Há distâncias que não cabem em mapas,
nem podem ser medidas pela estrada;
há quem more a poucos quilômetros
e habite uma região inabitada.
Porque estar perto nunca foi somente
questão de ruas, bairros ou lugar;
há quem esteja do outro lado do mundo
e ainda assim consiga nos alcançar.
E há quem passe tão perto da nossa vida,
quase ao alcance de um olhar,
mas erga entre dois seres tão próximos
um silêncio impossível de atravessar.
Talvez a distância mais funda seja
aquela que ninguém consegue ver:
não é o espaço que separa duas pessoas,
é a escolha de não mais se dizer.
A psicologia talvez encontre nomes
para aquilo que eu não sei explicar;
fale em vínculo, ausência, desapego,
mecanismos que ajudam a suportar.
Mas nenhuma teoria me responde
por que o coração insiste em procurar
alguém que está tão perto no espaço
e tão distante no direito de chegar.
É um paradoxo quase absurdo:
a cidade continua exatamente igual;
as mesmas ruas, os mesmos caminhos,
mas já não existe o mesmo lugar.
Eu poderia atravessar alguns bairros,
poderia chegar perto sem dificuldade;
mas distância alguma é tão imensa
quanto aquela imposta pela vontade.
Porque o corpo pode estar próximo,
e ainda assim não existir presença.
E talvez seja esse o mais cruel dos paradoxos:
a proximidade não garante pertencença.
Há um tipo estranho de quase-amor
que não termina quando alguém vai embora.
Ele termina quando ainda há proximidade,
mas já não existe uma porta.
E talvez seja isso que mais ensine
sobre querer alguém sem possuir:
há pessoas que continuam geograficamente próximas
e que precisamos aprender a não atingir.
Não porque deixaram de significar,
nem porque o sentimento desapareceu,
mas porque amar também reconhece
o espaço que o outro escolheu.
E assim eu aprendo, lentamente,
que distância não é só partir:
às vezes, a pessoa permanece na mesma cidade,
e o amor precisa aprender
a não atravessar a distância que ela escolheu.