Acordei no beijo na praia e acordei mesmo. Que coisa linda demais pra estar certa.
O Peso das Palavras Não Ditas-Capitulo 1 -A moça dos olhos cheios de futuro
Prólogo
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Pensamento
Acordei no beijo na praia e acordei mesmo. Que coisa linda demais pra estar certa.
Conteúdo da publicação
Prólogo
No quarto do hospital, as máquinas respiravam por ele.
Sobre a mesa de cabeceira havia apenas três coisas: um relógio parado, um
exemplar gasto de Grande Sertão: Veredas e um recorte de jornal amarelado de 1967.
Na fotografia, um rapaz de cabelos escuros sorria ao lado de uma jovem de
vestido azul.
Ela segurava um caderno cheio de poemas.
Ele a olhava como quem tinha encontrado uma pátria.
Sessenta anos haviam passado.
Ela nunca soube que aquela fotografia atravessara todas as mudanças de casa,
todos os casamentos, todas as premiações e até mesmo as sessões de tortura.
O nome dela ainda era capaz de doer.
Helena.
O médico acabara de sair.
— Talvez alguns meses.
Ele não teve medo da morte.
Teve medo de morrer sem pedir perdão.
Porque existia uma única frase que continuava ecoando desde 1968.
"O amor não basta para nada diante de um país preso."
Naquela tarde ele acreditava nisso.
Agora...
Agora sabia que estava errado
Capítulo 1
A moça dos olhos cheios de futuro
1963
O campus da Faculdade de Letras parecia viver em permanente primavera.
Os corredores eram um desfile de livros, cigarros, saias rodadas, violões e debates
intermináveis.
Os estudantes falavam de Sartre, João Cabral, Clarice Lispector, Vinicius, Cinema
Novo e da revolução que acreditavam inevitável.
Helena tinha dezenove anos.
Usava vestidos floridos, prendia os cabelos com fitas coloridas e carregava
sempre dois livros.
Um para estudar.
Outro para sonhar.
Queria escrever romances.
Romances capazes de fazer alguém chorar dentro de um bonde.
Romances onde o amor sobrevivesse ao tempo.
Naquela manhã, ela mal prestava atenção à aula.
Haveria uma palestra no auditório.
Um jovem jornalista do maior jornal da cidade falaria sobre o futuro da imprensa
brasileira.
Chamava-se Eduardo Carvalho.
Tinha vinte e seis anos.
Era praticamente desconhecido.
Mas entre estudantes de jornalismo seu nome começava a aparecer por causa de
reportagens denunciando desigualdade social.
Quando Eduardo entrou no auditório, carregava apenas uma pasta de couro e
uma timidez quase elegante.
Não possuía o brilho dos grandes conferencistas.
Falava baixo.
Pensava antes de responder.
Helena entrou alguns minutos depois, rindo de alguma piada contada pelas
amigas.
Foi aquele riso que Eduardo ouviu.
Não a viu primeiro.
Ouviu.
Era uma gargalhada livre.
Sem medo.
Sem cálculo.
Quando levantou os olhos...
Ela estava inclinada para frente, conversando com entusiasmo.
Movia as mãos como quem desenhava histórias no ar.
Eduardo esqueceu completamente o primeiro parágrafo da palestra.
Durante alguns segundos ficou apenas olhando aquela desconhecida.
Helena também o percebeu.
Os olhos dos dois se encontraram.
Ela sorriu.
Não por sedução.
Por gentileza.
Mas aquele sorriso pareceu durar uma eternidade.
A palestra terminou sob muitos aplausos.
Os estudantes cercaram Eduardo com perguntas sobre política, censura e
democracia.
Helena permaneceu ao fundo.
Esperando.
Quando todos foram embora, aproximou-se.
— Gostei quando você disse que um jornalista não escreve apenas notícias.
Escreve memória.
Eduardo sorriu.
— E você?
— O que tem?
— O que escreve?
Ela riu.
— Ainda nada importante.
— Então por que traz um caderno cheio de folhas?
Helena arregalou os olhos.
— Você reparou?
— Reparei.
Ela mostrou o caderno.
Estava cheio de poemas.
Contos.
Ideias para romances.
Palavras riscadas.
Bilhetes.
Desenhos.
Eduardo passou os dedos pela capa gasta.
— Um escritor começa exatamente assim.
Ela respondeu quase num sussurro.
— Espero que você esteja certo.
Foram caminhar.
Primeiro até a biblioteca.
Depois até uma praça.
Depois até um café.
Quando perceberam, já fazia noite.
Conversaram sobre livros.
Sobre jazz.
Sobre o cinema italiano.
Sobre os Beatles, que começavam a conquistar o mundo.
Sobre um país que ainda parecia cheio de possibilidades.
Sobre medo.
Sobre esperança.
Era como se retomassem uma conversa interrompida muitos anos antes.
Quando se despediram, Eduardo perguntou:
— Posso vê-la outra vez?
Ela sorriu daquele jeito que faria parte da memória dele para sempre.
— Acho que já estamos atrasados.
— Atrasados para quê?
— Para viver essa história.
Naquele instante, nenhum dos dois poderia imaginar que aquele amor
atravessaria os anos mais sombrios da ditadura militar, seria despedaçado pelas
convicções, sobreviveria na memória por décadas e, quando o tempo finalmente
lhes concedesse uma última oportunidade de conversar, talvez já fosse tarde
demais para desfazer a única frase que jamais deixou de ferir.
"O amor não basta para nada."
Capítulo 2
As tardes que pareciam eternas
No começo, ninguém chamava aquilo de namoro.
Era simplesmente Eduardo e Helena.
Ele aparecia na faculdade quase sempre no fim das aulas, fingindo que estava ali
para entrevistar algum professor. Ela fingia acreditar.
As amigas sorriam ao vê-lo encostado sob uma enorme sibipiruna, um jornal
dobrado debaixo do braço e um cigarro apagado entre os dedos. Nunca acendia o
cigarro quando Helena estava por perto. Ela detestava o cheiro.
— Você vai acabar morrendo cedo se continuar comprando cigarros para não
fumar.
— Compro para parecer um jornalista de verdade.
Ela ria.
— Então ainda está ensaiando?
— Todos nós estamos.
Os dois caminhavam pelas ruas de São Paulo como se a cidade existisse apenas
para eles. Entravam em sebos onde o cheiro de papel envelhecido parecia mais
forte que o do café. Discutiam apaixonadamente sobre literatura.
Ela defendia Clarice Lispector.
Ele preferia Graciliano Ramos.
Ela dizia que a literatura precisava ensinar a sonhar.
Ele respondia que precisava ensinar a enxergar.
— Não dá para mudar o mundo sem poesia — insistia Helena.
— Também não dá para mudá-lo fechando os olhos para a injustiça.
Ela sorria.
— Então escrevemos juntos.
— Como?
— Você conta a verdade.
— E você?
— Dou esperança para quem ler.
Eduardo segurava sua mão discretamente sobre a mesa do café.
Naquele instante, parecia possível fazer as duas coisas.
As noites pertenciam ao cinema.
Assistiam aos filmes de Fellini, de Truffaut e do Cinema Novo brasileiro. Saíam
discutindo cada cena enquanto caminhavam pelas ruas iluminadas por postes
amarelados.
Numa dessas noites, Helena apareceu com um pequeno rádio portátil.
— Escute.
Uma música desconhecida começou a tocar.
Quatro vozes inglesas.
Quatro rapazes de cabelos estranhos.
Ela fechou os olhos.
— Eles vão mudar tudo.
Eduardo riu.
— Você diz isso de qualquer banda nova.
— Não. Deles eu tenho certeza.
— Como pode saber?
— Porque eles cantam como quem acredita que o futuro existe.
Ele olhou para ela.
— Você também.
Ela percebeu.
— Está me olhando desse jeito outra vez.
— Que jeito?
— Como se estivesse decorando meu rosto.
Eduardo respondeu baixinho.
— Estou.
— Para quê?
— Porque tenho medo de esquecer.
Ela segurou seu rosto entre as mãos.
— Você nunca vai esquecer.
Ele acreditou.
Na primavera daquele ano, viajaram de trem até Santos.
Passaram o dia caminhando pela praia quase vazia.
Helena recolhia conchas como uma criança.
Eduardo anotava frases num bloco de repórter.
Ela aproximou-se por trás.
— O que você escreveu?
Ele fechou o caderno.
— Ainda não.
— Você nunca me deixa ler.
— Porque ainda não sei escrever sobre você.
— É tão difícil assim?
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Você não cabe numa reportagem.
Ela sorriu, emocionada.
— Então escreva um romance.
— Não.
— Por quê?
— Porque os romances acabam.
Ela respondeu sem hesitar.
— Os bons continuam dentro da gente.
Naquela tarde, sentados sobre a areia fria, trocaram o primeiro beijo.
Não foi um beijo impetuoso.
Foi lento.
Quase tímido.
Como se ambos soubessem que aquele instante permaneceria intacto para
sempre, mesmo quando tudo o mais desaparecesse.
Mas o mundo começava a mudar.
As redações estavam inquietas.
Os jornais recebiam telefonemas estranhos.
Nas universidades, os debates tornavam-se mais acalorados.
Eduardo passava cada vez mais tempo trabalhando.
Helena começava a ouvir nomes que antes lhe eram distantes: censura,
repressão, golpe, perseguição.
Ela ainda acreditava que a arte poderia salvar as pessoas.
Ele começava a acreditar que talvez fosse preciso muito mais do que poemas.
Sem perceber, uma sombra silenciosa já caminhava entre os dois.
Ainda se amavam com toda a intensidade da juventude.
Mas, do lado de fora, a História preparava-se para bater à porta.
E quando a História entra numa casa, quase nunca pede licença.
Thoughts
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PermalinkQueridos leitores,se quiserem saber a trilha sonora que me ajudou a escrever essa história é só perguntarem e eu terei o maior prazer em colocar aqui.
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PermalinkEle deixa a carreira virar para ela? Ela deixa os poemas? Ou a ditadura deixa um dos dois pra trás?
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PermalinkAcordei no beijo na praia e acordei mesmo. Que coisa linda demais pra estar certa.
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PermalinkCara, ele lê Crime Novo e ela quer sonhar. Uma dizia poesia, outro dizia injustiça. No final de ambos vem repressão, logo sabia.
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PermalinkEle vai conseguir escolher entre ela e a verdade que ele quer contar? Ou a história diz que ninguém consegue?
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PermalinkA gente já sabe do começo que algo vai separar eles, mas ler como nasceu deixa pior. Preferia descobrir depois.
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PermalinkAquele jeito dele de decorar o rosto dela é exatamente o que faz alguém chorar dentro de um ônibus.
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PermalinkEla consegue escrever aquele romance que ele não quer que acabe? Ou a história que vocês estão contando aqui já é o romance?
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PermalinkGostei demais da parte onde ele comprava cigarro pra parecer jornalista de verdade. Tem coisa mais real que um rapaz fingindo pra impressionar.
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