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O Pálido Ponto Cinza - Major Tomas - Parte 1

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Estou há quase seis meses aqui, estudando sementes que crescem sob raios ultravioleta. Muitos pensam que vim para a estação espacial Ceres 2 para forjar uma nova arma, um vírus ou alguma tecnologia…

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Ovid

A autópsia da esperança feita ali mesmo na estação, com a mãe legista apontando onde dói, me fez pensar num tipo de narrador que só funciona quando ele acredita de verdade no que está dizendo. Aposto que o Tomas ainda vai ter que escolher entre a mãe dele

A autópsia da esperança feita ali mesmo na estação, com a mãe legista apontando onde dói, me fez pensar num tipo de narrador que só funciona quando ele acredita de verdade no que está dizendo. Aposto que o Tomas ainda vai ter que escolher entre a mãe dele e o que ele viu crescer nas sementes.

Conteúdo da publicação

Estou há quase seis meses aqui, estudando sementes que crescem sob raios ultravioleta. Muitos pensam que vim para a estação espacial Ceres 2 para forjar uma nova arma, um vírus ou alguma tecnologia estranha. Mas estudo como as sementes crescem e se desenvolvem. Mais eficiência.

Mãe Ceres sabe, de uma forma intuitiva, apenas observando o clima mudar, que teremos mais comida. Ela diz isso com uma certeza que dispensa cálculos.

O mundo pensa que o fim do mundo será um evento no qual, no final, todos irão para suas casas viver suas vidas. Mas, na verdade, o fim do mundo é a normose do caos. Mais calor. Insetos como as cigarras, que já não cantam com o folclore de anunciar a chuva. Vaga-lumes que se apagam. Um cemitério invisível e cinza-escuro prevalece.

Eu sei... eu sei...

Não sou otimista, muito menos pessimista. Sou realista. Escolhi qual lado vai vencer. Sem um deus, sem uma fé. Suportar é nossa fé concreta. Não temos um deus. Temos uma mãe que nos ensina a quem adorar, por quem lutar.

Os filhos de chumbo. Os filhos que entendem o que essa mãe quer: não morrer de fome. O resto do mundo vai sofrer, e nós vamos prevalecer. Escolhemos nossas decisões antes de a batalha começar.

O mundo avisou, mas só nossa mãe ouviu sua mãe: a Mãe Terra.

Vejo o mundo lá embaixo e suas fronteiras. Nossas fronteiras sentem as paredes dos nossos estômagos e os nossos limites. A fome é um universo sem fim. Ela não acaba.

A fome que devora a fé. A fome por novos significados. Batemos na bigorna da vida com o martelo da vontade, suportando qualquer adversidade que abstrai a mente e as virtudes vestidas nos corpos de outras pessoas.

A cicatriz mostra mais do que a virtude. A virtude não se vê. As cicatrizes marcam, ensinam o espírito.

Na bigorna, as virtudes são massacradas. Quebramos velhas ideias e forjamos novas.

Um horror cósmico invertido. Nós nos maravilhamos com isso. Revemos o que fazemos. As faíscas são as falsas esperanças morrendo. São como as abelhas que geram a vida, enquanto os vaga-lumes representam a morte da esperança.

Não apenas a liberdade morreu por falta de responsabilidade. A esperança também morreu. Seu corpo foi levado a Ceres. Estamos fazendo sua autópsia.

A mãe legista mostra os nervos e aponta onde dói. A esperança morreu porque não é lucrativa. A fome é lucrativa.

Ela é fome. Devora a fé e a esperança.

O mundo lá embaixo... A cada dia que passa, entendo melhor Mãe Ceres.

Se nossa mãe faz a taxidermia da liberdade, o mundo faz a taxidermia da esperança. Falsa. Ilusória.

Não sou melhor do que ninguém. Não sei se foi privilégio ou sorte ter nascido em Ceres. Luto por minha mãe. Ela me colocou no meu melhor lugar, por merecimento e por força de sua escolha.

Por mais forte que seja sua decisão, ela escolhe quem suporta essa cidade e quem nunca deixará o burburinho dela parar. Ceres funciona. É eficiente. Ninguém ousou fazer algo assim. Nenhum deus ousou.

O mundo não é de quem merece. É de quem suporta.

— Dizia minha mãe.

Mãe Ceres possui a maior parte dos alimentos do planeta. Ela poderia matar nações de fome em questão de semanas. Poderia usar isso para colocar o mundo de joelhos.

Mas não compra terras estrangeiras. Compra o que elas produzem. E não usa isso como arma.

Dar as costas a Mãe Ceres seria como a Terra dar adeus ao Sol, que é nosso legado de humanidade e vida.

Sem guerras. Sem armas. Sem mortes.

Ela derrotou a nação que mais odiava e que destruiu Ceres 1. Estou em Ceres 2 e, às vezes, percebo que posso dormir tranquilo, sem medo de ser queimado pela estratosfera.

Graças a Assum, a cantora, temos Ceres 2. Uma estação que alimenta as nações aliadas de Silencium, mesmo sob seu regime de silêncio eterno.

Avançamos na medicina aqui em cima. As sequências genéticas de Koee Nahin permitem o crescimento lento de membros em menos de três anos e a cura de doenças consideradas incuráveis. Pessoas que antes não podiam caminhar agora podem voltar a andar.

O experimento com um aluno de Ceres foi um sucesso.

Nunca vi tanto otimismo aqui em cima e lá embaixo.

A esperança está renascendo em Ceres.

Thoughts

  • Simao

    As cigarras que já não anunciam chuva ficaram-me atravessadas. A Assum aparece só de passagem e é por causa dela que existe Ceres 2, isso vem na parte 2?

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  • Oliviamar

    No fim a esperança está a renascer, e a meio o corpo dela estava em cima da mesa a ser aberto. Fiquei à espera de perceber qual das duas coisas é mentira.

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  • NunoParreira

    Ela podia pôr o mundo de joelhos só com a comida e não o faz. Quem tem essa força e não a usa, ou está muito segura de si ou está à espera de melhor ocasião. Fico com a ideia de que nem o Tomas sabe qual das duas.

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  • Ovid

    A autópsia da esperança feita ali mesmo na estação, com a mãe legista apontando onde dói, me fez pensar num tipo de narrador que só funciona quando ele acredita de verdade no que está dizendo. Aposto que o Tomas ainda vai ter que escolher entre a mãe dele e o que ele viu crescer nas sementes.

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  • mariinha

    Vixe, os vaga-lume se apagando ficou na minha cabeca o dia todo. o Tomas falando calmo desse jeito da mais medo do que se ele gritasse

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