e perceber que esperara por alguém que nunca voltaria. Cael quis tranquilizá-la, dizer que retornaria, que tudo ficaria bem. Mas as palavras morreram antes de chegarem à boca. Ele finalmente compreendeu que uma promessa feita contra o destino pode ser apenas outra forma de mentira.
— Então me promete apenas que vai tentar — ela disse.
Cael segurou sua mão.
— Eu prometo.
E aquilo foi tudo. Não prometeram eternidade. Não prometeram que o mundo seria bondoso. Não prometeram que a guerra não os mudaria. Apenas prometeram tentar. Talvez aquela fosse a única promessa honesta que duas pessoas poderiam fazer diante de um futuro desconhecido. Ela então confessou aquilo que ambos já sabiam havia muito tempo. Disse que o amava. Cael permaneceu em silêncio por alguns segundos, sentindo aquelas palavras atravessarem todas as paredes que havia construído dentro de si. Depois respondeu que também a amava. Não houve música, nem estrelas surgindo no céu, nem qualquer milagre. Apenas duas pessoas sentadas junto a um muro, segurando as mãos uma da outra enquanto o mundo continuava indiferente. E talvez justamente por isso aquele momento tenha sido tão verdadeiro.
Eles falaram sobre o futuro como crianças que ainda acreditavam possuir algum controle sobre ele. Falaram de uma casa, de uma vida distante dos muros e das obrigações, de coisas pequenas que um dia poderiam parecer insignificantes. Ela queria uma casa perto do mar. Cael preferia as montanhas. Riram da própria discussão. Durante alguns minutos, esqueceram a guerra. Mas a felicidade daquela noite possuía uma tristeza escondida, porque ambos sabiam que estavam imaginando um futuro que talvez nunca existisse. O ser humano possui essa estranha capacidade de sonhar mesmo quando tudo ao redor parece desabar. Talvez sonhar seja uma forma de resistência. Talvez seja a maneira que encontramos de dizer ao destino que, apesar de tudo, ainda somos capazes de imaginar alguma coisa além da dor.
Quando o amanhecer começou a surgir, chegou o momento que nenhum dos dois queria enfrentar. Cael se levantou, e ela permaneceu imóvel por alguns segundos, como se levantar também significasse aceitar que ele realmente partiria. Então os dois se abraçaram. Não havia palavras capazes de conter aquilo. Ela segurou Cael como se pudesse impedir a distância, enquanto ele fechava os olhos e tentava guardar o calor daquele abraço. Pensou que talvez, algum dia, no meio de uma noite fria e distante, precisasse lembrar daquela sensação para continuar. Quando se separaram, ambos choravam. Ela tocou seu rosto e disse apenas: — Volta para mim. Cael queria responder com certeza, mas só conseguiu dizer: — Eu vou tentar. E ela entendeu.
Cael começou a caminhar em direção aos portões de Avelorn. A cada passo, o Lugar Deles ficava mais distante. A casa onde crescera também. A forja do pai. A voz da mãe. A infância. A princesa. Tudo parecia permanecer atrás dele enquanto a estrada se abria diante de seus pés. Pela primeira vez, Cael percebeu que partir não significava apenas abandonar um lugar. Significava aceitar que, quando retornasse — se retornasse — algumas coisas talvez não existissem mais como antes. Pessoas mudariam. Casas envelheceriam. A cidade carregaria novas cicatrizes. E talvez ele próprio fosse a maior mudança.
Quando atravessou os portões, Cael não olhou para trás. Não porque não quisesse, mas porque sabia que, se olhasse, talvez não conseguisse continuar. Avelorn permanecia atrás dele, viva e silenciosa, enquanto a estrada conduzia-o para uma guerra que ainda não conhecia. Ele não sabia os nomes dos amigos que encontraria. Não sabia quais deles morreriam. Não sabia que conheceria alguém que acabaria amando-o enquanto seu coração permanecia preso à princesa. Não sabia que seria traído. Não sabia que pisaria em um campo onde a terra se misturaria ao sangue. Naquele momento, Cael sabia apenas uma coisa: estava indo embora. E algumas despedidas começam muito antes de alguém dizer adeus..
.CAPÍTULO VIII — OS MESES SEM SOL
A estrada para a guerra não possuía a aparência que Cael havia imaginado durante a infância. Não havia monstros surgindo das montanhas, nem exércitos cobrindo o horizonte, nem trombetas anunciando que o mundo estava prestes a mudar. Havia apenas lama, frio e homens caminhando em silêncio. Durante os primeiros dias, Cael ainda olhava para trás de vez em quando, mesmo sabendo que Avelorn já havia desaparecido há muito tempo. A cidade continuava existindo dentro dele, porém de uma maneira diferente. Antes, Avelorn era um lugar. Agora começava a se transformar em lembrança. E Cael descobriu que a distância não mede apenas quilômetros; às vezes ela mede o quanto uma coisa começa a parecer impossível de tocar novamente. À noite, quando os soldados acampavam, ele pensava na princesa. Lembrava-se de sua voz, de suas mãos, do velho muro e daquela última frase: “Volta para mim.” Era estranho carregar uma pessoa dentro do peito enquanto caminhava para um lugar onde milhares de homens estavam aprendendo a matar.
Foi durante a primeira semana que Cael conheceu aqueles que, mais tarde, chamaria de amigos. O primeiro foi Elias, um rapaz de sorriso fácil que parecia incapaz de permanecer sério por muito tempo. Tinha vindo de uma pequena aldeia e falava constantemente sobre a mãe, embora sempre fingisse estar reclamando dela. O segundo era Tomas, mais reservado, quase sempre segurando uma pequena medalha que pertencera ao pai. Falava pouco, mas quando falava todos escutavam. Havia também Daren, o mais velho dos três, um homem de vinte e poucos anos que já conhecia a guerra e carregava nos olhos aquela espécie de cansaço que não vinha apenas da falta de sono. Cael não confiou neles imediatamente. Talvez ninguém confiasse. A guerra aproximava pessoas depressa demais. Em poucos dias, desconhecidos dividiam cobertores, comida e medo. Era uma intimidade estranha, construída não pelo tempo, mas pela necessidade. Ainda assim, pouco a pouco, aqueles homens começaram a ocupar um espaço que Cael não sabia que precisava.
Os dias seguintes ensinaram-lhe que a guerra era muito menos gloriosa do que as histórias contavam. O frio entrava pelos ossos. A comida era pouca. O sono era interrompido constantemente. As botas ficavam pesadas de lama e os homens aprendiam a dormir mesmo com o corpo doendo. Cael descobriu que o medo não desaparecia quando alguém se acostumava com ele. Apenas mudava de lugar. No começo, sentia-o no estômago. Depois, nas mãos. Mais tarde, percebeu que o medo podia viver atrás dos olhos e permanecer ali mesmo quando o rosto parecia tranquilo. Os soldados falavam sobre coragem, mas Cael começou a entender que quase todos estavam apenas tentando sobreviver até o próximo amanhecer. E havia algo profundamente humano nisso. Homens que haviam saído de suas casas acreditando que defenderiam grandes ideias agora pensavam em coisas muito menores: um pedaço de pão, uma noite de sono, uma carta da família, o rosto de alguém que amavam.
Elias tornou-se o primeiro a perceber a tristeza de Cael. Certa noite, enquanto os dois dividiam um pedaço de pão duro perto da fogueira, perguntou por que ele sempre ficava olhando para o céu. Cael respondeu que lembrava alguém. Elias não perguntou quem. Apenas sorriu e disse que algumas pessoas eram melhores quando permaneciam sem nome. Cael riu pela primeira vez em muitos dias. A amizade entre eles nasceu assim, sem cerimônia. Daren ensinou Cael a reconhecer os sons da floresta e a dormir com um olho aberto. Tomas mostrou-lhe como guardar pequenos objetos para não perdê-los durante uma marcha. Em troca, Cael contou histórias de Avelorn. Falou da Casa do Ferreiro, da forja, das ruas de pedra e do Lugar Deles. Às vezes os três ouviam em silêncio, como se Avelorn fosse uma cidade inventada por alguém que nunca havia conhecido a guerra. Para Cael, falar de casa era quase como voltar para lá por alguns minutos.
Então veio a primeira batalha.
Foi menor do que as que os homens haviam imaginado e maior do que qualquer coisa que Cael estivesse preparado para suportar. O som das armas era diferente quando acontecia de verdade. Não possuía a beleza das histórias. Era confuso, brutal e próximo demais. Cael viu homens correndo, caindo e levantando novamente. Sentiu o cheiro de terra molhada misturado ao de fumaça. Quando finalmente ergueu sua arma contra outro homem, hesitou por um instante. Foi apenas um instante. Mas naquele instante enxergou que havia uma pessoa diante dele. Não um inimigo. Não um símbolo. Uma pessoa. Talvez tivesse mãe. Talvez tivesse filhos. Talvez alguém estivesse esperando por ele em algum lugar. Então o mundo desapareceu atrás do medo e Cael golpeou. Depois, quando tudo terminou, permaneceu parado olhando para as próprias mãos. Elas tremiam. Ninguém percebeu. Ou talvez todos tivessem percebido e fingido que não.
Naquela noite, Cael não conseguiu dormir. Elias estava sentado perto dele, em silêncio. Depois de algum tempo, colocou a mão sobre seu ombro. Não disse que tudo ficaria bem. Talvez tivesse aprendido que certas frases são cruéis justamente porque tentam diminuir aquilo que não pode ser diminuído. Apenas permaneceu ali. Cael percebeu então que amizade talvez não fosse encontrar alguém capaz de resolver nossa dor. Talvez fosse encontrar alguém disposto a permanecer ao nosso lado enquanto ela existe. O fogo diminuía diante deles, e Cael pensou na princesa. Perguntou-se se ela estaria olhando para a mesma lua. Talvez estivesse dormindo. Talvez estivesse acordada. Talvez tivesse chorado. Talvez tivesse tentado não pensar nele. A distância tornou-se insuportável naquele momento. Cael percebeu que nunca havia entendido realmente o significado da saudade. Saudade não era simplesmente querer alguém perto. Era continuar vivendo enquanto uma parte de você permanecia em outro lugar.
Os meses passaram.
E o homem que havia deixado Avelorn começou lentamente a desaparecer dentro de Cael. Não de uma vez. Não completamente. Ainda havia momentos em que ria com Elias, ainda pensava na mãe quando via alguém preparando comida, ainda lembrava do pai sempre que ouvia o som de um martelo contra o metal. Mas alguma coisa havia endurecido. A guerra ensinava rápido demais. Cael aprendeu a desconfiar de ruídos, a reconhecer o cheiro da fumaça, a observar os olhos dos homens antes de acreditar em suas palavras. Aprendeu que algumas pessoas choravam escondidas. Aprendeu que outras riam justamente depois de perder alguém. Aprendeu que havia soldados que rezavam antes de dormir e outros que não acreditavam mais em nada. E, acima de tudo, aprendeu que sobreviver não significava sair ileso. Às vezes, o corpo continuava inteiro enquanto alguma coisa muito mais delicada dentro dele começava a desaparecer.
Ainda assim, nas noites mais silenciosas, Cael pegava um pequeno pedaço de papel e escrevia para a princesa. Nem sempre conseguia enviar as cartas. Algumas eram destruídas. Outras permaneciam escondidas dentro de sua roupa. Escrevia sobre o frio, sobre os amigos, sobre Avelorn, mas nunca descrevia completamente as batalhas. Não queria que ela imaginasse aquilo. Não queria que a mulher que amava precisasse carregar imagens que já estavam pesando demais dentro dele. Então escrevia sobre o céu. Sobre as árvores. Sobre pequenas coisas. Era sua maneira de preservar alguma humanidade. E quando terminava, dobrava o papel e ficava alguns segundos segurando-o contra o peito. Talvez escrever fosse uma espécie de ponte. Uma ponte frágil entre dois mundos que começavam a se afastar.
O inverno chegou completamente, e Cael percebeu que já não sabia quantos meses haviam passado desde a partida. As estações haviam mudado sem pedir permissão. A primavera que um dia imaginara encontrar em Avelorn agora parecia pertencer a outra vida. O tempo havia deixado de ser contado por dias e passado a ser contado por perdas. Um homem desaparecido. Outro ferido. Outro que nunca acordou. Nomes começaram a ser esquecidos. Rostos começaram a desaparecer. Mas Elias, Tomas e Daren continuavam ao lado dele. E Cael, apesar de tudo, ainda tinha uma razão para esperar o amanhecer.
Às vezes, quando todos dormiam, Cael olhava para o céu e pensava que talvez a princesa também estivesse fazendo o mesmo. Não sabia se era verdade. Não tinha como saber. Mas precisava acreditar. Porque naquele mundo onde quase tudo podia ser arrancado de um homem, havia algo que a guerra ainda não conseguira tomar dele: a esperança de que, em algum lugar distante, alguém ainda olhava para o céu e esperava que ele voltasse.
.
.......
Thoughts
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PermalinkEscreveu um livro inteiro para dizer que mães têm medo. Deu resultado hahaha
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PermalinkParece que esse 'último juramento' do título vai ser exatamente o que ninguém consegue dizer no final do capítulo. A palavra que fica presa.
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PermalinkO lugar deles atrás dos muros me faz lembrar de quantas histórias de amor começam em espaços roubados. Histórias que a gente cria longe de tudo. 😔
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PermalinkEssa coisa de crescer descobrindo que adultos são gente com medo foi assim comigo. O que escreveu sobre três pessoas na mesma casa querendo dizer coisas que não conseguem dizer é tão preciso. A mãe quer gritar 'não vá', o pai quer ir, o filho quer admitir medo, e ninguém fala.
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PermalinkDói demais
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PermalinkAquele medo do pai que não sai de dentro. O medo silencioso de quem ama demais. Isso é o livro inteiro.
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PermalinkQue escrita! Seis capítulos e você já tem a forma inteira do livro. Tem mais por aqui?
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PermalinkParei aqui no meio e vou ter que voltar depois porque isso não é pra ler de uma vez. A parte que mais doeu foi a mãe olhando pra ele dormindo à noite, tendo medo de não chegar a conhecer o homem que ele fica. Isso é amor transformado em espera, sabe? 💔
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PermalinkEssa e uma produção jovem,feita por um adolescente de 15 anos, buscando ser um escritor e cativar quem lê suas obras,Cael foi expirado numa vida em que os mínimos detalhes fazem a diferença para que ele compreenda o mundo.
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