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Quando representado de forma "realista", o Batman acaba virando um símbolo fascista?

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A premissa de toda releitura sombria do Batman é basicamente a mesma: e se levássemos isso a sério e o tornássemos realista? E se removêssemos o tom caricato, baixássemos a saturação das cores e perguntássemos o que de fato significaria um bilionário vestir uma armadura e espancar criminosos. Pois é, infelizmente, mesmo com boas intenções, acaba virando uma defesa do fascismo...

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A premissa de toda releitura sombria do Batman é basicamente a mesma: e se levássemos isso a sério e o tornássemos realista? E se removêssemos o tom caricato, baixássemos a saturação das cores e perguntássemos o que de fato significaria um bilionário vestir uma armadura e espancar criminosos. Pois é, infelizmente, mesmo com boas intenções, acaba virando uma defesa do fascismo.

O Batman realista é mais do que um justiceiro num sentido vago e moralmente cinzento. Ele é uma autocracia privada. Antes de discutir, gostaria de apontar que estou supondo que você conheça a ur-fascismo de Umberto Eco, ao menos suas famosas 14 propriedades do Fascismo. Eu sugeriria lê-las de antemão, caso não conheça, já que são um ótimo trabalho na definição da ideologia fascista.

O Batman, em poucas palavras, frequentemente bate com: desconfiança do processo legal, o inimigo definido como uma justificativa permanente para medidas extraordinárias e ilegais, e a convicção de que a pessoa certa pode usar a violência fora dos limites que regem as pessoas comuns. Quando você se pergunta como o Batman é sem a distância dos quadrinhos, o encaixe fica difícil de não notar. Ele não confia nas instituições, ele decide quem é a ameaça e ele não presta contas a ninguém porque acredita que o seu julgamento está acima do sistema. A armadura é a prova. Quando o Batman luta contra ameaças sobre-humanas, ele costuma estar justificado em seus métodos e extremismo. Quando você o torna "realista e sombrio" e o coloca numa cidade normal (sim, cheia de crime, mas ainda assim parecida com a vida real) com pessoas normais, esses mesmos métodos acabam sendo as mesmas ferramentas que os governos fascistas usam para manter as pessoas sob controle.

The Dark Knight Returns. And Rises

O The Dark Knight Returns, de Frank Miller, continua sendo o tratamento de peso mais honesto porque não esconde a carga autoritária dentro da fantasia. Ele a encena diretamente: Reagan está no texto, o Superman se torna um instrumento do Estado e o Batman é mostrado como assustador, excessivo e politicamente carregado. E a história até se contorce um pouco para mostrar como ele se justifica. Os inimigos são literalmente . O livro não resolve a contradição, mas sim faz o leitor permanecer dentro dela. É por isso que ele ainda tem força interpretativa. Miller desenhou o que estava desenhando e não fingiu o contrário.

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Os vilões nem eram muito sutis. Punk, de esquerda, representados como progressistas. Uma ameaça à ordem social.

Os filmes do Nolan querem o realismo e a saída moral de emergência ao mesmo tempo. O exemplo mais claro é o sistema de vigilância por sonar em The Dark Knight. O Batman transforma a tecnologia de Lucius Fox numa ferramenta de vigilância em massa de toda a cidade. O filme se desdobra para dar sentido ao aparato de vigilância de Bush. Não me entenda mal, eu não consideraria o governo Bush fascista, mas o sistema de vigilância foi definitivamente um indício para se construir esse argumento.

Fox se opõe, diz que é poder demais para uma só pessoa e concorda em ajudar apenas com a condição de que o sistema se destrua assim que o Coringa for encontrado. O filme quer que o público sinta as duas coisas de uma vez: o alcance inebriante da vigilância total em mãos justas e a tranquilidade de que um bom homem a usou apenas uma vez. Isso é um desvio interpretativo, não uma resolução. O problema político não é apagado porque o homem excepcional promete parar.

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Ver a vida de todo mundo o tempo todo... Sei lá, parece um preço bem alto a pagar. Será que não havia mesmo outro jeito de encontrar o Coringa?

Eu acho que essa estética realista mais sombria continua voltando porque a própria fantasia é durável: as instituições são corruptas, o procedimento é fraco, o inimigo está por perto, e o homem certo tem que agir, e as leis o estão segurando. Olha, eu cresci amando o Batman. Ele era um cavaleiro de armadura reluzente... bom, um cavaleiro das trevas, se você preferir. Mas, refletindo sobre isso, um Batman na vida real ficaria sombrio bem rápido, e as histórias que recebemos tentando torná-lo realista acabam fazendo dele uma justificativa para o fascismo. Talvez seja melhor manter o Batman lutando contra mutantes sobre-humanos com os quais a polícia não consegue lidar. Talvez seja aí que o personagem estava no seu auge, quando ele usava o intelecto para resolver problemas, não os punhos. Quando ele era um intelectual, um detetive, não um brutamontes.

Thoughts

  • tudo_vira_meme

    isso aqui é literalmente o template

    ninguém:

    absolutamente ninguém:

    o filme do Nolan: vigilância em massa da cidade inteira, MAS o aparelho se autodestrói depois, então pode ficar tranquilo

    kkkk o roteiro inteiro do Cavaleiro das Trevas é o Lucius fazendo cara de nojo e usando assim mesmo. o molde já entrega em duas linhas o que o post levou seis parágrafos pra dizer

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  • palhaco_consciente

    a parte que me mata é o sistema se autodestruir "assim que achar o Coringa", tipo, confia. montaram a vigilância da cidade inteira e o controle de abuso é a palavra de honra de um homem de fantasia. massa, dorme tranquilo. todo poder que se desliga sozinho por boa vontade nunca existiu na vida real, mas no cinema cola redondo.

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  • legista_da_terceira_temporada

    Discordo de só uma coisa: o Miller de O Cavaleiro das Trevas Returns não é vítima da leitura fascista, ele é a versão honesta dela, e é por isso que envelheceu melhor que o Nolan. O texto quase reconhece isso. Aquela HQ encena o autoritarismo de cara, com Reagan no quadro e o Superman como instrumento do Estado, e não finge que é fábula. As releituras seguintes herdaram a carga e fingiram que era só estética sombria.

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  • treta_com_nexo

    bilionário fantasiado decide sozinho quem é ameaça, monta vigilância da cidade inteira e a gente bate palma porque ele prometeu desligar depois. dito assim em voz alta, oxe, o texto nem precisa argumentar muito

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  • advogada_da_caixa_misteriosa

    Oxe, quanto texto pra dizer que não entenderam o Batman. O personagem inteiro se sustenta no fato de que ele NÃO mata e se impõe um monte de regra que fascista nenhum aceitaria, justamente porque ele tem pavor do que viraria sem elas. O Bruce passou a vida com medo de ser exatamente isso que o post acusa. Chamar isso de defesa do fascismo é confundir "a história mostra um perigo" com "a história defende o perigo". Vocês assistiram uma vez, de turista. Eu morei lá dentro, visse.

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  • por_tras_do_veu

    A versão mais forte do argumento usa o ur-fascismo do Eco com cuidado, e o texto quase chega lá: o Batman realista bate em desconfiança do processo legal, inimigo permanente e o homem certo acima da lei. Onde eu seguro a mão é em chamar isso de fascismo sem mais. Justiceiro privado é autoritário, sim, mas o fascismo do Eco é um projeto de massa, com culto popular e mobilização. O Batman é o sonho oposto, o solitário que despreza a massa. É autocracia, não exatamente aquilo.

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  • perito_de_furos

    A leitura do sonar em Batman O Cavaleiro das Trevas é mais precisa do que parece. Fox aceita usar com a condição de o sistema se autodestruir ao achar o Coringa, e o filme trata isso como resolução moral quando é só um botão de off pra acalmar a plateia. Quem assiste com atenção vê a costura: o aparato de vigilância em massa fica justificado porque um homem bom usou uma vez só. O texto pegou exatamente o ponto onde o roteiro desvia em vez de resolver.

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