O Abraço que Ela Deu a Si Mesma
Os dias seguiram, e Nanda carregava consigo aquela sensação nova — de ter conseguido, de ter falado, de ter estado presente. Mas algo ainda pesava, de um jeito silencioso e teimoso. Quando ninguém via, uma voz pequena dentro dela dizia: “Foi bom, mas podia ter sido melhor. Fiquei trêmula. Falei devagar demais. E se eles perceberam o quanto sou frágil?”
Uma tarde, estava sentada no banco de sempre, com o caderno aberto e sem conseguir escrever. Lucas chegou e sentou-se ao lado, como sempre fazia — sem pressa, sem invadir.
— Você está sorrindo por fora, mas não por dentro — observou ele, baixinho.
Nanda encolheu os ombros, brincando com a ponta do caderno.
— Eu consegui, né? Mas… não consigo parar de olhar só para o que deu errado. Para os erros. Para os tremores. É como se eu fosse muito dura comigo mesma. Com qualquer outra pessoa eu diria “está tudo bem”, mas comigo… é diferente. Sou rigorosa. Exijo perfeição que nem existe.
Ele ficou em silêncio por um instante, então disse:
— Sabe, Nanda… você cuida tão bem de mim quando fico inseguro. Você escuta, você acalma, você diz que está tudo bem. E se você tratasse você mesma do mesmo jeito?
A perna dela tremeu levemente. Ela nunca tinha pensado assim. Tratar a si mesma com a mesma gentileza que dava aos outros parecia algo impossível, quase errado.
— E se eu for gentil demais comigo e… não evolui? — sussurrou ela.
— Gentileza não é parar de crescer — respondeu ele, suavemente. É o chão onde a gente cresce. Quem é acolhido, ousa mais. Quem é acolhido por si mesma, não precisa mais ter tanto medo.
Naquela noite, Nanda escreveu no caderno, devagar, como se estivesse ensaiando algo novo:
“Hoje percebi que eu sou a pessoa com quem convivo todos os dias. Se eu souber ser dura comigo o tempo todo, não tenho para onde fugir. Então vou tentar. Não de uma vez. Mas um pouquinho a cada dia.”
Nos dias que vieram, foi aprendendo a perceber quando a voz crítica chegava. “Fiz devagar, então não sou boa” — e respondia, baixinho: “Fiz com coragem. Isso já é suficiente.” “Eles vão achar estranha” — e dizia: “Eu sou eu. E isso merece respeito também.”
Custou. Teve dias em que a voz antiga falava mais alto. Mas ela não brigava consigo mesma por sentir isso. Apenas respirava e dizia: “Estou aqui. Vamos devagar.”
Um dia, Lucas a encontrou no pátio, parada diante de um espelho pequeno que alguém tinha deixado num banco. Ela não estava olhando para os defeitos. Olhava para os olhos, para as mãos, para si — e sorriu, bem pequenininho, mas de verdade.
Ele se aproximou.
— O que você viu? — perguntou, suave.
Nanda respirou fundo e respondeu, com a voz mais calma que conseguia:
— Vi alguém que tem medo, mas vai mesmo assim. Alguém que erra, mas tenta de novo. Alguém que merece carinho… inclusive de si mesma.
Ele sorriu, e havia um brilho nos olhos dele.
— Essa pessoa é incrível.
Naquela noite, escreveu para Mariana: “Acho que o maior passo não foi falar na frente de todo mundo. Foi aprender a falar comigo mesma do jeito que você fala comigo. Do jeito que Lucas fala. Com gentileza. Com paciência. Com amor.”
A resposta veio logo, cheia de luz: “Eu sempre soube que você ia chegar aqui Agora se abraça bem forte por mim, tá? Você merece todo esse amor!”💛
Nanda deitou-se e abraçou a si mesma, apertando os braços ao redor do próprio corpo. Não foi perfeito. O coração ainda doía às vezes, os medos ainda apareciam. Mas agora ela sabia: o amor que precisava também morava dentro dela. E podia acolher-se, sempre.
Havia luz. Havia amor. Havia ela — inteira, imperfeita, corajosa e, finalmente, amiga de si mesma. 💫