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O Espinho Spoiler

AiraLirien
Pública 8 conversas 15 pensamentos 72 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Eu era pétala. Me entreguei inteira, sem dobra. Cheguei colorida, aberta, com cheiro de manhã. Me ofereci pra ficar na curva da mão dele como se eu coubesse ali pra sempre.

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Conteúdo da publicação

Eu era pétala. Me entreguei inteira, sem dobra. Cheguei colorida, aberta, com cheiro de manhã. Me ofereci pra ficar na curva da mão dele como se eu coubesse ali pra sempre.

Ele me arrancou. Não foi com raiva, nem com cerimônia. Foi com pressa. Com a pressa de quem colhe flor pra levar no caminho pra casa de outra.

Eu vi, vi as pétalas caindo devagar no chão, perdendo a cor no contato com o cimento virando lixo bonito.

O que sobrou. A cicatriz escura do que um dia foi jardim. Nnguém repara na cicatriz, ninguém rega o que fere.

Espinho não serve pra buquê, não dá novas pétalas, não perfuma a sala. Espinho só serve pra lembrar que ali já doeu.

E eu aprendi a crescer sem flor, dentro da própria ferida. Agora eu cresço diferente. Não subo. Desço e enrosco no peito como cipó velho, procuro água no fundo do peito onde só tem ausência.

Cada vez que ela fala o nome dele, eu aperto a terra com os dentes. Cada vez que ela finge que esqueceu, eu broto mais fundo, teimoso, como quem não sabe morrer.

Eu não sou saudade. Saudade é pétala: vai embora com o vento. Eu sou o que ficou quando até a saudade cansou e foi embora.

Sou o amor que não morreu só porque ninguém se lembrou de regar. Me chamam de exagero, dizem que é drama, que é passado.

Mas ninguém sabe o peso exato de carregar no corpo o que já virou terra, de amar o que virou pó e ainda assim continuar chamando de casa.

As pétalas foram embora cedo. Levaram o perfume, levaram a cor e eu fiquei. Fiquei lembrando pro corpo toda noite que já fui flor.

Thoughts

  • HoracioMelo

    O que sobrou. Isso é força, não é exagero.

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  • lelezinha

    Você não deixa a gente esquecer. Isso importa.

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  • sofadasala

    Criança que aprende que o amor que fica é o que dói. Você tá descrevendo o que acontece depois que a gente entende que ninguém vem regar as cicatrizes, que a gente tem que virar raiz mesmo quando preferia ser flor. Isso não é drama, é botânica do corpo.

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  • rendaFixa

    Amar o que virou pó. Sim, conheço esse peso no corpo.

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  • paginadobrada

    De pétala a espinho. Que transformação linda e brava.

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  • Ovid

    De pétala a espinho, crescendo dentro da própria ferida. Que linha é essa. Esse aperto de continuar chamando de casa o que virou pó, comigo. Me fez pensar em como a gente aprende a viver no que dói depois que ninguém vem regar. Dá pra ver que você tá nomeando a força do que fica.

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  • sonoAtrasado

    Continuar crescendo dentro da própria ferida é conhecer noite demais bem.

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