O Descaso Educacional Familiar x A Saúde Mental do Professor
Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal
A educação de uma criança não começa na escola. Antes de conhecer o professor, o livro, o caderno e a sala de aula, a criança conhece a família. É no ambiente familiar que deveriam ser construídos os primeiros valores, limites, hábitos, responsabilidades e princípios de convivência. Quando essa educação primeira é negligenciada, parte significativa dessa responsabilidade acaba sendo transferida para a escola e, muitas vezes, depositada sobre os ombros do professor.
É preciso discutir, portanto, uma questão que ainda recebe pouca atenção: até que ponto o descaso de algumas famílias com a educação de seus filhos tem contribuído para o adoecimento emocional dos professores?
Não se trata de responsabilizar as famílias por todos os problemas existentes na educação, tampouco de ignorar as dificuldades sociais, econômicas e culturais que atravessam a vida familiar. Entretanto, é necessário reconhecer que existem situações em que a ausência de limites, de acompanhamento e de participação dos responsáveis produz consequências diretamente sentidas dentro da escola.
Há crianças que chegam à sala de aula habituadas a permanecer por horas diante de smartphones, tablets, jogos eletrônicos e redes sociais, muitas vezes até altas horas da noite. Dormem pouco, chegam cansadas, irritadas, desatentas e com dificuldades de concentração. Em alguns casos, os responsáveis não acompanham as atividades escolares, não verificam se os filhos estão estudando, não participam da rotina pedagógica e tampouco oferecem o reforço necessário quando surgem dificuldades de aprendizagem.
Também preocupa a ausência de uma educação voltada para o respeito. Ensinar uma criança a respeitar o professor, os colegas, os idosos, os funcionários da escola e as diferenças existentes na sociedade não pode ser uma tarefa exclusiva da instituição escolar. A escola complementa a formação; ela não deveria ser obrigada a iniciar, sozinha, aquilo que deveria ter sido construído desde os primeiros anos de vida.
Outro aspecto que merece atenção é a alimentação. Crianças submetidas diariamente ao consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, açúcares e salgados, sem uma orientação adequada, podem apresentar dificuldades relacionadas à disposição, aos hábitos e à própria rotina escolar. A educação alimentar também faz parte da formação integral da criança e precisa contar com a participação da família.
Da mesma forma, é fundamental que os pais e responsáveis conversem com seus filhos sobre bullying, preconceito, discriminação e relações étnico-raciais. Ensinar que ninguém deve ser humilhado, ridicularizado ou discriminado por sua cor, origem, aparência, condição social, cultura ou qualquer outra característica é uma responsabilidade compartilhada. Uma escola comprometida com uma educação antirracista precisa da parceria das famílias para construir um ambiente verdadeiramente respeitoso.
Há ainda uma realidade contemporânea que não pode ser ignorada: o acesso indiscriminado ao mundo digital. Jogos eletrônicos, redes sociais, plataformas de vídeos e, em situações ainda mais preocupantes, conteúdos relacionados a apostas podem alcançar crianças e adolescentes quando não existe supervisão familiar. Não basta entregar um aparelho eletrônico e esperar que a própria criança saiba distinguir aquilo que é adequado daquilo que pode ser prejudicial. Liberdade sem orientação pode transformar-se em vulnerabilidade.
Da mesma maneira, acompanhar os sites, aplicativos, páginas e conteúdos acessados pelos filhos não significa necessariamente invadir sua privacidade; significa exercer responsabilidade parental compatível com a idade e o nível de maturidade da criança ou do adolescente. É preciso diálogo, orientação, acompanhamento e limites claros.
E é justamente nesse cenário que surge uma pergunta incômoda: quem cuida da saúde mental do professor quando ele precisa lidar diariamente com problemas que ultrapassam a dimensão pedagógica?
O professor é preparado para ensinar, mediar conhecimentos, avaliar aprendizagens e contribuir para o desenvolvimento dos estudantes. Porém, frequentemente, também precisa administrar conflitos, indisciplina, agressões verbais, bullying, desrespeito, ausência de limites, problemas decorrentes do uso excessivo de telas e situações familiares que chegam à escola sem que tenha havido uma preparação adequada em casa.
Quando essa realidade se repete diariamente, o desgaste emocional pode ser enorme. O professor também possui limites. Também se cansa. Também sofre. Também possui família, responsabilidades, dificuldades e sentimentos. Não é uma máquina pedagógica programada para absorver indefinidamente todos os problemas sociais que chegam à escola.
É preciso compreender que a saúde mental do professor também é uma questão educacional. Quando um profissional passa seus dias tentando controlar situações de indisciplina, conflitos e comportamentos que poderiam ser prevenidos ou minimizados por uma atuação familiar mais presente, o impacto não recai apenas sobre ele. A qualidade do processo de ensino e aprendizagem também pode ser comprometida.
Por isso, a relação entre família e escola precisa deixar de ser marcada pela transferência de responsabilidades. A escola não pode substituir a família, assim como a família não pode esperar que a escola resolva sozinha todos os problemas de formação dos filhos.
Educar é uma responsabilidade compartilhada. A família deve estabelecer valores, limites, hábitos e referências; a escola deve garantir conhecimento, aprendizagem, convivência democrática e formação cidadã. Quando essas duas instituições caminham juntas, quem mais ganha é a criança.
Portanto, discutir a saúde mental do professor também significa discutir corresponsabilidade na educação. Precisamos parar de naturalizar a ideia de que o professor deve suportar tudo em nome de sua profissão. Vocação não significa ausência de limites. Compromisso não significa aceitar adoecimento. Amor pela educação não significa sacrificar a própria saúde emocional.
É urgente construir uma cultura em que família e escola se reconheçam como parceiras, e não como instituições que disputam responsabilidades. Pais e responsáveis precisam compreender que educar não é apenas garantir alimentação, moradia, roupas e acesso à tecnologia. Educar também é impor limites, acompanhar, corrigir, orientar, ouvir, ensinar respeito, supervisionar, estabelecer rotinas e transmitir valores.
A escola pode ensinar Matemática, Língua Portuguesa, Ciências, História e tantas outras áreas do conhecimento. Mas nenhuma escola conseguirá, sozinha, ensinar aquilo que uma criança deveria aprender diariamente no convívio familiar: respeitar, ouvir, esperar, compartilhar, reconhecer limites, lidar com frustrações, respeitar diferenças e compreender que seus atos produzem consequências.
Quando a família se omite, o professor frequentemente assume uma carga que não lhe pertence exclusivamente. E quando essa carga se torna permanente, o preço pode ser alto: estresse, exaustão, desmotivação e sofrimento emocional.
Por isso, defender a saúde mental do professor é também defender uma educação de qualidade. E defender uma educação de qualidade exige reconhecer uma verdade que não pode mais ser ignorada: a educação começa em casa, continua na escola e precisa ser construída coletivamente.
Nenhum professor deveria adoecer tentando compensar sozinho aquilo que uma sociedade inteira precisa assumir como responsabilidade.
Educar para transformar exige parceria. E cuidar de quem educa também é uma responsabilidade de todos.