CAPÍTULO 14 — GABRIEL
Gabriel sempre cantava quando estava com medo.
Não porque acreditasse que sua voz pudesse afastar o perigo.
Mas porque, desde pequeno, havia descoberto que era mais fácil transformar medo em música do que admitir que estava com medo.
Naquela manhã, ele acordou antes do despertador.
O quarto ainda estava escuro.
Por alguns segundos, ficou olhando para o teto.
Então ouviu a voz da mãe vindo da cozinha.
— Gabriel?
Ele fechou os olhos.
— Já estou indo.
Levantou.
Vestiu uma camiseta preta, uma calça simples e pegou o violão que ficava encostado ao lado da cama.
Antes de sair, olhou para o espelho.
Tentou sorrir.
Não gostou.
Tentou novamente.
Dessa vez parecia mais convincente.
Era assim que Gabriel funcionava.
Quando estava inseguro, sorria.
Quando estava triste, fazia piada.
Quando estava com medo, cantava.
E quando alguém perguntava se estava tudo bem...
— Sempre.
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A COZINHA
Sua mãe estava sentada à mesa.
Havia uma xícara de café diante dela.
— Você dormiu?
— Dormi.
— Está mentindo.
Gabriel sorriu.
— Você me conhece demais.
— Sou sua mãe.
Ela colocou um prato diante dele.
— Você tem aula hoje.
— Eu sei.
— E depois?
Gabriel abaixou os olhos.
— Ensaio.
Ela ficou em silêncio.
— Gabriel.
— Eu sei o que você vai falar.
— Então fale você.
Ele suspirou.
— Que eu preciso pensar no futuro.
— Exatamente.
— Música é meu futuro.
— Música é seu sonho.
— Qual é a diferença?
Ela demorou.
— Sonhos não pagam contas.
Gabriel sorriu.
— Ainda.
A mãe balançou a cabeça.
— Você é igual ao seu pai.
O sorriso desapareceu.
Gabriel largou o garfo.
— Não fala dele.
Ela percebeu que havia tocado em uma ferida.
— Desculpa.
— Tudo bem.
— Não está.
Gabriel levantou.
— Estou atrasado.
Pegou o violão.
Antes de sair, a mãe perguntou:
— Você ainda guarda a música que escreveu para ele?
Gabriel parou.
— Sim.
— Por quê?
Ele olhou para ela.
— Porque um dia ele vai ouvir.
E saiu.
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O HOMEM QUE FOI EMBORA
Gabriel tinha nove anos quando seu pai saiu de casa.
Não houve gritos.
Não houve discussão.
Apenas uma mala.
Gabriel estava sentado no corredor.
— Você vai viajar?
O pai parou.
— Vou.
— Por quanto tempo?
Silêncio.
— Não sei.
Gabriel levantou.
— Posso ir?
O homem se abaixou.
— Não.
— Por quê?
— Porque isso é coisa de adulto.
Gabriel não entendeu.
— Você volta?
O pai segurou o rosto dele.
— Talvez.
A palavra ficou na cabeça do menino.
Talvez.
Naquela noite, Gabriel esperou na janela.
Esperou no dia seguinte.
Depois no outro.
O pai nunca voltou.
Meses depois, Gabriel descobriu que ele tinha outra família.
A notícia destruiu alguma coisa dentro dele.
Não foi apenas abandono.
Foi a sensação de ter sido substituído.
Gabriel decidiu que nunca seria esquecido.
Foi ali que nasceu seu sonho.
Ele queria ser alguém que ninguém pudesse ignorar.
Queria subir em um palco.
Queria que milhares de pessoas soubessem seu nome.
Queria cantar tão alto que ninguém pudesse ir embora sem ouvir.
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O ENSAIO
A pequena sala onde Gabriel ensaiava ficava atrás de um antigo café.
Era simples.
Uma parede de tijolos.
Um sofá velho.
Um microfone.
E um pequeno palco improvisado.
Gabriel colocou o violão no suporte.
Seu amigo começou a tocar.
— Pronto?
Gabriel sorriu.
— Sempre.
A música começou.
Sua voz preencheu o lugar.
Não era perfeita.
Mas tinha algo.
Uma emoção que não podia ser ensinada.
Quando terminou, ninguém falou por alguns segundos.
Então vieram os aplausos.
Gabriel sorriu.
— Obrigado.
Uma mulher que estava sentada no fundo se levantou.
— Você escreveu essa música?
— Sim.
— É boa.
— Obrigado.
— Você canta como alguém que perdeu alguma coisa.
O sorriso dele desapareceu.
— Todo mundo perde alguma coisa.
Ela sorriu.
— Talvez.
E saiu.
Gabriel ficou pensando naquela frase.
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O TELEFONE
Seu celular vibrou.
Número desconhecido.
Ele atendeu.
— Alô?
— Gabriel.
Ele ficou sério.
— Quem é?
— Você não me conhece.
— Então como sabe meu nome?
Silêncio.
— Você recebeu uma proposta.
Gabriel sentiu o estômago apertar.
— Quem é você?
— Alguém que sabe que você quer muito ser cantor.
— E daí?
— Pessoas que querem muito alguma coisa são fáceis de manipular.
Gabriel desligou.
Ficou olhando para o telefone.
Então ele vibrou novamente.
Uma mensagem.
"Não aceite qualquer ajuda."
Gabriel franziu a testa.
Outra mensagem chegou.
"Principalmente se vier de Liam Blackwood."
Ele ficou imóvel.
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LIAM
Naquela tarde, Gabriel encontrou Liam na universidade.
Liam estava sentado sozinho.
Um livro aberto diante dele.
Gabriel se aproximou.
— Você mandou me procurar?
Liam fechou o livro.
— Sim.
— Por quê?
— Porque preciso de você.
Gabriel riu.
— Essa frase nunca termina bem.
— Eu não vou pedir dinheiro.
— Ainda bem.
Liam levantou.
— Quero que você faça uma coisa.
— O quê?
Liam tirou um papel do bolso.
Entregou a Gabriel.
Era um endereço.
— Vá até lá.
Gabriel leu.
— O que tem nesse lugar?
— Um homem.
— E o que eu faço?
— Converse com ele.
— Sobre?
— Sobre o Projeto Blackwood.
Gabriel levantou os olhos.
— Que projeto?
Liam permaneceu em silêncio.
— Você está brincando comigo?
— Não.
— Então me explica.
— Ainda não posso.
Gabriel riu nervosamente.
— Você pede um favor estranho, me entrega um endereço estranho e espera que eu aceite?
— Sim.
— Por quê?
Liam se aproximou.
— Porque você sabe conversar com pessoas.
Gabriel ficou em silêncio.
— Você consegue fazer alguém confiar em você sem perceber.
— Isso foi um elogio?
— Foi uma constatação.
Gabriel guardou o papel.
— E o que eu ganho?
Liam respondeu:
— Sua carreira.
Gabriel parou.
— Como?
— Tenho contatos.
— Então era isso.
— O quê?
— Você vai usar meu sonho para conseguir o que quer.
Liam não negou.
— Sim.
Gabriel riu sem humor.
— Pelo menos é honesto.
— Eu nunca disse que era bom.
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O FAVOR
Gabriel ficou olhando para o endereço.
— Se eu fizer isso...
— Eu ajudo você.
— E se eu não fizer?
— Nada.
Gabriel ergueu uma sobrancelha.
— Nada?
— Você continua sua vida.
— Então por que parece uma ameaça?
— Porque você sabe que oportunidades como essa não aparecem duas vezes.
Gabriel ficou em silêncio.
Ele odiava admitir.
Liam tinha razão.
Aquela proposta poderia mudar sua vida.
— Quanto tempo?
— Uma conversa.
— E se ele perguntar quem me mandou?
— Não diga meu nome.
— Então o que eu digo?
Liam olhou para ele.
— Diga a verdade.
Gabriel riu.
— Você acabou de pedir para eu esconder seu nome.
— Isso não significa que você precisa mentir.
Gabriel balançou a cabeça.
— Você é complicado.
— Eu sei.
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O PRIMEIRO ENCONTRO
O endereço levou Gabriel até uma cafeteria antiga.
Ele entrou.
Um homem estava sentado no fundo.
Aparentava pouco mais de cinquenta anos.
Cabelos grisalhos.
Óculos.
Uma pasta preta sobre a mesa.
Gabriel se aproximou.
— Você é Samuel?
O homem levantou os olhos.
— Quem é você?
— Gabriel.
— Quem mandou você?
Gabriel sentou.
— Ninguém.
Samuel observou.
— Mentira.
Gabriel sorriu.
— Você percebe rápido.
— E você mente mal.
— Estou aprendendo.
Samuel fechou a pasta.
— O que você quer?
— Informações sobre o Projeto Blackwood.
O rosto do homem mudou.
Foi pequeno.
Quase imperceptível.
Mas Gabriel percebeu.
— Quem falou sobre isso?
— Um conhecido.
— Nome.
— Não posso dizer.
Samuel levantou.
— Então nossa conversa acabou.
Gabriel segurou o braço dele.
— Espera.
O homem olhou para sua mão.
Gabriel soltou.
— Só preciso saber uma coisa.
— O quê?
— O projeto existiu?
Samuel ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— Sim.
Gabriel sentiu um arrepio.
— E o que era?
— Não era um projeto.
— Então o que era?
Samuel olhou para a porta.
— Um experimento.
Gabriel franziu a testa.
— Experimento com o quê?
Samuel não respondeu.
Apenas pegou a pasta.
Antes de sair, deixou uma fotografia sobre a mesa.
Gabriel olhou.
Era uma fotografia antiga.
Cinco crianças.
Ele reconheceu duas.
Liam.
Yasmin.
As outras três eram desconhecidas.
No verso:
"Eles não eram os únicos."
Gabriel ficou olhando para a imagem.
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A PRIMEIRA FISSURA
Ele levou a fotografia para Liam.
Liam estava no quarto.
Gabriel colocou a imagem sobre a mesa.
— O que é isso?
Liam pegou.
Seu rosto mudou.
— Onde conseguiu?
— Com um homem chamado Samuel.
— Samuel quem?
— Não sei.
Liam virou a fotografia.
Leu a frase.
Ficou em silêncio.
— Você sabia disso?
— Não.
Gabriel percebeu algo.
— Você está com medo.
Liam olhou para ele.
— Não.
— Está sim.
— Não estou.
— Eu conheço esse olhar.
Liam apertou a fotografia.
— Você não conhece.
— Conheço mais do que você pensa.
Liam olhou para ele.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Então Liam perguntou:
— Você contou para alguém?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Liam guardou a fotografia.
— Então não conte.
Gabriel cruzou os braços.
— Por quê?
— Porque agora você está envolvido.
— Eu já estava.
— Não.
Liam encarou-o.
— Agora eles sabem que você sabe.
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A SOMBRA
Naquela noite, Gabriel voltou para casa.
A rua estava vazia.
Ele caminhou até o portão.
Parou.
Havia um envelope preso entre as grades.
Seu nome estava escrito.
GABRIEL MORAES.
Ele abriu.
Dentro havia outra fotografia.
Dessa vez...
era dele.
No palco.
Cantando.
A fotografia havia sido tirada naquela tarde.
No verso:
"Todo mundo tem um preço."
Gabriel sentiu o coração acelerar.
Olhou para os lados.
Ninguém.
Pegou o celular.
Ligou para Liam.
Chamou.
Nada.
Tentou novamente.
Nada.
Então uma voz surgiu atrás dele.
— Gabriel.
Ele se virou.
Era a mulher que havia assistido ao seu ensaio.
A mesma que havia dito que ele cantava como alguém que perdeu alguma coisa.
Ela estava parada do outro lado da rua.
— Quem é você?
Ela sorriu.
— Alguém que conheceu seu pai.
Gabriel ficou imóvel.
— Você conheceu meu pai?
— Muito bem.
— Onde ele está?
Ela deu um passo.
— Essa é uma pergunta perigosa.
— Eu quero saber.
— Você realmente quer?
— Quero.
Ela tirou uma pequena fotografia do bolso.
Entregou a ele.
Gabriel olhou.
Seu pai estava ao lado de três homens.
Um deles...
era o pai de Liam.
Outro...
era o pai de Dominic.
Gabriel sentiu o chão desaparecer.
— O que eles têm em comum?
A mulher respondeu:
— Todos participaram do começo.
— Começo de quê?
Ela sorriu.
— Do Projeto Blackwood.
Gabriel levantou os olhos.
— E meu pai?
Ela se virou.
— Seu pai não abandonou você por acaso.
Gabriel ficou sem reação.
— Então por quê?
A mulher continuou caminhando.
— Porque ele descobriu o que eles estavam fazendo.
Gabriel correu atrás.
— Espera!
Ela parou.
Sem olhar para trás, disse:
— Se quer encontrar seu pai...
Pausa.
— Pergunte ao Liam por que ele foi escolhido.
Então desapareceu na esquina.
Gabriel ficou sozinho.
A fotografia tremia em sua mão.
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A MÚSICA
Mais tarde, Gabriel entrou no quarto.
Colocou o violão sobre a cama.
Sentou no chão.
Durante anos, acreditara que seu pai tinha ido embora porque não o amava.
Era mais fácil odiá-lo.
Agora...
talvez fosse mentira.
Pegou uma folha.
Começou a escrever.
As palavras vieram rápidas.
Não eram sobre fama.
Nem sobre dinheiro.
Eram sobre abandono.
Sobre segredos.
Sobre um filho esperando alguém voltar.
Quando terminou, olhou para a letra.
No topo escreveu:
"Talvez você tenha ido para me proteger."
Uma lágrima caiu sobre o papel.
Gabriel limpou rapidamente.
Sorriu para si mesmo.
Como sempre fazia.
Mas dessa vez o sorriso não escondeu a dor.
Apenas mostrou que ela existia.
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O AVISO
O celular vibrou.
Uma mensagem de Liam.
"Não confie em ninguém."
Gabriel respondeu:
"Nem em você?"
Demorou alguns segundos.
Então:
"Principalmente em mim."
Gabriel ficou olhando para a tela.
Pela primeira vez, percebeu que Liam não estava tentando parecer invencível.
Ele estava tentando avisá-lo.
Talvez porque soubesse exatamente o que aconteceria quando alguém começasse a procurar respostas.
Gabriel apagou a mensagem.
Guardou a fotografia.
E olhou para o violão.
Seu sonho ainda estava vivo.
Mas agora havia outra coisa crescendo dentro dele.
Uma pergunta.
O que realmente aconteceu com seu pai?
E, pela primeira vez...
Gabriel decidiu que não queria que Liam encontrasse a resposta antes dele.
Porque aquela história também era dele.
E se o Projeto Blackwood realmente tivesse começado com seus pais...
então talvez Gabriel não tivesse sido escolhido por acaso.
Talvez ele também estivesse naquela história desde criança.
Só não se lembrava.
Do lado de fora da janela, um carro preto estava estacionado.
O motorista observava a casa.
O telefone dele tocou.
— Ele recebeu a fotografia?
— Sim.
— E?
— Começou a procurar o pai.
Silêncio.
— Ótimo.
— E Liam?
A pessoa do outro lado demorou alguns segundos para responder.
— Liam ainda acredita que está procurando respostas.
— E não está?
Uma risada baixa atravessou a ligação.
— Não.
— Então o que ele está fazendo?
— Está seguindo exatamente o caminho que nós queríamos.
A ligação terminou.
O carro partiu.
E Gabriel, sem saber, acabara de dar seu primeiro passo para dentro de uma história que havia começado muito antes de ele nascer.