Nanda tinha 16 anos e carregava mais perguntas do que respostas.
Quando estava sozinha no quarto, o mundo parecia pesado demais. Passava horas olhando para o teto, pensando: “Quem sou eu, afinal? Será que eu importo pra alguém? Será que eu sou suficiente?”. A mente dela era um turbilhão — pensamentos girando sem parar, coração acelerando de repente, mãos suadas, sensação de que tudo ia desmoronar. Era a ansiedade apertando o peito, dizendo que ela não era boa o suficiente, que era melhor se esconder.
Ela preferia o canto, as sombras, o silêncio. Falar com pessoas novas dava frio na barriga e vontade de desaparecer. Por isso, tinha pouquíssimos amigos — mas os que tinha, guardava com a vida.
Havia a melhor amiga, Mariana. Elas cresceram juntas, dividiam segredos, risadas, sonhos. Mas há um ano, Mariana se mudou para outra cidade. No começo, trocavam mensagens o dia todo. Com o tempo, as conversas foram ficando mais curtas, mais espaçadas, até virarem apenas um “tudo bem?” de vez em quando. Nanda olhava as fotos antigas e sentia um buraco no peito, mas nunca dizia o quanto sentia falta. Tinha medo de incomodar, de ser esquecida de vez.
E havia ele — Lucas.
Lucas era o único que conseguia fazê-la sorrir sem nem tentar. Ele sentava ao lado dela na aula, dividia lanche, ouvia seus silêncios como se fossem histórias. Era o melhor amigo do mundo. E Nanda… Nanda o amava mais do que conseguia explicar.
Mas nunca disse nada.
Quando ele olhava nos olhos dela, ela desviava o olhar. Quando ele falava de outras garotas, ela sorria e dizia “que legal”, enquanto o coração doía. Quase escreveu milhares de mensagens, mas apagou todas. “Ele nunca vai gostar de alguém como eu”, pensava. “Sou estranha, insegura, confusa. Vou estragar tudo se falar”.
As crises vinham de noite, quando o mundo ficava quieto. Ela questionava seu lugar, seu valor, se algum dia conseguiria ser feliz de verdade. Lucas notava que ela sumia às vezes, mas ela sempre dizia que era só cansaço. Ele perguntava se estava tudo bem, e ela respondia que sim, mesmo quando não estava.
Um dia, estavam sentados no banco da praça, onde sempre ficavam. O sol se punha e tingia o céu de laranja e roxo. Lucas falava sobre o futuro, sobre faculdade, sobre lugares que queria conhecer. Elisa o ouvia, admirando o brilho nos olhos dele.
— E você, Nanda? — ele perguntou, virando-se para ela. — O que você quer?
Ela abriu a boca, mas as palavras fugiram. Queria dizer: “Quero você. Quero não ter medo. Quero que Mariana esteja aqui. Quero saber quem eu sou”. Mas só conseguiu baixar o olhar e murmurar:
— Não sei ainda.
Lucas ficou em silêncio por um instante. Depois, disse baixinho:
— Tudo bem não saber. Eu espero. O que você sente, não é um peso que precisa carregar sozinha, sabia?
Nanda sentiu os olhos encherem de lágrimas. Pela primeira vez, alguém parecia enxergar além do silêncio dela.
— Eu tenho medo — sussurrou, quase sem voz. — De tudo. De não ser suficiente. De perder você também.
Lucas se aproximou um pouco, sem pressionar.
— Você nunca vai me perder. Não importa o que aconteça. E você é suficiente, do jeitinho que é. Com todos os medos e dúvidas.
Ela não disse que o amou. Ainda não conseguiu. Mas levantou o olhar e sorriu, de verdade, pela primeira vez em muito tempo. E segurou a mão dele, devagar. Ele apertou de volta, suave.
Mais tarde, naquela noite, ela escreveu uma mensagem para Mariana. Não foi curta nem simples. Disse que sentia falta, que doía a distância, que precisava dela. E apertou o botão de enviar, sem apagar.
Ainda havia dúvidas, ainda havia medo. O vazio não desapareceu de uma hora para outra. Mas agora ela sabia: não precisava carregar tudo sozinha. E talvez, só talvez, um dia tivesse coragem de dizer tudo o que sentia.
Terá continuação ou não ? depende de vocês