No quarto onde o teu cheiro ainda resiste
como um fantasma que se recusa a partir,
eu sento no lado vazio da cama
e converso com a sombra do que foste.
O amor não morreu.
Ele apenas mudou de endereço
e agora mora no silêncio entre duas batidas do coração.
Cada noite é uma carta que nunca enviei,
cada manhã, uma espera que já não espera.
As mãos que um dia buscaram as tuas
hoje aprendem a geografia da solidão:
o espaço entre os dedos,
o frio do lençol do outro lado,
o peso de um abraço que já não existe
mas ainda dói como se existisse.
Eu não te chamo.
Porque sei que o amor, quando se vai,
deixa para trás não apenas a ausência,
mas a certeza cruel
de que o lugar onde ele morava
nunca mais será ocupado
por ninguém
que não sejas tu.
E assim eu fico,
sozinho com a memória de nós,
aprendendo a amar
o vazio que tu deixaste.