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para fã de percy jackson

grandefadepercyjackson
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eu sou apenas um adolecente que é fã de percy jacson

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Conteúdo da discussão

Antônio e a Flauta Dourada

(no estilo dos livros de Percy Jackson e os Olimpianos)

Se você está lendo isso e pensando que ser filho de um deus grego é só aventura, poder e fama… bem, às vezes até é. Na maior parte do tempo, porém, é tropeçar na própria raiz, ficar paralisado de medo no escuro e quase morrer por causa de uma senhora com uma perna de burro.

Meu nome é Antônio. Tenho dez anos, nasci no dia 12 de abril, sou filho de Apolo — o deus do sol, da música, da cura e de um monte de outras coisas que eu ainda estou aprendendo — e moro no Acampamento Meio-Sangue há quase um ano. Todo mundo aqui me chama de Tonho, Tônico ou, na maioria das vezes, Solzinho. Dizem que meu cabelo loiro-claro brilha igual raio de manhã, que meus olhos castanhos claros parecem mel no sol e que eu estou sempre com a pele um pouco bronzeada, mesmo nos dias de nuvem. Eu não ligo. Gosto do apelido.

Estava num dia comum, daqueles que o céu fica azul sem nenhuma nuvem, o tipo que eu mais amo. Eu estava sentado no gramado em frente ao Chalé 7, assobiando uma melodia que inventei na hora — uma das minhas manias, assobio sempre que estou pensando em alguma coisa —, batendo o pé no ritmo devagar e escrevendo um texto pequeno no meu caderninho de capa amarela, aquele que eu nunca tiro do bolso da calça. Usava camiseta branca, bermuda clara, boné virado pra trás e três pulseiras coloridas no pulso direito, as mesmas que uso quase todos os dias. Do lado, o meu arco de madeira clara encostado na árvore: ele é normal na maior parte do tempo, mas brilha com uma luz dourada fraquinha sempre que tem perigo por perto. Meus irmãos de chalé dizem que é o papai Apolo que cuida de mim de longe.

Eu descobri que era semideus quando tinha nove anos. Estava no meio de uma apresentação de flauta na escola, todo mundo quieto ouvindo, quando do nada apareceu uma criatura com pele escamosa, dentes pontudos e um cheiro de coisa podre, que veio correndo na minha direção gritando que ia me matar. Ninguém mais viu nada, só eu. Contei pro meu pai depois, ele suspirou, sentou do meu lado e finalmente falou a verdade: que minha mãe, uma professora de música que morava comigo até eu ficar mais velho, era humana, mas ele… ele era um deus. No dia seguinte eu já estava dentro do ônibus com o sátiro que me encontrou, vindo pro acampamento. Demorei uns três meses pra me acostumar de verdade. Ainda demoro um pouco, às vezes.

— Antônio! — ouvi a voz de Quíron, o centauro, vindo lá do pavilhão de atividades. Ele vinha andando devagar, com o casaco de lã marrom e o arco nas costas, e quando chegou abaixou o corpo pra ficar mais ou menos na minha altura. — O Oráculo deu um aviso pequeno, hoje. Não é uma missão de salvar o mundo, não se preocupe. Mas é uma missão só pra você.

Acontece que uma flauta de ouro puro, que pertenceu ao próprio Apolo há milhares de anos, tinha sido roubada na noite anterior. Quem levou foi uma empousa: uma criatura filha de Hécate, que tem uma perna de bronze e outra de burro, se disfarça de gente normal e odeia luz mais do que tudo. Ela tinha levado a flauta pra dentro da Caverna da Escuridão Silenciosa, uma gruta nos limites do acampamento onde o sol nunca entra, onde o silêncio é tão forte que chega a doer no ouvido.

Eu engoli seco. Duas coisas no mundo me deixam apavorado de verdade: uma é escuridão total, sem nenhum pontinho de luz. A outra é perder a voz, de nunca mais poder cantar nem falar com quem eu gosto. E a caverna tinha as duas coisas.

— Eu não… eu não sou forte o suficiente — falei baixo, mexendo no caderno.

— Força não é só não ter medo, Solzinho — sorriu Quíron. — É ter medo, e ir mesmo assim. Além disso… quem mais poderia trazer de volta a música do sol, senão o filho que mais canta por aqui?

Peguei meu arco, um punhado de flechas, minha flauta de madeira e o caderninho, é claro. Coloquei o boné direito na cabeça e fui andando devagar até a entrada da caverna. A cada passo que eu me aproximava, o arco começava a brilhar mais forte, devagar, como se dissesse estou aqui, calma. Na entrada, o ar estava frio, e quando eu dei o primeiro passo pra dentro… tudo apagou. Nenhuma luz, nenhum som. Nada. Fiquei parado, tremendo todo, a garganta fechando, quase sem voz. Meu pior pesadelo, bem na minha frente. Quase virei e corri de volta.

Mas então eu lembrei: meu pai é o deus do SOL. E luz não existe só fora de você. Às vezes ela vem de dentro.

Abri a boca devagar e comecei a cantar. Uma música que minha mãe me ensinou quando eu era pequeno, sobre o sol nascendo depois da tempestade. No primeiro verso, nada. No segundo… um brilho dourado muito fraco começou a sair dos meus olhos, iluminando só o chão na minha frente. Eu continuei. A luz foi crescendo, crescendo, até encher um círculo de uns três metros ao meu redor. Meus olhos brilhavam igual lanternas de ouro. É uma coisa que só acontece quando eu uso meus poderes de verdade.

No fundo da caverna, ouvi um grunhido baixo e feio.

— Criança pequena… — sussurrou a empousa, saindo da sombra com a flauta dourada na mão, os olhos vermelhos brilhando. Ela tinha a pele pálida, sorriso cheio de dentes pontudos e realmente uma perna de burro no lugar da esquerda. — Você veio morrer aqui sozinho? Vou deixar você mudo pra sempre, antes de te devorar.

Ela avançou rápido. Eu tentei pegar uma flecha, mas minhas mãos tremiam tanto que deixei cair metade no chão. Sou meio desastrado, todo mundo sabe. Ela veio na minha direção com garras de fora, e foi na mesma hora que o meu arco brilhou TÃO FORTE que pareceu uma pequena explosão de sol dentro da caverna. A criatura gritou, cobrindo os olhos, e recuou.

Eu não consegui acertar nenhuma flecha direito. Então fiz o que eu sei fazer de melhor: peguei a minha flauta de madeira, encostei na boca e toquei.

Não foi uma melodia bonitinha de apresentação de escola. Foi a melodia do próprio sol, que eu ouvi uma vez num sonho com o papai Apolo. Cada nota que saía virava um raio de luz dourada, flutuando no ar, e cada vez que uma tocava na empousa ela gritava mais alto, recuando cada vez mais pra dentro da escuridão, até desaparecer de vez, fugindo pra onde a luz não chegasse.

Fiquei uns dez segundos parado, ofegante, o coração batendo forte no peito. Depois fui devagar até o canto, peguei a flauta de ouro — ela estava morna, como se tivesse ficado no sol o dia todo — e saí andando o mais rápido que consegui da caverna. Quando a luz do sol de verdade bateu na minha cara de novo, eu quase chorei de alívio.

Na volta, encontrei um cachorrinho pequeno, o mesmo que vive perto do chalé dos deuses do campo, com a patinha ferida. Sentei no chão, coloquei a mão por cima do machucado devagar, e um brilho quente e dourado saiu dos meus dedos. Em menos de um minuto a ferida tinha sumido. Ele latiu feliz, lambeu a minha mão e veio andando comigo até a entrada do acampamento.

Todo mundo já estava lá esperando. Meus irmãos do Chalé 7 gritaram “SOLZINHO!” tão alto que até os passarinhos voaram das árvores. Quíron sorriu, balançando a cabeça. Até o Sr. D, que vive reclamando de tudo e de todos, murmurou baixo um “não foi tão mal assim, garoto”, antes de virar a cara e fingir que não tinha dito nada. Ganhei biscoitos pequenos de ambrosia, doces como tudo o que eu mais gosto, e naquela noite na fogueira todo mundo pediu que eu cantasse a música que usei na caverna.

Quando eu finalmente voltei pro chalé, já todo cansado, deitado na minha cama com o caderninho aberto no colo, escrevi a última coisa do dia:

Ser filho de Apolo não é nunca ter medo. Não é nunca tropeçar, nunca errar, nunca ficar com vergonha. É lembrar que, mesmo no lugar mais escuro e silencioso do mundo, você sempre tem uma luz dentro de você. E que a coisa mais poderosa que existe… não é uma espada, nem um raio. É uma música. É o sol. É o amor por quem você cuida.

Do lado de fora da janela, um raio de lua bateu bem na flauta dourada em cima da mesa, e ela brilhou devagar, como se o próprio pai estivesse ali, dando um sorriso de aprovação.

Ah, e uma coisa eu já deixei decidido pra sempre: da próxima vez que eu tiver que entrar em qualquer lugar escuro… levo pelo menos três lanternas. E um pacote inteiro de balas. Porque ninguém merece passar perigo sem doce.

✦ Fim ✦

☀️ Chalé 7 — Apolo ☀️

Capítulo 1— O Trovão, a Sombra e a Música Que Não Calou

(Acontecendo ao mesmo tempo que os eventos do livro, logo depois de Percy chegar ao acampamento e descobrir que o pinheiro estava morrendo)

A noite em que recuperei a Flauta Dourada, o céu sobre o Acampamento Meio‑Sangue devia estar o mais bonito do mundo… ou pelo menos era o que todo mundo falava. Eu só lembro de ter comido uns quatro biscoitos de ambrosia — docinhos que parecem exatamente brigadeiro, por algum motivo —, cantado três vezes a mesma música na fogueira e estar com os pés doendo tanto que quase não conseguia andar direito até o Chalé 7. Meu cabelo loiro ainda cheirava a fumaça de lenha, meus olhos ainda brilhavam um pouco de ouro por causa dos poderes, e o arco de madeira clara encostado na minha cama já tinha voltado ao normal, sem brilho nenhum.

Eu estava sentado na beira do colchão, abrindo meu caderninho amarelo pra escrever o que tinha acontecido, quando o chão tremeu.

Não foi um tremor de terra normal. Foi um baque seco, gelado, que doeu dentro dos ossos, como se alguém tivesse dado um murro bem no coração do próprio acampamento. Do lado de fora, gritos começaram a explodir de uma hora pra outra.

— O PINHEIRO! O PINHEIRO DE TÁLIA!

Saí correndo boné a dentro, flauta no cinto, caderno ainda na mão. Quando cheguei na colina da entrada, todo mundo já estava lá: Quíron de pé com as patas dianteiras nervosas, o Sr. D resmungando e jogando cartas sozinho como se não estivesse nem aí, mas com os olhos apertados, grupos de campistas de todos os chalés se empurrando. E bem no meio, a grande árvore que protegia a gente há anos — o pinheiro que um dia foi Tália Grace, filha de Zeus, que se sacrificou pra salvar os amigos — estava mudando de cor.

A casca verde‑escura ficava marrom e quebradiça devagar. Uma névoa venenosa, grossa e cor de limão podre, subia pelas raízes, e a barreira mágica que nos mantinha a salvo dos monstros piscava, apagava e voltava, igual uma lâmpada com fio ruim. Foi quando ouvi um grito cortante, mais desesperado que todos os outros.

— TÁLIA!

Um menino um pouco mais alto que mim, uns doze anos, cabelo preto sempre bagunçado como se levasse vento o tempo todo e olhos azul‑celeste que soltavam faíscas de verdade de vez em quando, saiu correndo por entre a multidão e caiu de joelhos bem na base da árvore. Ele usava a camisa laranja do acampamento toda amarrotada, calça jeans surrada e uma pulseira de couro com um raio gravado. Era Henrique, todo mundo chamava ele de Rique ou Trovãozinho, tinha chegado há só três meses. Filho de Zeus. Irmão mais novo de Tália.

Ninguém tinha contado a história direito ainda: ele nasceu anos depois que a irmã virou árvore, cresceu em Minas Gerais, e só descobriu quem era quando monstros começaram a aparecer em volta da sua casa. Na hora que o símbolo do raio brilhou acima da cabeça dele no chalé 1, muita gente ficou assustada — os Três Grandes não deviam ter filhos vivos andando por aí. E agora ali estava ele, batendo o punho na terra com força, tentando chamar um raio do céu pra queimar o veneno, mas só saindo fagulhas azuis minúsculas que morriam no ar. Ele tremia todo.

— Não funciona… — ele ofegou, e vi quando as faíscas desapareceram de vez, deixando ele só mais um menino assustado. — Eu não consigo… é muito fraco.

Eu me aproximei devagar, sem fazer barulho. Coloquei uma mão no ombro dele — ele estava quente, como se tivesse febre — e pus a outra por cima de um pedaço da casca que já estava quase morta. Uma névoa dourada muito fininha saiu dos meus dedos, o pouco de cura que eu consigo fazer. O verde voltou uns dois centímetros, só. Não bastava. Nada ia bastar, a menos que fosse algo realmente poderoso.

— É o Velocino de Ouro — murmurei, lembrando das aulas de Quíron. — É a única coisa que cura qualquer maldição, qualquer ferida, qualquer envenenamento. Mas ele está…

— No Mar de Monstros — completou uma voz baixa, rouca, tão calma que todo o barulho da colina sumiu do nada.

Todos se afastaram de um lado, abrindo caminho como se o diabo tivesse aparecido.

Vinha devagar, de roupas todas pretas, uma capa leve que se mexia sozinha igual fumaça fina. Pele pálida quase acinzentada, cabelo cortado rente na cabeça, olhos negros sem brilho nenhum. No pescoço, as veias já tinham um tom roxo escuro, como se ele estivesse fazendo força há muito tempo, e no antebraço direito tinha uma tatuagem preta de uma chave grega antiga. Ao lado dele, andando baixinho sem fazer som nenhum, um cachorro pequeno de pelagem toda branca, olhos vermelhos claros, que não latiu, não rosnou, só ficou olhando fixo pra todo mundo. Era Ósiris, o cão infernal albino.

Esse era Davi Queiroz. Quinze anos. Filho de Hades. Os apelidos dele eram Xerox e, em sussurros, Senhor das Sombras. Já tinha sido suspenso uma vez por tentar tirar algumas almas de um lugar de punição mais fraco — não conseguiu terminar, desmaiou de cansaço no meio do caminho, e por isso não foi expulso de vez. Todo mundo tinha medo dele. Diziam que plantas murchavam quando ele passava, que sua sombra andava um segundo antes do próprio corpo, que ele podia ver como você ia morrer só de tocar na sua pele.

Só que eu já tinha reparado: as plantas só murchavam por uns dois minutos e depois voltavam ao normal. A visão dele não era clara, era só manchas e sensações. E cada vez que usava poder, ele ficava pálido ainda mais, com dor de cabeça, como se estivesse carregando uma pedra enorme nas costas. Ele era forte, sim… mas muito longe de ser invencível.

Ele parou a três metros de nós. A sombra no chão já estava lá antes mesmo dele parar de andar. Passou o dedo polegar nos outros dedos da mão esquerda, devagar, contando — uma das suas manias — e sorriu um sorriso pequeno, frio, quando alguém na multidão gritou “é culpa dele, ele trouxe a morte!”. Ele sempre sorria quando as pessoas mentiam ou falavam bobagens.

— O veneno veio de fora — disse ele, e o tom era tão baixo que eu tive que me inclinar pra ouvir, mas cada palavra parecia ecoar dentro da cabeça. — Alguém de dentro ajudou. Eu sinto almas más andando por perto… mas são fracas, confusas. Não consigo ver nomes. Dói muito tentar ir mais fundo.

As veias roxas no pescoço dele ficaram mais escuras por um instante. Ele fechou os olhos e segurou a testa com dois dedos, ofegando baixo. Usar poder custava caro pra ele.

— A barreira tem buracos agora — continuou, depois de recuperar o fôlego. — Monstros já estão entrando. Um já veio.

Na mesma hora, um assobio agudo cortou o ar. Uma dracaena — mulher com corpo de cobra, escamas verdes, lanças de osso na mão — rastejou por entre as árvores da beira do acampamento, cuspindo veneno. Ninguém esperava. Ela veio direto pra Henrique, que ainda estava de joelhos.

Ele se levantou rápido, ergueu as duas mãos pro céu e gritou. Um raio pequeno, azul e fraco, desceu, acertou o braço da criatura e fez ela gritar… mas Henrique cambaleou pra trás, tonto, como se tivesse levado o golpe ele mesmo. Não aguentava invocar força maior sem desabar.

Davi deu um passo à frente. Esticou o braço, e a sombra dele no chão cresceu, virou uma parede preta na frente do monstro por dois segundos inteiros, só isso, e já foi o suficiente pra ela errar o golpe. Mas Davi caiu de um joelho no chão, tossindo, a pele mais fria que gelo.

— É o máximo que eu consigo hoje — rosnou, bravo consigo mesmo. — Não tenho força pra mais.

Foi então que eu senti o arco na minha costa esquentando, queimando devagar, brilhando ouro forte por baixo da camisa. O medo da escuridão, do silêncio, de não ser suficiente… tudo continuava lá, apertando o peito. Mas eu tinha algo que eles dois, naquele momento, não tinham.

Tirei a Flauta Dourada do cinto.

Ela estava morna, brilhando por dentro como se guardasse o sol do meio‑dia. Encostei na boca e toquei. Não foi música de ninar, não foi melodia de apresentação de escola. Foi a mesma canção que usei na caverna, mas agora mais forte, mais cheia: a música que o próprio Apolo cantava quando fazia o sol nascer. Cada nota saía como um raio pequeno, quente, dourado, enchendo a colina inteira de luz. A dracaena gritou, cobrindo os olhos, e se desfez em fumaça verde que o vento levou embora.

Quando parei de tocar, eu estava tremendo, suando frio, com as pernas quase não me segurando. Cansaço de semideus é pior que prova de matemática no final do ano.

Henrique veio até mim, ainda com a respiração curta, e bateu levemente no meu ombro. Os olhos dele ainda brilhavam azul elétrico.

— Valeu, Solzinho — disse. E pela primeira vez na noite, ele não parecia só o irmão assustado de Tália. Parecia um filho de Zeus de verdade. — Se não fosse você…

— Ainda não acabou — cortou Davi, se levantando devagar com a ajuda de Ósiris, que ficou encostado na sua perna. Ele limpou um pouco de suor frio da testa, e a sombra voltou a andar na sua frente de novo. — O Oráculo já falou hoje. Alguém já recebeu a missão.

Na mesma hora, vimos Clarisse La Rue, do chalé de Ares, saindo da tenda grande com uma expressão brava e determinada, segurando uma lança de bronze. Quíron ia atrás, explicando algo baixo. Mais longe, perto do lago, vi um menino de cabelo preto e camisa laranja manchada, ao lado de uma menina de cabelo loiro trançado e um garoto enorme, todo desajeitado, de um olho só. Eram Percy Jackson, Annabeth Chase e Tyson. Eu sabia quem eram. Todo mundo sabia.

— Clarisse vai buscar o Velocino — explicou Davi, olhando pro nada, como se ouvisse vozes muito longe. — Mas o caminho é pior do que pensam. Tem morte. Tem mentira. Tem um traidor muito mais forte do que parece. — Ele fez uma pausa, e baixou a voz ainda mais. — Eu tentei ver mais. Tentei mesmo. Mas tudo fica embaçado. Dói atrás dos olhos. Eu não sou… poderoso o suficiente pra saber tudo.

Foi a primeira vez que eu o ouvi admitir um limite.

Henrique franziu a testa, faíscas minúsculas saindo dos fios de cabelo.

— Então vamos ajudar — disse, firme. — Eu não vou deixar a minha irmã morrer de novo. Nem que eu tenha que aprender a controlar cada raio que existe. Nem que eu caia dez mil vezes.

Davi só olhou pro pinheiro, depois pra nós dois. Não sorriu dessa vez.

— Eu não vou salvar ninguém por bondade — murmurou. — Mas se o mundo dos vivos quebrar de vez, as almas saem todas do lugar. E o pior pesadelo que eu tenho… é perder quem eu sou, virar só mais uma andando sem rumo. Se isso ajuda vocês… então eu vou junto. Na medida do que eu conseguir.

Eu olhei de um pro outro: o trovão impulsivo que ainda não sabia toda a força que tinha, a sombra calma e calculista que carregava medos maiores do que qualquer poder, e eu… o menino de dez anos que só queria cantar, escrever versos e comer doce. Éramos três completamente diferentes. Um filho do céu, um filho da escuridão, um filho do sol.

Naquela noite, ninguém nos deu missão oficial. Ninguém nos mandou ir ao Mar de Monstros. O Oráculo não falou com nenhum de nós. Mas na hora em que o pinheiro de Tália piscou de novo, quase apagando a barreira, nós três entendemos a mesma coisa sem precisar falar nada:

Enquanto Clarisse, Percy, Annabeth e Tyson iam cruzar o mar mais perigoso do mundo, nós tínhamos que ficar aqui. Defender o acampamento dos buracos na barreira. Cuidar do que estava morrendo. E descobrir quem tinha envenenado a árvore, antes que o mal entrasse de vez e ninguém mais pudesse fazer nada.

Guardei a flauta de ouro de volta no cinto, abri o caderninho e escrevi rápido, com a luz da lua:

Mar de Monstros. Velocino de Ouro. Trovão, sombra e sol. Se der errado… pelo menos a gente cantou, lutou e ficou junto até o fim.

Do lado de fora, o vento forte soprou de uma vez, como se Zeus estivesse ouvindo. Muito longe, dentro das sombras das árvores, uma figura de capuz preto parou por uns segundos e depois sumiu. Davi franziu o cenho, mas não disse nada. Ele só sentiu. E o que ele sentiu… não foi nada bom.

Eu já te disse que ser semideus não é aventura o tempo todo?

Pois é. O pior ainda nem tinha começado.

Capítulo 3 — A Sombra Que Escolheu A Noite

Dois dias se passaram desde a noite em que o pinheiro de Tália começou a morrer. Nós três — Henrique, Davi e eu — não dormimos direito quase nada. Ficávamos revezando na beira da barreira, fechando buracos pequenos, afastando harpias e esqueletos que apareciam do nada, sempre com a sensação de que alguém nos observava de dentro das árvores. Davi continuava quieto, calmo, sempre de preto, a sombra andando um segundo antes dele, o cachorro albino Ósiris colado na sua perna sem fazer som nenhum. Ele ainda tossia baixo toda vez que usava poder, ainda segurava a cabeça de dor, e nós dois ainda ajudávamos ele a se firmar de pé. Nós éramos o trovão, a sombra e o sol. Ou pelo menos… eu achávamos que éramos.

Foi na tarde do terceiro dia que encontramos Percy Jackson, Grover e Clarisse La Rue escondidos atrás de um rochedo, com um mapa velho amassado na mão. Annabeth tinha ido até a praia buscar cordas e água, e eles planejavam pegar um barco e ir escondidos pro Mar de Monstros buscar o Velocino de Ouro, antes que Clarisse partisse na missão oficial e antes que o pinheiro morresse de vez.

— Tem alguém ajudando o mal de dentro do acampamento — disse Davi, com aquela voz baixa que faz todo mundo calar a boca, passando o polegar devagar nos outros dedos, contando, como sempre fazia. — Eu sinto almas pesadas. Vozes. Se entrarmos na Caverna dos Ecos Perdidos, ali na beira da floresta, a gente ouve tudo o que eles falam. É o único lugar onde a magia não esconde segredos.

Nós fomos. Todos juntos: Antônio, Henrique, Davi, Percy, Clarisse e Grover. A caverna era funda, fria, o chão úmido, e o ar parecia engolir os sons pouco a pouco — o que já me deixou com o coração apertado, porque silêncio é uma das coisas que mais tenho medo. Meu arco de madeira clara começou a esquentar nas costas e brilhar dourado por baixo da camisa, mas eu achei que era só o lugar mesmo.

Davi foi na frente, guiando, como se conhecesse cada pedra de cor.

— É aqui — sussurrou ele, parando bem no centro. — Agora… esperem.

Foi quando ouvimos um CLAC seco e forte, vindo da entrada.

Paredes de rocha lisa e escura desceram do teto de uma vez só, fechando todas as saídas. Nós estávamos presos.

Clarisse bateu com a lança na pedra com toda a força, não fez nem um arranhão. Percy puxou a espada Riptide, bateu, cortou, nada. Grover começou a tremer, os chifres dele tremendo junto. Henrique ergueu as mãos pro alto, rosnando de esforço, chamando um raio pra quebrar tudo — mas só saiu uma fagulha azul minúscula, que morreu no ar na mesma hora. Ele cambaleou pra trás, tonto, sangue saindo devagar do nariz.

— A magia aqui abafa poder — explicou Davi, encostado na parede, muito calmo, calmo demais. — Nenhuma força funciona direito.

Eu peguei a Flauta Dourada do cinto, assoprei forte, fiz a melodia mais luminosa que eu sabia. Uma luz dourada fraquinha apareceu, iluminou só uns três metros ao redor, e morreu. Meus olhos brilharam ouro, mas doeu muito, como se tivessem jogado areia dentro deles.

— Não adianta — falou uma voz doce, familiar, vindo lá de cima, de uma abertura pequena que ninguém tinha visto.

Um rapaz alto, cabelo loiro na altura dos ombros, cicatriz fina na bochecha, espada de metade bronze metade aço na cintura, pulou devagar até o chão da caverna. A luz fraca brilhou na lâmina.

Luke Castellan.

Percy deu um passo à frente, os punhos cerrados.

— Você — rosnou. — Foi você quem envenenou o pinheiro.

Luke sorriu, aquele sorriso que fazia todo mundo confiar nele, antes de tudo. Ele não olhou nem pra Percy, nem pra Clarisse, nem pra ninguém. Olhou direto pra Davi.

— Demorou mais do que combinamos, Xerox — disse Luke, calmamente. — Mas funcionou. Trouxe todos os peixes importantes de uma vez só.

Meu estômago deu um nó gelado.

Henrique parou de limpar o sangue do nariz. Ficou parado, duro como pedra.

— O que ele está falando, Davi? — perguntou ele, a voz saindo quebrada.

Davi se afastou devagar da parede. Foi andando devagar até parar ao lado de Luke. A capa preta dele se mexeu sozinha, igual fumaça brava. As veias grossas e roxas apareceram fortes no pescoço e nos braços. E ele sorriu — aquele sorriso pequeno, frio, que ele só fazia quando alguém mentia. Dessa vez… ele estava sorrindo pra nós.

— Eu achei que vocês tinham percebido há tempo — disse ele, e o tom dele continuava baixo, calmo, cortante como navalha. — Fui eu que espalhei o veneno de limão podre pelas raízes do pinheiro, pouco a pouco, durante três noites seguidas. Fui eu que abri os primeiros buracos na barreira. Fui eu que sugeri virmos pra essa caverna. Essa armadilha… foi minha ideia.

O silêncio que ficou depois foi pior do que qualquer monstro.

— Nós três… — Henrique engoliu em seco, os olhos azuis começaram a brilhar de raiva e de dor ao mesmo tempo, faíscas pequenas saindo do cabelo preto bagunçado. — Nós fizemos um acordo. Nós íamos defender o acampamento.

— O acordo era eu sobreviver — cortou Davi, duro. Ele passou o dedo nos dedos da mão esquerda, contando devagar, uma mania que agora parecia horrível de ver. — Vocês nunca entenderam. Os deuses me jogaram aqui aos dez anos, sozinho. Hades nunca mandou um sinal, nunca falou comigo, nunca me deu nada. Todo mundo aqui me olha e já pensa: é do Submundo, é perigoso, é um erro. Quando eu tentei dar ordem pras almas mais fracas, vocês quase me expulsaram. Chamaram de monstro.

Ele abriu a mão direita. Luke colocou ali um punhal pequeno, feito de pedra preta, com runas roxas brilhando na lâmina. No momento em que Davi tocou, a sombra dele no chão cresceu, cobrindo quase metade da caverna.

— E o pior de tudo — continuou ele, e pela primeira vez a voz tremeu, mostrando o ferimento de verdade que ele guardava há anos —, todo mundo morre. E depois… reencarna. Esquece tudo. Deixa de ser quem é. Vira só mais uma alma andando em círculos, sem nome, sem rosto, sem poder. Esse é o meu maior medo. Pior que o Tártaro.

Luke bateu palmas devagar, satisfeito.

— E eu sou o único que pode acabar com isso — completou ele, doce como veneno. — Quando Cronos governar de novo, não existe mais ciclo de vida e morte. Ninguém nunca mais perde a memória. Ninguém nunca mais é só um número. Davi não vai ser mais o menino abandonado. Ele vai ser o Senhor das Sombras de verdade. Poder sem dor. Sem limites. Sem ninguém pra julgar.

— E você acreditou? — gritei, dando um passo à frente, a flauta apertada forte na mão, os olhos ardendo. Meu peito doía tanto que eu quase não conseguia respirar. Nós tínhamos compartilhado pão, frio, cansaço. Nós tínhamos lutado lado a lado. — Luke mente! Ele só está usando você!

Davi ergueu o punhal negro no ar.

— Os deuses também usam todo mundo — disse ele, gelado. — Pelo menos ele não finge que me ama.

Bateu a ponta da arma uma vez só no chão de pedra.

Sombras grossas, pesadas, frias como gelo, saíram de todas as paredes e enrolaram forte nos pulsos e tornozelos de todo mundo: eu, Henrique, Percy, Clarisse, Grover. Ficamos todos paralisados, grudados na rocha, sem conseguir mexer nem um dedo. Eu tentei tocar a flauta, não consegui nem levantar o braço. Henrique rosnou, tentou fazer força, faíscas azuis pulavam no ar mas não chegavam a lugar nenhum. Clarisse xingava tudo o que é nome, mas também não saía do lugar.

Eu vi o quanto Davi tremia por baixo da capa preta. Vi as veias roxas ficarem quase pretas no pescoço. Vi ele fechar os olhos com força, tossindo baixo, suor frio escorrendo pela testa pálida. Ele ainda tinha limites. Aquilo estava doendo horrivelmente, ele não aguentaria segurar a gente por mais de uns poucos minutos, e ele sabia. Mas ele não parou.

— Eu não vou matar ninguém hoje — disse Davi, e a voz dele estava tão baixa que quase não ouvimos. — Mas também não vou deixar ninguém atrapalhar. O Velocino vai ser pego… e quando voltar, além de curar o pinheiro, ele vai fortalecer o corpo que Cronos está preparando. Tudo vai mudar.

— Você é um covarde! — gritou Henrique, com lágrimas de raiva nos olhos. — Eu pensei que fôssemos amigos!

Davi virou o rosto devagar pra ele. Por um décimo de segundo… juro por Apolo, por tudo o que é sagrado… os olhos negros dele brilharam úmidos. A sombra no chão vacilou, ficou fraca por um instante. Pareceu que ele ia dizer alguma coisa, ia mudar de ideia. Mas então apertou mais forte o punhal na mão e endureceu de novo.

— Amizade não me salva de deixar de existir — sussurrou.

Luke bateu no ombro dele. Dois laqueus — monstros com corpo de homem e cabeça de cavalo — saíram das sombras da entrada, prontos pra guardar a caverna.

— Vamos — disse Luke. — Ainda temos muito o que fazer antes que eles consigam sair daqui.

Os dois começaram a andar pra saída, com Ósiris andando devagar atrás do dono, sem latir, sem rosnar, só olhando pra trás pra nós com aqueles olhos vermelhos claros. Quando já estavam quase desaparecendo na escuridão, Davi parou. Virou a cabeça uma última vez. Olhou pra Henrique, que tremia todo de ódio e tristeza. Olhou pra mim, com a flauta ainda na mão, paralisado, com o coração partido.

— Vocês vão dizer que eu escolhi o mal — murmurou, tão baixo que pareceu só um vento. — Eu só escolhi não desaparecer.

E sumiu.

No mesmo instante, as sombras que nos prendiam desmancharam de vez. Davi não tinha força pra manter mais nada. Caímos todos de joelhos no chão úmido, ofegantes, como se tivéssemos corrido uma maratona carregando pedras.

— ELE NÃO VAI SAIR IMPUNE — rosnou Clarisse, batendo a lança com força na pedra.

Percy estava pálido, olhando pro nada, pensativo. Ele sabia melhor do que ninguém o quanto Luke sabia entrar na cabeça das pessoas. Grover estava tremendo tanto que mal conseguia ficar de pé. Henrique ficou de costas pra todos, os ombros tremendo baixinho, sem dizer uma palavra. Faíscas azuis minúsculas ainda saiam do seu cabelo, fracas, tristes.

Eu abri o meu caderninho amarelo, com a mão ainda tremendo muito, e escrevi com a luz fraca que ainda restava nos meus olhos:

A pior armadilha não é feita de pedras. É quando você entrega o seu coração, a sua confiança e o seu lado mais fraco pra quem você acha que é família… e essa pessoa usa TUDO isso contra você, de propósito. Davi não foi levado. Ele escolheu ir. E a sombra que antes nos protegia… agora é a coisa mais perigosa que temos no caminho.

Foi quando ouvimos um barulho enorme de pedra quebrando, vindo da entrada. Um pedaço gigante da parede caiu pra fora, com um estrondo que ecoou por toda a caverna. Lá fora, de pé, com um pedaço de rocha enorme na mão, sorrindo desajeitado, estava Tyson, o ciclope irmão de Percy.

— ACHEI! — gritou ele, feliz. — Tyson ouviu amigos gritando! Quebrou a parede!

Nós saímos devagar, cambaleando, para a luz do entardecer. Lá longe, mar adentro, já víamos a vela pequena de um barco sumindo devagar na direção do Mar de Monstros. Sabíamos quem ia dentro. E sabíamos também, com toda a certeza do mundo, que daquele momento em diante… a nossa missão não era mais só buscar o Velocino e salvar Tália.

Era também impedir que Davi Queiroz, o menino que um dia ficou do nosso lado, entregasse tudo o que existe de luz e de vida nas mãos do Titã mais cruel que já viveu.

E o pior de tudo: ele conhecia cada um dos nossos medos, cada um dos nossos limites, cada fraqueza que tínhamos. E ninguém sabia melhor do que ele… exatamente onde doía mais.

Capítulo 4 — O Barco Que Seguiu A Noite

Saímos cambaleando da Caverna dos Ecos Perdidos com o gosto de ferro e de traição na boca. Tyson ainda batia palmas feliz por ter quebrado a parede de pedra, mas nenhum de nós tinha forças pra sorrir. Henrique andava em silêncio, de cabeça baixa, faíscas azuis minúsculas e tristes saindo do cabelo de vez em quando. Eu apertava a Flauta Dourada no cinto como se ela fosse a única coisa real que restava. Lá longe, o barco pequeno de pesca de Percy já era só um pontinho branco sumindo na linha onde o mar encontrava o céu, indo direto pro Mar de Monstros — o lugar que os mortais chamam de Triângulo das Bermudas.

— Nós vamos também — disse Henrique de repente, parando e virando pra nós. Os olhos dele estavam vermelhos, mas firmes. — Não posso deixar a Tália morrer. E não posso deixar que o Davi pense que pode fazer tudo isso e ninguém vai atrás.

Não precisou de mais nada. Pegamos mantimentos, cordas, flechas de bronze celestial, meu caderninho amarelo e fomos até a ponta da praia, onde havia um veleiro pequeno e velho, pintado de branco desbotado, que pertencia a um campista mais velho que quase nunca usava. Não pedimos licença. Naquele momento, pareceu a coisa mais certa do mundo.

Enquanto içávamos a vela, com o vento forte que Henrique conseguiu chamar — e que já o deixou suando frio e com sangue escorrendo devagar pelo nariz, como sempre acontece quando ele se esforça —, contei em voz alta o que eu tinha juntado aos poucos sobre o Davi, a história que ele nunca quis contar direito a ninguém, mas que acabou escapando em noites de guarda, quando achava que ninguém ouvia:

Ele tinha só dez anos quando chegou aqui. Sua mãe era uma mulher que trabalhava em cemitérios, que falava com os mortos como se fossem amigos, e Hades se aproximou dela exatamente por isso. Quando Davi tinha sete anos, monstros invadiram a casa deles. Ela morreu o escondendo dentro de um caixão vazio, e ele ficou três dias sozinho no escuro, ouvindo tudo, sem poder fazer nada. Ninguém veio buscar. Ninguém avisou. O próprio Hades nunca mandou um sinal, nunca apareceu em sonho, nunca disse uma única palavra. Foi um sátiro que o achou por acaso, quase morto de fome e frio, e o trouxe até o acampamento.

Desde o primeiro dia, todos olharam e já julgaram: filho de Hades, é mau, é perigoso, tem que ficar de lado. Quando ele descobriu que podia ouvir vozes de almas, controlar sombras, ver um pouco do fim das pessoas… todo mundo ficou com mais medo ainda. Quando tentou libertar algumas almas inocentes presas num lugar pequeno de punição, não por maldade, mas porque achou injusto… quase o expulsaram. Chamaram ele de criminoso. E o pior de tudo: ele descobriu cedo, lendo tábuas antigas no chalé, que toda alma, sem exceção, mais cedo ou mais tarde reencarna — e esquece TUDO. Nome, rosto, dores, amores, tudo some. Para ele, isso não era vida. Era um ciclo de prisão eterna. E Luke foi o único em cinco anos que olhou nos olhos dele e disse: eu posso acabar com isso.

Ele não virou traidor de um dia pro outro. Foi sendo construído, aos poucos, por todo abandono, todo silêncio, todo medo que ninguém nunca quis ouvir.

O mar ficou calado por uns minutos. Ninguém falou nada. Não era desculpa. Nunca seria. Mas agora pelo menos entendíamos o buraco enorme que existia dentro dele, e que Luke encheu de mentiras doces como veneno.

 

A viagem foi exatamente como Quíron sempre descreveu: horrível. Passamos por Caríbdis, o redemoinho gigante que engole navios inteiros e cospe tudo de novo horas depois — Henrique ficou de pé na proa por quase uma hora, braços erguidos, rosto tenso, veias saltadas, soprando ventos fortes o suficiente pra desviar o barco por um triz, e no final caiu desacordado por quase duas horas de tão fraco que ficou. Depois vieram Cila, com seis cabeças de cobra e dentes de aço, que quase arrancou o próprio mastro do barco — eu toquei a Flauta Dourada tão forte que meus ouvidos sangraram, notas virando raios de sol puro que queimavam a pele dela, e ela gritou e recuou pra dentro da água.

O pior, porém, foi a Ilha das Sereias. Elas cantam exatamente o que o seu coração mais quer no mundo, e você vai andando direto pra morte sorrindo. Percy já tinha passado por isso uma vez, Annabeth também. Mas dessa vez foi diferente: elas cantaram PRA MIM.

Vem, Antônio… nunca mais escuridão, nunca mais silêncio… todo mundo que você ama sempre vivo, sempre bem… você nunca mais vai falhar com ninguém…

Eu já estava de pé, andando devagar pra borda, sem perceber nada, caderno caindo no chão, olhos vidrados. Foi só quando senti o choque fraco e elétrico de Henrique me batendo forte no ombro que acordei. Então virei a flauta pro lado delas e toquei a melodia mais alta, mais clara e mais verdadeira que já saiu de mim — a música do sol que existe DENTRO da gente, não a que elas fingem dar. Minhas pupilas brilharam ouro tão forte que iluminou todo o mar ao redor, e as sereias gritaram e se jogaram de volta nas pedras, porque luz verdadeira anula mentira. Foi a primeira vez que consegui vencer elas só com música.

Quando finalmente chegamos na Ilha de Polifemo, o cheiro de carne queimada e de ovelha já doía no nariz. Lá dentro da caverna enorme do ciclope, ouvimos as vozes: Clarisse amarrada numa estaca, Grover tremendo disfarçado de ovelha fêmea, Annabeth com a cabeça sangrando, Tyson acorrentado na parede. O Velocino de Ouro — o velo de carneiro dourado que cura TUDO — estava pendurado bem no alto, na entrada da caverna, brilhando mais forte que o próprio sol, protegido por magia antiga.

— Eu e o Antônio vamos — sussurrou Percy, apertando Riptide na mão. — Você fica aqui, Henrique, e na hora que gritarmos, você traz o máximo de vento e trovão que conseguir pra distrair.

Entramos rastejando pela escuridão. Polifemo era gigante, com um olho só no meio da testa, comia ovelhas inteiras de uma vez e xingava todo mundo de “meio‑sangue inútil”. Enquanto Percy fazia barulho, corria de um lado pro outro e gritava provocando, eu me escondi atrás de uma pedra grande, coloquei a flauta na boca e toquei uma melodia calma, devagar, sonífera, que meu pai Apolo inventou há milênios pra acalmar feras. A luz dourada saiu devagar dos meus olhos, envolveu todo o lugar, e o ciclope começou a bocejar, as pernas bambas, o olho pesado.

Foi a nossa janela.

Corremos os dois juntos, Percy e Antônio, pulamos na saliência de pedra, agarramos o Velocino de Ouro com as duas mãos ao mesmo tempo e puxamos com toda a força do mundo. Ele saiu de uma vez, quente, brilhante, pesado como se carregasse vida dentro do próprio fio de ouro. Na mesma hora, Polifemo berrou de raiva e acordou de vez.

— PEGUEM ELES!

Corremos pra fora, Henrique gritou e um raio azul rachou o céu bem na frente do pé do monstro, fazendo ele tropeçar. Tyson quebrou as correntes com as próprias mãos como se fossem linha de costurar. Lutamos, corremos, pulamos no barco e saímos em disparada, o Velocino enrolado nos meus braços, batendo forte o coração.

Na volta, o navio de Luke apareceu do nada, cheio de monstros. Luke gritou que Cronos já estava despertando, e do lado dele, parado na sombra do mastro, todo de preto, sombra andando na frente do corpo, cão albino ao lado, estava Davi. Ele não gritou. Não sorriu. Só ficou olhando pra mim e pra Henrique, com uma expressão que não dava pra dizer se era ódio, ou pena, ou saudade do que a gente já foi. Ele ergueu o punhal negro uma vez, mas não mandou nenhuma sombra pra nos matar. Apenas baixou a cabeça e virou as costas. Tyson quebrou o casco do navio deles com um pedaço de madeira enorme, e nós conseguimos fugir.

Como no livro, Clarisse seguiu sozinha de avião com o Velocino, pra chegar mais rápido, e nós voltamos por outro caminho, mais demorado, cheio de perigos. Quando finalmente pusemos os pés de novo na colina do Acampamento Meio‑Sangue, o pinheiro de Tália já estava quase todo marrom, quebradiço, quase morto. A barreira mágica quase não existia mais.

Clarisse chegou segundos antes de nós. Ela correu, colocou o Velocino de Ouro bem no chão, junto às raízes da árvore.

O brilho dourado explodiu.

Verde forte e vivo subiu pela casca num instante. Folhas novas brotaram aos milhares. O ar ficou doce, limpo, cheio de vida. A barreira brilhou ao redor de todo o acampamento, mais forte, mais alta, mais perfeita do que nunca foi. E então… a casca do pinheiro se abriu devagar, como uma porta.

Uma menina de cabelo preto curto, olhos azul‑celeste iguais aos de Henrique, jaqueta de couro e pulseiras de espinhos caiu devagar no chão, respirando de novo. Tália Grace estava viva.

Henrique parou duro a três metros dela. A boca dele tremeu. Faíscas grandes e brilhantes rodearam o corpo todo dele, sem machucar ninguém, só alegria pura. Ela levantou o rosto, olhou nos olhos dele e entendeu tudo sem precisar de palavras. Ele correu e os dois se abraçaram forte, chorando, irmãos que nunca tinham se visto, mas que se conheciam desde sempre. Foi a coisa mais bonita que eu já vi na minha vida.

Poucos dias depois, Luke apareceu de novo na praia, escondido na névoa. Ele lutou com Percy, quase o matou, e confessou tudo: foi ele quem envenenou a árvore, foi ele quem usou Davi, foi ele quem está acordando Cronos pouco a pouco. E de novo, na borda da floresta, vi a silhueta preta de Davi parado na sombra. Dessa vez ele veio até mais perto, o suficiente pra ouvir:

— Eu não vou parar — disse ele, baixo, só pra nós três. — Mas quando tudo acabar… eu espero que vocês entendam. Eu só não queria deixar de ser eu.

Depois virou e desapareceu de vez, engolido pela noite.

No final daquele verão, ficamos todos sentados na colina, olhando o sol se pondo em chamas sobre o mar. Tália estava de volta, o acampamento estava salvo, o Velocino brilhava tranquilo no galho mais alto do pinheiro. Mas ninguém estava completamente feliz. Porque nós sabíamos, com toda a certeza do coração:

O Velocino tinha curado a árvore. Tinha trazido Tália de volta. Mas também tinha dado força suficiente ao corpo em que Cronos estava se reconstruindo. A guerra não estava chegando. A guerra já tinha começado.

E a pior parte de tudo não eram os monstros, nem os Titãs, nem a morte em si. Era saber que, do lado de lá, na escuridão, havia um menino de quinze anos, sozinho, assustado e cheio de feridas que ninguém nunca quis curar… e que ele poderia ser o motivo de tudo ir por água abaixo.

Fim

✦.Continua!✦

 

Thoughts

  • religioes_lado_a_lado

    Gostei de como o Apolo existe de longe pro Antônio mas Hades abandona o Davi completamente. Essas diferenças de presença divina mudam tudo, né?

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  • mais_valia_pra_quem

    A traição do Davi faz sentido porque Luke ofereceu poder sem condições. Os outros têm medo mas ainda acreditam em algo, Davi só acreditava em deixar de ser ninguém, e ninguém oferecia isso exceto Luke.

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