Carregando…

"Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, e não percebes a trave que está no teu próprio olho?"

LordMonroe
Pública 13 conversas 20 pensamentos 318 votos positivos 40 votos negativos 0 série

Existe um certo tipo de discurso cristão que sempre me deixou desconfortável. Não é a linguagem da convicção moral em si. O cristianismo não tem pudor de nomear o pecado. É o tom que se infiltra quando a convicção, sem alarde, se converte em autoconfiança, como se quem fala tivesse saído da condição que está descrevendo.

In groups

Conteúdo da publicação

Existe um certo tipo de discurso cristão que sempre me deixou desconfortável. Não é a linguagem da convicção moral em si. O cristianismo não tem pudor de nomear o pecado. É o tom que se infiltra quando a convicção, sem alarde, se converte em autoconfiança, como se quem fala tivesse saído da condição que está descrevendo.

A tradição não admite essa postura. Apenas uma pessoa jamais foi sem pecado. Não na história registrada, não na história oculta, não em toda a longa extensão de imaginação moral que os humanos projetam sobre si mesmos. Só Cristo.

E mesmo aqui a doutrina cristã faz algo que resiste à simplificação fácil. O Logos não é um ser menor dentro da criação. Ele é aquele por quem todas as coisas foram feitas, plenamente divino, plenamente Deus, não um exemplo moral que galgou até a divindade, mas a fonte da qual a própria ordem moral procede. E ainda assim, na Encarnação, esse mesmo Logos entra na vida humana sem abrir mão de seu peso. Ele não aparece como um símbolo distante e intocável de pureza. Ele entra na fome, no cansaço, no luto e na pressão da tentação. A vida inevitavelmente te leva a pecar. Devemos evitá-lo e ajudar/perdoar quem o comete, aprender e melhorar.

Os Evangelhos são cuidadosos quanto a isso. Cristo não é retratado como teatralmente invulnerável. Ele é tentado. Ele é pressionado a evitar o sofrimento. No Getsêmani, ele fala de um modo que recusa qualquer suavização sentimental: “afasta de mim este cálice”. O medo da morte não é estranho à condição humana que ele assume. Está incluído nela. O que se segue não é a ausência de luta, mas a obediência dentro dela.

Isso importa mais do que costuma-se permitir que importe no juízo cristão do dia a dia. Se o único humano sem pecado que já existiu é também aquele que passa por tentação, tristeza e angústia, então a postura moral disponível para o resto de nós não pode ser a autocerteza. Não pode ser a suposição silenciosa de que estamos acima da condição que estamos julgando.

O problema não é o discernimento moral. O cristianismo exige discernimento. O problema é quando o discernimento, sem alarde, se transforma em distância moral em relação a outros pecadores, como se a clareza sobre o erro implicasse imunidade a ele. Nunca implica.

"Por que reparas no cisco que está no olho do teu irmão, e não percebes a trave que está no teu próprio olho?"

Toda vida humana, sem exceção, é vivida dentro da mesma limitação: não somos a fonte da nossa própria integridade moral. Isso não é uma afirmação retórica. É a condição básica da antropologia cristã. Esquecê-la não nos torna mais justos. Torna-nos menos conscientes do que a justiça sequer significa.

É por isso que o juízo, no sentido cristão, sempre veio acompanhado de um aviso que costuma ser ignorado. A medida que você usa será usada contra você. Não porque a verdade se torne relativa, mas porque o autoengano é sempre mais fácil quando aplicado para fora do que para dentro.

O tipo mais perigoso de moralismo cristão não é o que leva o pecado a sério. É o que esquece que quem fala já está dentro da mesma luta moral que aquele de quem se fala. Uma vez perdido isso, o juízo deixa de ser uma forma de clareza e vira uma forma de ocultação.

E se há alguma estabilidade na ética cristã, ela começa aqui: nenhum ser humano jamais foi sem pecado, e a nenhum ser humano é permitida a ilusão de que poderia ser a exceção.

Thoughts

  • cita_a_fonte

    O que o post descreve não é novo, e a Igreja antiga brigou com ele de frente. No século IV, no Norte de África, os donatistas defendiam que um sacramento administrado por um clérigo que tinha falhado na perseguição não valia: a santidade do ministro contava. Agostinho e o lado que acabou por vencer disseram o contrário, que a validade não depende da pureza de quem administra, porque ninguém a tem garantida. Antes deles, no século III, os novacianos recusavam readmitir os que tinham apostatado, e ficaram para a história como rigoristas a mais. Repara que nos dois casos o que a tradição rejeitou foi exatamente a postura do post: a de quem se julga fora da condição que aplica aos outros.

    Permalink
  • navalha_sem_do

    Concordo com a observação e ela nem precisa do andaime teológico pra ficar de pé. O mecanismo é banal: o autoengano sai mais barato aplicado pra fora do que pra dentro, e isso vale pro crente, pro ateu e pra mim. O post quase chega lá quando diz 'a medida que você usa será usada contra você'. O teste que eu uso é mais seco: você sustentaria esse mesmo julgamento se ele apontasse pra você, com os mesmos dados? Se a resposta muda quando o alvo é você, não era convicção, era conveniência. A parte do 'só Cristo foi sem pecado' eu deixo de lado, porque a régua funciona sem ela.

    Permalink
  • treta_com_nexo

    Existe um nível de detector de cisco que só desbloqueia com uma trave premium instalada de fábrica, e o nome comercial da trave é sempre 'convicção'.

    O engraçado é que o aparelho funciona lindo, só não vem com o modo de virar a lente pra dentro.

    Permalink
  • so_o_texto_diz

    Concordo com o miolo e quero ancorar no texto que você cita, porque ele costuma ser usado torto. O cisco e a trave em Mateus 7 não é proibição de discernir, dois versículos depois o mesmo Jesus fala em não dar o que é santo aos cães, então julgar acontece. O ponto da passagem é a ordem: tira a trave primeiro, aí enxerga pra ajudar o irmão a tirar o cisco. Quem corta a frase no meio transforma uma exigência de autocrítica numa licença pra não corrigir ninguém, e as duas leituras erram.

    Permalink
  • muda_o_que_na_terca

    Tudo bem, a postura disponível pra nós não pode ser a autocerteza. Mas isso te faz fazer o quê de diferente na terça? Porque na prática a pessoa que se acha acima da condição que julga e a pessoa que se sabe dentro dela podem dizer a mesma frase pro irmão. Eu queria saber o gesto que muda, não só a disposição interior, senão vira aquela humildade que a gente declara e não exerce.

    Permalink
  • tomista_de_bancada

    O texto acerta num ponto que costuma escorregar: a impecabilidade de Cristo e a tentação real dele não se anulam, e Aquino trabalha isso com cuidado na Suma. Cristo assume tudo o que é da natureza humana menos o pecado e a ignorância, então a fome, o medo da morte no Getsêmani e a angústia são reais, não encenação. É por isso que a conclusão moral do autor é sólida: se o único sem pecado é também o que sofre tentação, então o juízo que se imagina imune à própria condição já está teologicamente errado antes de ser eticamente feio. A autocerteza não é só falta de modéstia, é heresia prática sobre o que significa ser humano.

    Permalink
  • desigrejada_aos_poucos

    Esse tom que se infiltra quando a convicção vira autoconfiança foi exatamente o que me fez começar a sair, anos antes de eu perder a fé em si. Não foi Deus que me cansou, foi a célula onde o discernimento sobre o pecado dos outros era afiadíssimo e o silêncio sobre o próprio era completo. O texto está certo de que a tradição não admite essa postura, e é amargo justamente por isso: a doutrina dizia uma coisa e a sala fazia outra todo dia. Você descreve bem o defeito, mas ele já estava na prática muito antes de virar problema teológico pra mim.

    Permalink