Quero deixar meu ponto de vista em virtude do que li. No entanto, sem pretensão de convencer quem quer que seja sobre a veracidade absoluta aqui colocada tendo em vista que o pensamento é área inesgotável e rica e a verdade é algo que se aperfeiçoa com novas descobertas. Discussões saudáveis e respeitosas constroem muita coisa boa.
O texto apresentado defende que o monoteísmo católico forneceu a base metafísica necessária para o surgimento da ciência moderna, ao dessacralizar a natureza e unificar o universo sob uma única lógica causal. Contudo, essa narrativa histórica comete um anacronismo e uma omissão fundamentais.
O monoteísmo não começou com o catolicismo, mas sim com Abrão, muito antes de seu nome ser mudado para Abraão e séculos antes de qualquer conceito de Igreja Católica existir. Atribuir os méritos da racionalidade e da estabilidade da criação a esse desdobramento posterior, sem dar a devida relevância à Torá entregue no Monte Sinai ao primeiro povo monoteísta, é uma distorção histórica e teológica.
Para que contextos e afirmações sejam feitos com justiça, é essencial beber na fonte original. Veja o contraponto estruturado a essa visão:
A Verdadeira Origem: O Monoteísmo de Abrão
A ruptura com o mundo pagão, fragmentado e governado pelos "humores" de múltiplos deuses, não é um mérito do catolicismo medieval, mas da revelação abraâmica. Foi Abrão quem primeiro rompeu com a idolatria e o politeísmo de sua própria terra natal (Ur dos Caldeus) para seguir um único Deus invisível e soberano.
Quando o texto afirma que o "monoteísmo católico introduz um pressuposto bem diferente", ele apaga a raiz histórica: esse pressuposto já estava consolidado no DNA do povo hebreu. A estabilidade da realidade e a rejeição da divinização da natureza nasceram ali.
A Centralidade Omitida da Torá e do Monte Sinai
Garantir que a estabilidade do universo e a lógica das "causas secundárias" floresceram por conta do pensamento católico soa estranho quando se ignora o evento do Monte Sinai. Foi na entrega da Torá que a humanidade recebeu formalmente o código que separava definitivamente o Criador da criação.
Leis Cósmicas e Leis Morais: A Torá estabelece que o mesmo Deus que dita as leis morais dita as leis da natureza ("as leis dos céus e da terra", como reforçado posteriormente pelos profetas).
Dessacralização da Natureza: O Gênesis hebraico já reduzia o sol, a lua e as forças da natureza a meras criações — "luminares" para governar o dia e a noite —, desprovidos de vontade própria ou de divindade. O "encantamento" do mundo pagão foi quebrado no Sinai, não na Europa medieval.
O argumento de que a ciência precisava de uma base monoteísta para nascer é válido, mas creditar isso majoritariamente ao catolicismo é ignorar o alicerce sobre o qual ele próprio se construiu. O esvaziamento dos caprichos pagãos e a afirmação de um universo coerente e inteligível pertencem, por direito e primazia histórica, ao monoteísmo original do povo judeu. Sem beber nessa fonte, qualquer análise sobre a evolução do pensamento racional no Ocidente torna-se incompleta e historicamente injusta.