Eu não sou protagonista.
Não vivi mil histórias na minha vida.
Sim, estive lá enquanto minha mãe lutava para ficar viva.
Ouvi os relatos do meu pai sobre sua infância corrida.
Tenho memórias vívidas.
Lembro das vozes, dos cheiros
e vejo as imagens na minha cabeça,
inchadas de detalhes.
Mas nunca fui a protagonista.
Nem mesmo na minha própria vida.
E isso não me chateia ou me frustra.
O que acontece é que tomei consciência
de que não quero tanta chuva.
Chuva de informações,
de sentimentos.
E, ao mesmo tempo,
odiaria voltar a sentir o vazio no peito.
Então eu aceito?
Aceito ser a personagem principal de uma história
na qual, no roteiro,
eu sou apenas a esposa de um homem inteiro?
Lutei tanto,
briguei e xinguei.
Mesmo assim, aqui estou eu,
bem onde tudo cabe
no que o destino escolheu.
Poderia voltar a me viciar,
esquecer como as coisas vão se desenrolar.
Poderia eu tentar me livrar,
mas quem será a criatura
a tomar minha existência?
Não mexer com o livre-arbítrio.
Ser boa é sempre tentar acertar.
Às vezes,
eu não queria conseguir me controlar.
Mande-me mais uma carta.
Algo me diz que hoje é o meu dia de falhar.
(Autoral de Sids)