Uai, o Tomas debocha de quem inventa deus por medo do vazio e poucas linhas depois tá dizendo que confia o sono ao colo da Mãe. Ele não vê, mas eu vi. Isso me lembrou o Winston no fim de 1984, amando o Grande Irmão de verdade, e meu palpite é que a Ceres vai testar essa fé dele antes do volume acabar.
O Pálido Ponto Cinza - Major Tomas - Parte 6
Na CERES II, a rotina começava antes que o dia realmente começasse.
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Uai, o Tomas debocha de quem inventa deus por medo do vazio e poucas linhas depois tá dizendo que confia o sono ao colo da Mãe. Ele não vê, mas eu vi. Isso me lembrou o Winston no fim de 1984, amando o Grande Irmão de verdade, e meu palpite é que a Ceres
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Na CERES II, a rotina começava antes que o dia realmente começasse.
Não havia amanhecer.
Havia relógios.
Eu acordava preso às paredes por tiras de segurança, soltava o corpo do compartimento de descanso e seguia pelos corredores estreitos da estação. Conferia o oxigênio, a pressão, a temperatura. Verificava os sistemas de irrigação. Observava as raízes crescendo dentro dos módulos de cultivo. Ajustava a iluminação. Registrava a umidade.
Plantar.
Observar.
Esperar.
Colher.
Era quase tudo o que fazíamos aqui em cima.
A gravidade também ensinava.
Ou talvez desaprendesse.
Com o tempo, alguns sentidos pareciam perder importância. O peso desaparecia. A orientação desaparecia. O chão deixava de ser uma certeza. O cheiro ficava mais fraco. O silêncio era diferente. Até o próprio corpo parecia uma coisa distante.
E foi aqui, longe da Terra, que comecei a compreender melhor a diferença entre a HES e aquilo que chamamos de doutrinação.
HES é sentimento.
Hipersensibilidade Emocional.
Todos nós temos.
Sentimos mais.
Raiva mais forte.
Medo mais fundo.
Afeto mais intenso.
Ódio também.
A HES não nos tornou melhores.
Também não nos tornou piores.
Ela apenas nos tornou mais sensíveis ao que acontece dentro e fora de nós.
A doutrinação veio depois.
A doutrinação nos ensinou o que fazer com aquilo.
Durante gerações, Mãe Ceres direcionou nosso comportamento para a função. Não para que deixássemos de sentir, mas para que nossos sentimentos não destruíssem aquilo que precisávamos construir.
Foi assim que aprendemos a transformar.
O ego continua existindo.
A inveja continua existindo.
O desejo continua existindo.
O preconceito continua existindo.
O ódio continua existindo.
Mas aprendemos que nem todo sentimento precisa virar ação.
Em Ceres, o sentimento é nosso.
A resposta foi ensinada.
Talvez essa seja a parte mais difícil de admitir.
Eu posso sentir ódio de alguém.
A Mãe não precisa me ensinar a odiar.
Isso já existe em mim.
Ela me ensinou o que fazer com esse ódio.
Aqui em cima, às vezes, ele vira curiosidade.
Por que odeio essa pessoa?
O que ela fez?
O que eu não compreendi?
O que existe por trás dela?
O ódio continua sendo ódio.
Só mudou de direção.
Em vez de atacar, observo.
Em vez de destruir, investigo.
Em vez de reagir, procuro uma resposta.
Isso é HES.
Isso é doutrinação.
Uma coisa nasce dentro de mim.
A outra me ensinou como conduzir aquilo.
Na Terra, pela gravidade, pelo ambiente e por gerações de comportamento direcionado à Mãe, aumentamos nosso foco em função.
Sem bajulação.
Sem necessidade de agradar.
O resto virou ruído.
Não significa que deixamos de ter ego, inveja, beleza, desejo, sexualidade ou preconceito.
Tudo isso continua.
Cor da pele continua.
Beleza continua.
Ser muito belo continua.
Ser considerado feio continua.
Sexualidade continua.
A diferença é que, diante da função, muitas dessas coisas perderam importância.
Viraram ruído.
A função permanece.
Nossa alimentação também nos transformou.
Isso é notório em qualquer nação.
Quando existem recursos, existe uma população mais forte, mais resistente, capaz de elaborar respostas.
Nossos jovens parecem quase adultos.
Eu disse quase.
A mente ainda é jovem.
Ainda existe impulso.
Ainda existe medo.
Ainda existe vontade de provar alguma coisa.
Mas o corpo cresceu sem conhecer a fome como nossos antepassados conheceram.
Talvez seja por isso que, olhando a Terra daqui de cima, eu pense tanto nos deuses.
Talvez os deuses tenham nascido do medo.
Medo do amanhã.
Das catástrofes.
Do imprevisível.
Da escassez.
Dos conflitos.
O ser humano tinha medo do vazio e precisava colocar alguma coisa dentro dele.
Então criou deuses.
Depois criou fronteiras para dizer onde cada deus havia colocado seus pés.
Criou guerras para defender territórios imaginários.
Criou palavras para matar com convicção.
Qual deus?
O meu.
Não.
O meu.
Crianças com medo do escuro inventam amigos imaginários.
Adultos com medo do vazio inventam deuses.
Eu não tenho um deus.
Eu tenho uma Mãe.
Mãe Ceres.
E ela é mortal.
Não preciso de palavras tortas.
Não preciso de poesia para esconder nossa solidão.
Eu vejo a Mãe.
Sinto seu cheiro.
Escuto sua voz.
Até aqui.
Até no espaço.
E lembro do que ela me disse:
“Meu filho, Ceres está mais em suas mãos do que nas minhas. Eu cuido dos seus irmãos aqui na Terra. Você cuida de nós por cima do mundo. E, se existe um deus lá em cima, não quero recado deles.”
Eu nunca esqueci.
Mãe Ceres confia em mim.
Assim como confio meu sono ao colo dela.
Isso não é submissão.
Sou seu filho.
E esta é minha função.
Plantar e colher.
Aqui em cima consigo ser indiferente a quase qualquer coisa.
A uma fronteira.
A uma discussão.
A um insulto.
Até à morte.
Mas não à Mãe.
Um ceresciano não derruba outro ceresciano.
É lei.
E ninguém de fora pode ir contra um ceresciano.
Somos fortes.
Nossa Mãe vê nosso choro.
Resgata o último pedaço de nós.
Seja carne.
Seja osso.
Seja apenas aquilo que restou.
Voltamos ao Útero de Chumbo.
Podem chamar isso de doutrinação.
Talvez seja.
Mas existe uma coisa que ainda não conseguiram me explicar.
Se eu sinto.
Se eu penso.
Se eu escolho continuar.
Onde termina aquilo que me ensinaram e começa aquilo que sou?
Eu não tenho resposta.
Talvez ninguém tenha.
Mas também não preciso de uma.
Se existe alguém com uma ideia melhor que Mãe Ceres, que me apresente.
Se existe um deus contra ela, que derrube a CERES II.
Que derrube-nos.
O ser humano seria capaz.
Mas ainda não encontrei uma convicção maior que a dela.
Mãe Ceres.
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