O Pedido
No trem blindado vindo de Oplan, Alac Bilac — general da nação de Oplan — nunca havia perdido uma única guerra. Seguia para a torre central da cidade de Ceres acompanhado por sua comissão de diplomatas e assessoras.
Elas eram brancas, loiras, de olhos azuis. Vestiam-se todas de branco, como secretárias. O corte das roupas era o mesmo, o passo era o mesmo, o silêncio também.
Dentro do vagão, não havia conversa. Apenas o som metálico do trem rasgando o chão.
Alac se considerava superior. Ninguém ali era digno de lhe dirigir a palavra. Sua voz raramente era ouvida — e quando era, encerrava assuntos.
Os membros da comitiva mantinham os olhos baixos, recusando-se a olhar pelas janelas blindadas. Do lado de fora, a cidade de Ceres passava intacta, viva, funcional.
Campos verdes se estendiam sem interrupção: milho, trigo, soja. Fazendas de gado, granjas, suínos.
Depois, já mais próximo da cidade, surgiam arenas de lazer com tetos de vidro UV, polarizados, retendo o calor. Campos gramados para jogos, esportes aquáticos, cidadãos de Ceres usufruindo de tudo aquilo como se fosse apenas… normal.
E fora de Ceres, o mundo era um desastre.
A nação supremacista de Oplan era rica, mas não oferecia aquelas infraestruturas à própria população. Sua ideologia defendia os mais brancos como superiores — e ali, diante deles, pessoas de cabelos negros, ruivos e castanhos se misturavam a loiros. Tons diferentes de peles brancas conviviam sem distinção.
Alac levou o lenço ao nariz. Sentiu nojo.
Ao chegar à torre central, o elevador panorâmico iniciou a subida. A cidade se afastava lentamente sob seus pés, revelando sua ordem, sua abundância, sua insolente estabilidade.
Ao longe, no céu diurno, uma estrela brilhava com força.
Não era uma estrela.
Era a estação espacial CERES II.
Radiante. Imóvel.
A prova visível do poder da Grande Mãe.
Ao adentrar o alto da torre, pelas janelas panorâmicas, a cidade de Ceres seguia funcionando.
Trens ao longe. Campos vivos. Pessoas em movimento. Nada parava.
Mãe Ceres o aguardava sem cerimônias.
À frente dela, um pequeno altar havia sido preparado para Alac Bilac. O general mantinha o rosto rígido, o queixo largo, os olhos azuis profundos. Vestia roupas escuras com detalhes vermelhos, capa de chefe de Estado, coturnos negros com partes metálicas expostas. Imóvel, como um monumento à própria autoridade.
Suas acompanhantes mantinham a cabeça baixa. Nenhuma ousava encarar Mãe Ceres.
A Grande Mãe, igualmente imóvel, ergueu a mão com um gesto simples em direção a Eos.
Chamava Koee — não para ordenar, mas para ver se ela aceitava a união e os acordos já traçados.
Mãe Ceres sabia o que iria acontecer.
Queria apenas vê-lo derrotado diante dela.
Eos percorreu o corredor até os aposentos de Koee. A porta, como sempre, estava aberta.
No quarto, Eos a viu — e estacou.
Koee estava ali como uma deusa caída à terra. Vestia um longo vestido cinza-escuro, carregado de detalhes cerimoniais, descendo até o chão e cobrindo os pés. A saia roçava o piso como se flutuasse. Os cabelos, presos em uma trança para trás, exibiam uma beleza exótica e precisa. A maquiagem realçava seus olhos vermelhos.
Estonteante.
E, ainda assim, séria.
Koee havia sido informada sobre os protocolos do pedido. Sabia que ela escolhia.
Sentia o peso da decisão.
Estava meio perdida — mas sabia qual era sua escolha.
Koee saiu do quarto auxiliada por secretárias locais. Caminhou pelos corredores abertos, ladeados por janelas que revelavam a cidade viva de Ceres. O coração batia contido. Conhecia o rosto de Alac Bilac por imagens, mas não sabia como reagiria diante de seus olhos.
Ao chegar ao salão principal, Koee posicionou-se no altar, ao lado do general.
Alac Bilac a observou encantado — não por amor, mas pela ideia de perfeição que projetava nela. Via em Koee a “branca perfeita”. Imaginava filhos ainda mais brancos, em nome de sua ideologia supremacista.
As secretárias de Oplan aproximaram-se e ofereceram joias, pedras preciosas, ouro.
Mãe Ceres permanecia distante. Silenciosa.
Então Alac Bilac falou.
Falou apenas para Koee.
Ninguém mais ouviu.
Era a primeira vez que o general dirigia mais de duas palavras a alguém. Nem mesmo suas acompanhantes conheciam sua voz. Elas observavam Koee com desprezo velado.
Foram cinco minutos — longos como horas.
Quando Alac tocou a mão de Koee e se ajoelhou, colocando o anel, o salão mergulhou num silêncio absoluto.
Koee sentiu o peso de tudo:
da cidade,
do pedido,
do olhar invejoso das secretárias.
Então veio o cheiro.
O cheiro do general.
Um nojo profundo, repugnante, tomou seu corpo. O estômago se revirou como se quisesse trocar de pele. Como se a mão tocada precisasse ser arrancada. Não era apenas o toque — era o que ele havia dito. O que ele representava.
Koee encarou Alac Bilac.
Assustada, levou as mãos à boca, segurando a ânsia de vomitar.
Não suportou.
Ergueu a saia com força e saiu correndo pelo salão, em prantos, fugindo daquele homem. Correu pelos corredores até desaparecer em seus aposentos.
Mãe Ceres sabia.
Sabia da derrota de Alac Bilac.
O homem que nunca perdera uma guerra havia sido vencido ali — duas vezes — por Mãe Ceres.
Sem armas.
Sem sangue.
Sem uma única vida perdida.
O salão permanecia estupefato.
Mãe Ceres, soberana, permanecia imóvel.
Ao seu redor, pelas janelas abertas, a cidade de Ceres continuava a funcionar.
Passadas algumas horas do constrangimento na torre, Koee permaneceu em seu quarto com as portas fechadas.
Sozinha.
Rasgou a própria roupa com violência. Pela primeira vez, olhou para si com repulsa. Não era vergonha — era nojo. Um nojo que não vinha da mente, mas da biologia. Uma ânsia profunda, visceral, daquele homem e do cheiro indescritível que seu corpo tentava esquecer.
Correu para o banheiro e se dobrou sobre o vaso sanitário. Vomitou tudo o que podia. Tudo o que o corpo sentia.
Gritou de ódio — daquele homem, daquele jeito, daquelas palavras que só ela havia ouvido.
No banho, esfregou a pele branca com força, como se pudesse trocá-la. Como se pudesse arrancar de si qualquer vestígio dele. Gritava em desespero. Chorava de uma dor sem feridas, uma dor sem nome. O corpo reagia de formas que ela não compreendia.
Os gritos atravessaram o quarto, os corredores, o salão central.
O general ouviu.
E partiu em silêncio para Oplan.
A porta do quarto foi violada.
Eos entrou primeiro.
Encontrou Koee em colapso. Desesperada, esfregava a própria pele até arrancar sangue, que escorria pelo ralo. Sangue sagrado, misturado à água quente. Paramedicos tentavam contê-la, mas Koee era extremamente forte. Algo em seu subconsciente havia se rompido — como se tivesse traído a si mesma, sua natureza etérea, transformando o toque daquele homem em algo asqueroso e irreversível.
— Koee… Koee, sou eu. Eos. Se acalme…
Koee, coberta de sangue, apertou a garganta de Eos com força. Não por ódio — por pânico.
Eos suplicava por ar.
Os paramédicos a seguraram com dificuldade. Koee lutava como um animal acuado. Os olhos vermelhos arregalados, selvagens. Nunca havia reagido assim. O corpo parecia considerar tudo inimigo.
Foi sedada.
Aos poucos, cedeu.
Eos caiu ao chão, respirando com dificuldade.
Koee, entorpecida, olhava ao redor, vendo todos como ameaças. A deusa enlouquecia. O corpo não obedecia à mente. Exausta, afundava sob o efeito dos sedativos, murmurando em delírio:
— O oito… o oito… o oito…
Mãe Ceres ouviu ao longe.
— O oito…
Ela sabia quem era.
O número oito.
O jogador de flagball.
Um filho de Ceres.
Theo.