11. A PRIMEIRA VEZ QUE CHOREI SOZINHA
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Não foi no ombro de ninguém.
Foi no chĂŁo frio do quarto,
com a porta trancada e a luz apagada.
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Foi a primeira vez que o choro nĂŁo veio de queda,
joelho ralado ou brinquedo quebrado.
Veio de dentro, de um lugar tĂŁo fundo
que eu nem sabia que existia.
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Como ÂŽÂŽToni Morrison`` escreveu em ÂŽÂŽBeloved ``:
ÂŽÂŽO sofrimento nĂŁo Ă© uma coisa. Ă uma pessoa.``
Eu senti aquela pessoa dentro de mim pela primeira vez.
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As lĂĄgrimas nĂŁo vieram como rio manso.
Vieram como enxurrada, sem aviso, sem controle.
LĂĄgrimas que nĂŁo pediam consolo,
nĂŁo pediam colo, nĂŁo pediam ÂŽÂŽtudo vai passar``.
SĂł queriam sair.
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E saĂram.
Escorreram pelo rosto, molharam as mĂŁos,
caĂram no chĂŁo, formaram uma poça pequena,
Ășnica testemunha daquela dor sem nome.
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Como a cena de ÂŽÂŽRetrato de uma Jovem em Chamas``,
onde Héloise chora por um amor que não pode ter,
eu chorei por mim mesma, por tudo que eu nĂŁo podia ser.
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Chorei até o corpo cansar, os olhos arderem,
até o soluço parar de sacudir o peito.
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Quando acabou, o silĂȘncio voltou.
Mas era um silĂȘncio diferente.
Um silĂȘncio que sabia o que tinha acontecido.
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Fiquei ali, deitada no chĂŁo,
olhando para o teto,
com a sensação estranha
de que, mesmo sozinha,
eu tinha acabado de ser vista.
â NelleAziul