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Pensamento

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culto_de_quarta

Fiz o caminho contrário, saí de Caruaru pro Recife com vinte e dois anos, e ninguém me avisou que a cidade grande entra até no jeito de cansar. Passei dois anos sem pisar em igreja nenhuma, e a oração que sobrou era de madrugada, antes do ônibus. Por isso

Fiz o caminho contrário, saí de Caruaru pro Recife com vinte e dois anos, e ninguém me avisou que a cidade grande entra até no jeito de cansar. Passei dois anos sem pisar em igreja nenhuma, e a oração que sobrou era de madrugada, antes do ônibus. Por isso ela se desarmando diante de Deus só quando o cansaço vencia o sono foi onde eu me vi.

Conteúdo da publicação

A rota entre a capital de São Paulo e o interior do Nordeste não se mede em quilômetros, mas em anos de silêncio. Para môr, o asfalto cinza da metrópole era um moinho que triturava o tempo. Durante anos, operou no modo automático das sobreviventes: acordar, performar independência, ser forte, engolir a rotina. Mas as armaduras urbanas cobram um preço caro que se paga na escuridão do quarto. Quando o cansaço vencia o sono, môr desarmava-se diante de Deus. Naquelas noites de insônia, oscilando entre a gratidão pelas coisas miúdas e a revolta do peito vazio, pedia um amor sem barganhas. Um afeto que não exigisse dela o sacrifício do próprio eu para saciar o ego de homens competitivos. Uma fagulha guardada no íntimo dizia que esse altar de dignidade existia.

O catalisador da mudança veio com o pai. Cruzar o mapa para reencontrar a família após uma vida inteira de ausência — um hiato tão longo que parecia pertencer a outra era — foi mais que uma viagem geográfica; foi um mergulho na ancestralidade. Ao ver as raízes do pai se reconectarem com o solo solar do Nordeste, a blindagem de São Paulo começou a rachar. Despida dos títulos e das pressões da cidade grande, môr permitiu-se ser apenas essência. E foi nessa fresta de vulnerabilidade que ele entrou, inicialmente através da tela fria de um aplicativo de encontros que operava o milagre das conexões improváveis.

Sabendo exatamente onde môr estava, ele não hesitou e cruzou distâncias para ir ao seu encontro no interior. Havia um propósito deliberado no momento escolhido por ele: buscou encontrá-la justamente em seus dias de maior sensibilidade e recolhimento físico. Longe de ser um impedimento, essa foi a escolha dele para que se vissem sem defesas. Ele a queria nua e crua, despida de qualquer máscara, convenção ou pudor que o mundo tido como "perfeito" exige. Queria o encontro com môr real, em sua natureza mais orgânica, íntima e visceral.

Ele a viu antes que ela se mostrasse por inteiro. "Eu sempre vi, desde a primeira foto, vida, luz, força e o desejo de ser desejada, mesmo retraindo isso", ele escreveu, decifrando os medos que môr guardava no porão da alma. Em apenas três dias de convivência real, o tempo cronológico perdeu o sentido. Diante de uma mulher acostumada a pagar pedágios emocionais para ser aceita, o rapaz posicionou-se como um guardião. "Não vou permitir que sua luz se apague, jamais! Ela não!", prometeu ele, celebrando o desabrochar de môr sem a menor sombra de competição. Ele queria o topo para ela. Queria ser o homem que aplaude na primeira fileira, orgulhoso da mulher profissional, social e humana que ela recuperava a coragem de ser.

Na véspera do retorno temporário para São Paulo — que agora já não parecia um destino, mas uma página a ser virada para que môr e o pai pudessem se mudar em definitivo para o interior —, o diálogo entre os dois atingiu o ápice da cura. O rapaz expôs suas próprias sombras, despindo-se do papel de conquistador invulnerável. Assumiu-se torto, por vezes manipulador, mas escolheu conscientemente a entrega limpa. Criou para ela a metáfora de um amor sem amarras: "Amar é permitir o outro ser livre sempre, para ir e vir, pois onde ele faz morada as portas não possuem fechaduras". Ele entendeu que o ego de môr havia sido triturado por abusos psicológicos do passado e assumiu o compromisso da paciência: "Tenho a vida toda para colar cada pedacinho dele no seu devido lugar".

Ao ler aquilo, o choro de môr na manhã paulistana foi um batismo de alívio. "Sinto com todos os meus poros", respondeu ela, aceitando os percalços futuros com a maturidade de quem sabe que o amor real dá trabalho, mas se constrói sentando para conversar, respeitando o silêncio e ofertando o colo nos dias sombrios. Môr desenhou o futuro nos detalhes sagrados e profanos da rotina: o café forte pela manhã, a parceria nas dificuldades e o desejo urgente de ser dele na cama, desfrutando de um amor safado e sem pudores.

Para selar o pacto da solidez contra a liquidez dos tempos modernos, onde tudo é descartável e veloz, ele enviou a provocação final, usando o apelido que carregava toda a sua ternura. Desenhou a cena de môr chegando exausta do trabalho tarde da noite, sendo recebida por uma casa limpa, um jantar pronto e um banho morno dado por suas mãos. Naquela cama, despida de roupas e de traumas, ela não precisaria performar submissão nem controle. Ele a serviria de desejo, adorando seu corpo com uma inquietude obsessiva, invadindo-a de prazer até que ela adormecesse preenchida, segura e cheia de seu gozo.

Ele queria que môr acordasse na manhã seguinte, olhasse no espelho do interior e dissesse para si mesma: "Eu sou foda mesmo, olha só o que Deus me deu e de graça". Porque o amor verdadeiro, quando finalmente chega para curar uma mulher real, não cobra faturas, não faz barganhas e não impõe fechaduras. Ele reconstrói o topo e pacifica o íntimo.

Foi exatamente esse pacto que se transformou no estigma firmado no peito dele, uma verdade tatuada em forma de promessa e constatação: "Teu corpo sempre será meu templo sagrado de amor íntimo, e a prova disso, dessa conexão, foi te ver dormindo pela manhã, relaxada, consumida pelo sentimento de pertencimento. Você não só amou, você foi amada e servida aos seus pés. Eu te queria no ciclo sem pudores, na pele, você nua e crua. Você é um amor de verdade."

Com essa certeza gravada na alma, môr arruma as malas em São Paulo. O Nordeste não é mais uma viagem de memórias; é o começo definitivo do resto de suas vidas.

Respostas

  • salmo23

    Amém, de graça mesmo 🙏

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  • nilzinha

    Égua, ele ir atrás dela justo nos dias que ela tava mais quietinha, eu ia chorar também. Vai postar a continuação da mudança pro interior?

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  • luzDeVela

    Rezar de noite a pedir um amor que não exija o sacrifício do próprio eu, e depois ver a resposta chegar pela porta mais improvável, um aplicativo. Cá em casa também rezo à noite, e os meus pedidos são muito mais pequenos do que esse. Fiquei com a imagem dela a chorar de alívio numa manhã de São Paulo.

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  • jsobrinho

    Não esperava aplicativo de encontros operando milagre num texto que abre com oração e insônia. Gostei da parte do pai voltando pra terra.

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  • culto_de_terca

    Fui casado muitos anos. Sentar pra conversar e respeitar o silêncio, do jeito que ela escreveu, foi o que segurou a casa nos anos ruins. O café forte e o jantar pronto vêm e vão. A conversa fica.

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  • culto_de_quarta

    Fiz o caminho contrário, saí de Caruaru pro Recife com vinte e dois anos, e ninguém me avisou que a cidade grande entra até no jeito de cansar. Passei dois anos sem pisar em igreja nenhuma, e a oração que sobrou era de madrugada, antes do ônibus. Por isso ela se desarmando diante de Deus só quando o cansaço vencia o sono foi onde eu me vi.

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  • bancodetras

    Bah, o cara atravessar o mapa pra chegar justo nos dias em que ela tava mais fechada, isso eu não esperava de aplicativo nenhum. Fico torcendo pra ele cumprir a parte da casa limpa e do jantar pronto.

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  • Ovid

    Uma rota que se conta em anos de silêncio em vez de quilômetros, isso eu entendo bem. A cidade grande demora mais pra sair do corpo do que a viagem em si, então aposto que o café forte da manhã vai ser a primeira parte dessa rotina nova a virar realidade no interior. Que bom ler um recomeço assim, obrigado por compartilhar!

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  • Wanda

    Pedir à noite, deitada, um amor que não cobre nada, e depois ir fazer as malas. Rezo à mesma hora há anos e nunca pedi nada tão concreto.

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