Dói demais ter que se arrepender
De ser de verdade, de se estender.
A gente conhece alguém, o peito esquenta,
E a alma, inocente, no outro se assenta.
Acha que o mundo encontrou calmaria,
E entrega o que tem, na mais pura ousadia.
Abre as gavetas de toda a bagunça,
Diz o que sente, o que o medo acusa.
Mostra o lado bonito, o avesso e o traço,
Sendo o abraço que busca outro abraço.
Mas logo em seguida, no peito um estalo:
O frio na barriga que me deixa calado.
Vem a voz no escuro que morde e deprime:
"Por que fiz de novo? Qual é o meu crime?"
Ver o outro mudando, ou ver que sumiu,
É soco no estômago que o vento frio abriu.
Dá uma vontade absurda de desaparecer,
Apagar os caminhos, deixar de viver
Na lembrança de quem não soube colher.
Apagar as mensagens, sumir do mapa,
Pois a dor da ilusão é a dor que mais racha.
Para não me quebrarem, eu criei meu castigo:
Olhar para o outro e ver um inimigo.
Penso o pior antes que o tempo passe,
Para que a queda não me despedace.
Prefiro o peso desse meu cinismo
Do que cair de novo no mesmo abismo.
É o meu jeito torto de gritar pro universo:
"Eu cansei de sangrar no final de cada verso!"
Mas por trás da armadura que o peito consome,
Eu sei o que a alma deseja e tem fome.
Você só queria poder descansar,
Tirar o escudo e o medo de amar.
Deitar num colo, sem ter que temer,
Sem ter a vergonha de ser quem você é.
Apenas querendo que o afeto combine,
E que ser humano nunca mais te recrimine.