CAPÍTULO 4: Sombras na Avenida
A ausência de som lá fora era mais aterrorizante do que o barulho das criaturas. Indicava que elas haviam se movido para outra parte do complexo ou que algo maior atraíra sua atenção.
Gabriel colocou o indicador sobre os lábios, pedindo silêncio. Ele aproximou o ouvido da porta de aço e escutou por longos segundos antes de destravar a fechadura lentamente. A trava metálica deu um estalo suave.
Ele abriu uma fresta de apenas alguns centímetros.
O corredor do hospital estava deserto, iluminado apenas pelas luzes vermelhas de emergência que oscilavam. O chão era um rastro de papéis espalhados, equipamentos médicos quebrados e poças escuras. O cheiro de ferro e decomposição precoce impregnava o ar.
— O caminho até a saída de emergência do subsolo está limpo — sussurrou Gabriel, olhando pelo vão. — Mas precisamos atravessar a recepção principal se quisermos chegar à rua.
— Não — Elena interveio, aproximando-se da fresta. — O heliponto ou a garagem do subsolo são opções melhores. A recepção é toda de vidro; se houver um bando do lado de fora, estaremos encurralados.
— A garagem está bloqueada. Quando cheguei, a segurança baixou os portões de ferro para impedir a invasão. A única saída a pé é pelo portão dos fundos da doca de expedição.
Elena assentiu, reconhecendo a lógica do plano. Ela foi até um armário de metal e pegou dois bisturis de cabo longo e um bastão de ferro usado para pendurar soro. Entregou o bastão para Gabriel.
— Não é uma pistola, mas quebra um crânio se necessário — disse ela.
— Espero não precisar descobrir — respondeu ele, testando o peso do metal.
Eles saíram do almoxarifado em passos calculados, mantendo-se colados às paredes do corredor. A cada sombra que se movia com o piscar das luzes, o pulso de Elena disparava. Gabriel ia à frente, usando seu corpo como escudo instintivo para protegê-la, uma atitude que Elena notou, mas preferiu não questionar.
Ao chegarem à curva que dava acesso às docas, encontraram a primeira barreira real.
Duas criaturas — um ex-funcionário da limpeza e uma mulher vestida com roupas civis — estavam curvadas sobre o corpo de um guarda de segurança. O som de mastigação úmida ecoava pelo espaço fechado.
— Precisamos passar por aquela porta atrás deles — sussurrou Elena, apontando para a divisória de compensado que levava ao pátio externo.
Gabriel olhou ao redor. No balcão de triagem próximo, havia uma bandeja de metal com tesouras e pinças. Ele pegou uma tesoura pesada e a arremessou na direção oposta do corredor.
A tesoura caiu com um estrondo agudo contra um carrinho de curativos.
Instantaneamente, as duas criaturas se ergueram. Seus movimentos eram espasmódicos, as cabeças girando em um ângulo não natural. Elas soltaram um ganido agudo e dispararam em direção ao som, sumindo pela dobradiça do corredor.
— Agora! — sussurrou Gabriel.
Eles correram em direção à porta da doca. Gabriel empurrou a barra antipânico, e a luz do sol nascente inundou seus olhos, cegando-os por um segundo.
O ar puro da manhã trazia consigo a fumaça de incêndios distantes. Ao saírem no pátio dos fundos, a visão da cidade de São Paulo era devastadora. Colunas de fumaça preta subiam de diversos pontos do horizonte. O som distante de sirenes presas em loop, alarmes de carros e tiros esporádicos formava a trilha sonora do novo mundo.
Abaixo deles, a avenida estava tomada por centenas de veículos abandonados, colididos uns contra os outros. E entre os destroços, dezenas de figuras perambulavam sem rumo, como sombras errantes sob o céu cinzento.
— Meu Deus... — murmurou Elena, cobrindo a boca.
Gabriel colocou a mão firmemente sobre o ombro dela, puxando-a para longe do parapeito antes que fossem vistos.
— O apartamento do meu irmão fica a vinte blocos daqui — disse Gabriel, olhando para a massa de infectados na rua. — Nós temos um longo caminho a percorrer. E a cidade já não pertence mais a nós.