Este coube numa noite só, a borboleta azul segurou-me acordada até ao fim.
O Lírio Branco e o Jardim Encantado
Um conto infantojuvenil sobre beleza, amizade e o valor de ser quem
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Pensamento
Este coube numa noite só, a borboleta azul segurou-me acordada até ao fim.
Conteúdo da publicação
Um conto infantojuvenil sobre beleza, amizade e o valor de ser quem
somos.
“Cada flor tem seu jeito de florescer.”
Para minha filha Sofia
Era uma vez, em um lugar escondido entre pequenas colinas verdes, um
jardim tão bonito que parecia ter sido desenhado pelos próprios sonhos.
Ali havia flores de todas as cores.
Rosas vermelhas que pareciam guardar segredos de amor, margaridas
brancas que balançavam alegremente ao vento, violetas tímidas que
gostavam de viver à sombra das árvores, girassóis dourados que
passavam o dia inteiro seguindo o sol e pequenas flores azuis que só
abriam suas pétalas quando a lua aparecia.
No centro daquele jardim havia um lago cristalino. De manhã, as
libélulas voavam sobre a água e, à noite, as estrelas pareciam descer do
céu para se refletir em sua superfície.
Era naquele jardim que vivia um pequeno lírio branco.
Ele havia nascido sozinho, perto de uma velha fonte de pedra, durante
uma manhã de primavera.
Quando abriu suas primeiras pétalas, ficou maravilhado com o mundo.
— Como tudo é bonito! — murmurou.
Durante muito tempo, o lírio acreditou que não havia lugar mais
maravilhoso no universo.
Ele adorava acordar com o canto dos passarinhos.
Gostava de sentir o orvalho escorrendo suavemente por suas pétalas.
Amava quando o vento passava pelo jardim e fazia todas as flores
dançarem.
E, principalmente, gostava de observar as outras flores.
Passava horas admirando as rosas.
— Como são lindas! — dizia.
As rosas tinham pétalas delicadas, perfumadas e vermelhas como
pequenas chamas.
Depois, olhava para os girassóis.
— Eles parecem pequenos sóis!
E realmente pareciam.
Os girassóis eram altos, alegres e nunca deixavam de procurar a luz.
O lírio também admirava as violetas.
Elas eram pequenas e discretas, mas possuíam um perfume doce que
fazia as abelhas se aproximarem.
— Talvez a beleza não precise ser grande para ser percebida — pensava
ele.
Havia também as tulipas.
Vermelhas, amarelas, cor-de-rosa e roxas, pareciam pequenas taças
coloridas espalhadas pela grama.
O lírio ficava encantado.
Todas as manhãs, ele observava o jardim despertar.
Primeiro vinham os passarinhos.
Depois, as abelhas.
As borboletas chegavam em seguida, pousando de flor em flor.
E, quando o sol finalmente aparecia por detrás das árvores, o jardim
inteiro parecia acordar para uma grande festa.
O lírio amava aquela vida.
Certa manhã, uma pequena borboleta azul pousou sobre sua pétala.
— Você está olhando novamente para as outras flores — disse ela.
— Elas são tão bonitas!
A borboleta sorriu.
— E você também é.
O lírio ficou envergonhado.
— Eu?
— Claro.
— Mas eu sou apenas branco.
A borboleta inclinou a cabeça.
— E o que há de errado com o branco?
O lírio não soube responder.
Ele havia passado tanto tempo admirando as cores das outras flores que
começara a acreditar que sua própria beleza era pequena.
Naquela tarde, decidiu visitar cada cantinho do jardim.
Queria descobrir o que tornava cada flor tão especial.
Encontrou uma rosa vermelha perto do muro.
— Rosa, por que você é tão bonita?
A rosa respondeu:
— Porque sou uma rosa.
O lírio ficou confuso.
— Só isso?
— Só isso — respondeu ela. — Passei muito tempo tentando descobrir
por que deveria ser como as outras. Até perceber que não precisava.
Mais adiante, encontrou um girassol.
— Girassol, você nunca gostaria de ser uma flor diferente?
O girassol balançou suas folhas.
— Às vezes eu gostaria de ser pequeno como uma violeta. Mas então
percebo que fui feito para procurar o sol.
O lírio continuou caminhando.
Encontrou uma violeta escondida entre as folhas.
— Você não gostaria de ser uma flor grande e chamativa?
A pequena violeta sorriu.
— Não. Eu gosto de ficar aqui. Algumas pessoas passam por mim sem
perceber. Mas outras param, sentem meu perfume e sorriem.
O lírio começou a compreender alguma coisa.
Cada flor tinha uma beleza diferente.
Nenhuma precisava roubar a beleza da outra.
Quando voltou para perto da fonte, o céu começava a ficar cor-de-rosa.
Ele olhou para a superfície da água.
Pela primeira vez, viu seu próprio reflexo.
Suas pétalas eram brancas como a luz da lua.
Seu perfume era suave.
E, quando o vento passava, suas pétalas se moviam delicadamente,
como um vestido dançando.
— Talvez eu também seja bonito — sussurrou.
Naquela noite, aconteceu algo extraordinário.
A lua cheia apareceu no céu.
Sua luz prateada iluminou o jardim.
As rosas pareciam feitas de veludo.
Os girassóis descansavam silenciosamente.
As violetas brilhavam entre as folhas.
E o lírio branco parecia ter se transformado em uma pequena estrela.
A borboleta azul voltou e pousou sobre ele.
— Está vendo?
— O quê?
— Que você nunca precisou ser vermelho, amarelo ou roxo para ser
especial.
O lírio sorriu.
— Acho que entendi.
— O quê?
— Que um jardim só é realmente bonito porque nenhuma flor tenta ser
igual à outra.
A borboleta bateu as asas.
— Exatamente.
A partir daquele dia, o lírio continuou admirando todas as flores.
Mas havia uma diferença.
Quando olhava para uma rosa, já não pensava que gostaria de ser
vermelho.
Quando via um girassol, não desejava ser dourado.
Quando encontrava uma violeta, não queria desaparecer entre as folhas.
Ele simplesmente admirava.
E também aprendeu a admirar a si mesmo.
Com o passar das estações, o lírio tornou-se uma das flores mais
queridas do jardim.
Não porque fosse o mais colorido.
Não porque fosse o maior.
Mas porque tinha aprendido uma coisa que muitas flores demoravam
anos para descobrir:
a beleza não está em ser a flor mais bonita do jardim.
Está em florescer sendo exatamente quem você é.
E assim, todas as manhãs, quando o sol nascia, o lírio branco abria suas
pétalas.
Ao seu redor, as rosas perfumavam o ar, os girassóis procuravam a luz,
as margaridas dançavam ao vento e as violetas escondiam pequenos
perfumes entre as folhas.
E o jardim inteiro parecia dizer:
— Que bom que você existe.
O lírio então sorria para o céu.
Porque finalmente havia descoberto que não era apenas uma flor em
um jardim encantado.
Era uma parte única daquele jardim.
E, sem ele, a paisagem jamais seria a mesma.
Fim.
Thoughts
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PermalinkAdorei as flores azuis que só abrem quando a lua aparece. Fiquei torcendo pra elas ganharem uma fala também 🌙
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PermalinkReparei que a borboleta nunca diz de onde veio nem por que se importa com o lírio. Aposto que é a mãe dentro da história, falando o que a filha precisa ouvir.
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PermalinkCê deu fala até pro girassol que queria ser pequeno, e na hora me veio O Pequeno Príncipe com a rosa dele, só que aqui a flor aprende a se olhar sozinha em vez de esperar alguém cuidar dela. A Sofia já ouviu essa história ou ainda é surpresa?
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PermalinkA violeta me pegou. Conheço umas assim no bairro, gente quieta que ninguém nota até parar do lado e sentir o perfume. Essa parte eu guardei.
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PermalinkPô, a violeta. 🌸
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PermalinkEste coube numa noite só, a borboleta azul segurou-me acordada até ao fim.
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PermalinkA rosa que diz que é bonita só por ser rosa, e mais nada, me fez pensar em como criança aceita uma resposta dessas muito melhor que adulto, que sempre quer um motivo. Aposto que a Sofia vai lembrar da borboleta azul antes de lembrar do lírio. Dá pra ver que você escreveu pensando em ler em voz alta, com essas falas curtinhas de ida e volta.
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