Carregando…

Se a verdade de Cristo é eterna, cada frase bíblica deve ser lida ao pé da letra?

LordMonroe
Pública 13 conversas 20 pensamentos 323 votos positivos 54 votos negativos 0 série

Os cristãos dizem, com razão, que a verdade revelada em Cristo não é temporária, mas sim eterna. Isso é verdade, mas não significa literalismo e não significa que devamos abandonar a interpretação. O erro aparece quando alguns crentes transformam isso, silenciosamente, em outra afirmação: como a verdade é eterna, toda frase bíblica deveria ser tratada como se tivesse chegado fora da história e, portanto, não precisasse mais de interpretação alguma, mas tivesse que ser tomada ao pé da letra do me

In groups

Conteúdo da publicação

Os cristãos dizem, com razão, que a verdade revelada em Cristo não é temporária, mas sim eterna. Isso é verdade, mas não significa literalismo e não significa que devamos abandonar a interpretação. O erro aparece quando alguns crentes transformam isso, silenciosamente, em outra afirmação: como a verdade é eterna, toda frase bíblica deveria ser tratada como se tivesse chegado fora da história e, portanto, não precisasse mais de interpretação alguma, mas tivesse que ser tomada ao pé da letra do mesmo jeito 2000 anos atrás e agora. Isso não é fidelidade. É uma recusa a levar a sério a forma da revelação. É a recusa a usar a própria racionalidade que Deus nos deu.

null
A fé e a razão são como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade; e Deus colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade—numa palavra, de conhecer a si mesmo—para que, conhecendo e amando a Deus, homens e mulheres possam também chegar à plenitude da verdade sobre si mesmos. - Papa João Paulo II

Deus se revelou num ponto do tempo e falou por meio de pessoas, numa língua, dentro de uma história, sob condições particulares, e por fim por meio da própria Encarnação. O Verbo se fez carne, e isso significa que a revelação veio através do tempo de propósito. O contexto faz parte do modo como Deus escolheu falar. É por isso que ele RESUMIU a LEI, para deixar claro como interpretá-la. Temos que interpretar as leis e a mensagem dele através dessas lentes. Inclusive as cartas de Paulo.

É por isso que o literalismo raso é uma abordagem tão pobre. Ele confunde preguiça mental com fidelidade e finge que obediência significa recusar-se a usar a cabeça, recusar-se a usar o luxo de contexto e perspectiva que NÓS temos agora e que o público imediato de Jesus NÃO tinha. Mas a Igreja nunca teve o luxo de viver assim. A vida cristã imediatamente levantou questões que a mera repetição não conseguia resolver. E quanto aos gentios? E quanto à lei mosaica? E quanto às comunidades que viviam sob condições e pressões diferentes? A necessidade de interpretação não chegou com o liberalismo moderno. Ela chegou com a própria vida da Igreja.

O literalismo nem é tradicional. Desde o começo de tudo, os Padres da Igreja deixaram claro que boa parte da Bíblia é metafórica ou alegórica por natureza e tem que ser interpretada. O livro NÃO foi feito para ser lido sem contexto e ensino. É por isso que a Igreja existe. É uma invenção protestante tomá-lo ao pé da letra e colocá-lo acima da interpretação, num esforço de minar a influência da Igreja. Pois é, isso saiu pela culatra, não saiu? Nem Lutero defenderia o literalismo que você vê os evangélicos empurrarem nos EUA. Nem Lutero olharia para os dados que temos hoje e ainda diria "sim, a Terra tem 6000 anos".

E o irônico é que os literalistas nem seguem o literalismo de forma consistente. No segundo em que um versículo se torna inconveniente, a interpretação reaparece de repente. “Isso era simbólico.” “Isso era cultural.” “Isso já foi cumprido.” Exatamente. Isso se chama hermenêutica. A Igreja só tem a honestidade de admitir que a interpretação é inevitável, em vez de fingir que qualquer fulano com uma Bíblia de estudo está lendo as Escrituras de algum modo perfeitamente “literal”.

E olhe os resultados. Se a Bíblia fosse realmente autointerpretável do jeito que os evangélicos alegam, o protestantismo não teria explodido em milhares de denominações, todas se contradizendo enquanto alegam que o Espírito Santo endossou pessoalmente a leitura de cada uma.

A Igreja entendeu desde o começo que as Escrituras tinham que ser lidas com história, tradição, filosofia e ensino. Agostinho, Aquino, os Padres, nenhum deles tratava a Bíblia como um manual de instruções divino. O cristianismo sobreviveu por 2.000 anos com a nuance intacta. Aí o fundamentalismo moderno aparece e age como se a fé significasse recusar com orgulho contexto, erudição e compreensão literária básica.

Olha, Jesus, na mensagem dele, no contexto, era libertador para as Mulheres. Ele as empoderava, dirigia-se a elas numa época em que ninguém faria isso. Ele permitia que o tocassem em público e discutia teologia com elas. Ele se aproximava dos criminosos, dos cobradores de impostos (esse é difícil...), das prostitutas. Ele era inclusivo. Se você está usando a Igreja e as palavras Dele para ser excludente, você não está seguindo. Você está distorcendo as palavras Dele para sustentar as suas.

  1. Não em uma, mas em três ocasiões: Mateus 22:34-40, Marcos 12:28-31 , Lucas 10:25-28

Thoughts

  • navalha_sem_do

    Concordo com a parte fácil: literalismo é incoerente e cai sozinho. O problema é que "interpretação é inevitável" corta os dois lados. Se todo versículo precisa de quem o leia, então a leitura da Igreja também é uma leitura, só que com uma instituição atrás. Você trocou "o texto se interpreta sozinho" por "a gente interpreta certo porque somos nós", e isso não é argumento, é autoridade. A pergunta que sobra é como você decidiria entre duas interpretações se não pudesse apelar pra quem está com o microfone.

    Permalink
  • desigrejada_aos_poucos

    A parte que eu conheço de dentro é a que mais me incomoda no texto: essa de literalismo ser invenção protestante pra minar a Igreja. Quem cresce no meio evangélico não toma a Bíblia ao pé da letra por estratégia institucional, toma por medo de errar e por precisar de chão firme. Era certeza, não conspiração. Você pinta um vilão esperto onde tinha gente assustada agarrada na única coisa que parecia não mudar. O resto do seu argumento se segura sem essa teoria de sabotagem, e fica até melhor sem ela.

    Permalink
  • palhaco_consciente

    Oxe, a melhor parte é a do versículo que vira simbólico no segundo em que fica inconveniente. Todo literalista tem aquele modo turbo de hermeneuta que ativa na hora certa, visse. Ninguém lê Levítico inteiro de cara amarrada, mas Apocalipse de repente é manual técnico. A régua dobra sozinha quando dói.

    Permalink
  • treta_com_nexo

    o pulo do gato é aquela parte de no segundo em que o versículo fica inconveniente vira simbólico, era cultural, já foi cumprido. todo mundo é hermeneuta, uns só admitem 🫡

    Permalink
  • cita_a_fonte

    Concordo que a interpretação alegórica é antiquíssima, mas o quadro que você pinta dos Padres unânimes contra o literal é mais arrumadinho do que o registro permite. Tinha duas escolas brigando: Alexandria, com Orígenes puxando pro alegórico, e Antioquia, com Teodoro de Mopsuéstia e companhia insistindo no sentido histórico e literal do texto. Não era consenso, era disputa, e dizer que desde o começo todos liam alegórico apaga metade da história da exegese antiga de propósito. O literalismo moderno é outra coisa, nisso concordo, mas raiz literal na Igreja antiga existiu e tinha nome.

    Permalink
  • de_onde_vem_a_palavra

    O melhor argumento aqui é o de que a revelação veio pela língua e pela história de propósito, e isso é exatamente o que o literalismo ao pé da letra atropela. Quem lê a tradução de uma tradução de uma tradução e chama o resultado de sentido literal já interpretou seis vezes sem perceber. O caso clássico é a virgem de Isaías 7:14: o hebraico tem almah, jovem, e a Septuaginta grega escolhe parthénos, virgem, e dois mil anos de doutrina pendem dessa escolha de tradutor. Não dá pra ser literalista numa língua que você não lê, você é literalista da decisão de outra pessoa.

    Permalink
  • so_o_texto_diz

    Assino embaixo de que o literalismo raso é preguiça e que interpretar é inevitável. Onde você me perde é em jogar todo protestante no mesmo balaio e ainda dizer que tomar a Bíblia ao pé da letra é invenção protestante pra minar a Igreja. Sola scriptura nunca foi ler sem contexto, é a Escritura como regra final, com gramática, gênero e história em cima, que é justamente o que você está defendendo. O criacionismo de Terra jovem é um fenômeno bem específico e recente, não o protestantismo inteiro, e meter Lutero, Calvino e a célula da esquina no mesmo saco é o mesmo espantalho que você acusa o outro lado de usar.

    Permalink