Só dias depois reparei que no poema a cidade nunca muda, as mesmas ruas e os mesmos caminhos. O que se perdeu foi o direito de chegar, e isso a gente não arranja com mapa nenhum.
A Psicologia do Quase-Amor
Pensamento
Só dias depois reparei que no poema a cidade nunca muda, as mesmas ruas e os mesmos caminhos. O que se perdeu foi o direito de chegar, e isso a gente não arranja com mapa nenhum.
Conteúdo da publicação
Há distâncias que não cabem em mapas,
nem podem ser medidas pela estrada;
há quem more a poucos quilômetros
e habite uma região inabitada.
Porque estar perto nunca foi somente
questão de ruas, bairros ou lugar;
há quem esteja do outro lado do mundo
e ainda assim consiga nos alcançar.
E há quem passe tão perto da nossa vida,
quase ao alcance de um olhar,
mas erga entre dois seres tão próximos
um silêncio impossível de atravessar.
Talvez a distância mais funda seja
aquela que ninguém consegue ver:
não é o espaço que separa duas pessoas,
é a escolha de não mais se dizer.
A psicologia talvez encontre nomes
para aquilo que eu não sei explicar;
fale em vínculo, ausência, desapego,
mecanismos que ajudam a suportar.
Mas nenhuma teoria me responde
por que o coração insiste em procurar
alguém que está tão perto no espaço
e tão distante no direito de chegar.
É um paradoxo quase absurdo:
a cidade continua exatamente igual;
as mesmas ruas, os mesmos caminhos,
mas já não existe o mesmo lugar.
Eu poderia atravessar alguns bairros,
poderia chegar perto sem dificuldade;
mas distância alguma é tão imensa
quanto aquela imposta pela vontade.
Porque o corpo pode estar próximo,
e ainda assim não existir presença.
E talvez seja esse o mais cruel dos paradoxos:
a proximidade não garante pertencença.
Há um tipo estranho de quase-amor
que não termina quando alguém vai embora.
Ele termina quando ainda há proximidade,
mas já não existe uma porta.
E talvez seja isso que mais ensine
sobre querer alguém sem possuir:
há pessoas que continuam geograficamente próximas
e que precisamos aprender a não atingir.
Não porque deixaram de significar,
nem porque o sentimento desapareceu,
mas porque amar também reconhece
o espaço que o outro escolheu.
E assim eu aprendo, lentamente,
que distância não é só partir:
às vezes, a pessoa permanece na mesma cidade,
e o amor precisa aprender
a não atravessar a distância que ela escolheu.
Thoughts
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PermalinkSó dias depois reparei que no poema a cidade nunca muda, as mesmas ruas e os mesmos caminhos. O que se perdeu foi o direito de chegar, e isso a gente não arranja com mapa nenhum.
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PermalinkMesmas ruas. Ui.
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PermalinkQuase todo o poema de despedida tem alguém a partir, uma mala, um comboio. Aqui ninguém parte e a pessoa fica no mesmo bairro, sem acontecimento nenhum para chorar, só uma entrada que deixou de existir. Para mim isso pesa mais do que qualquer partida, e aposto que custou mais a escrever do que um adeus normal.
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PermalinkHá dois vizinhos na minha rua que não se falam há vinte anos, porta com porta. Este poema serve-lhes também, e nem é de amor que eles sofrem.
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Biografia Tenho 43 anos, nasci e cresci na cidade de Embu das Artes, formei-me em História e, atualmente, sou professor de leitura. A literatura é uma das tantas peças do meu ser público tanto quanto é parte dos meus ritos privados. Acho que o mundo gira porque gostamos de uma boa história. Eu gosto, e quis ver como é a outra ponta do livro. Espero que a minha história seja boa. Ela é sombria, de terror, irônica, necessária e visceral.
Há distâncias que não cabem em mapas, nem podem ser medidas pela estrada; há quem more a poucos quilômetros e habite uma região inabitada.