Hoje volto ao meu convívio.
Era uma vez, assim dizia um poeta,
que o meu sangue guardava uma estrela secreta e incompleta.
Doce vampira, de seu sangue tomei,
e me tornei quem não sou mais, nem sei.
No segundo tempo, me perdi, naquele momento,
dei minha liberdade por um falso acolhimento.
Caminho sem rumo, esperando aprovação,
fui feita de vento e agora vivo em prisão.
E a lua me olhou, calada e fiel.
De mim mesma levei a mordida cruel,
vendi meu brilho, perdi o meu céu.
Cigana que fui, já não reconheço a estrada,
vampira que sou, sem nenhuma jornada.
Não tenho dono, mas também não sou dona de mim,
sombra que imita a vida, brilho sem fim.
Corpo que não é meu, passo que não é meu,
cigana aprisionada no que os outros escolheu.
Vampira não de sangue alheio, mas de próprio:
devoro a mim mesma, pouco a pouco, quieta.
O que fui, guardo em segredo, em baú fechado,
cigana sem pátria, sem canto, sem lado.
Alma cigana, presa em eterna maldição,
perdida entre a luz e a própria escuridão.
E o poeta encerrou, com voz suave e certa:
— A pior prisão é aquela que você mesmo aceita.