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Ninguém é triste dançando

RobsonNovaes
Pensamento

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sonoAtrasado

Daquela turma da primeira aula de sertanejo, ainda sobrou alguém que dança com você hoje no samba-rock?

Daquela turma da primeira aula de sertanejo, ainda sobrou alguém que dança com você hoje no samba-rock?

Conteúdo da publicação

Quantas vezes na vida você consegue apontar um momento específico e dizer: “Naquele dia, a minha vida mudou”?

Li essa pergunta uma vez e ela nunca mais saiu da minha cabeça. Hoje quero te contar sobre um desses dias.

O ano era 2014, e a minha vida estava passando por uma mudança radical. Eu tinha acabado de sair de um relacionamento de dez anos, daqueles que não terminam por falta de sentimento, mas pela certeza de que não vão dar certo. Bem que dizem que o amor não é tudo.

Mas o ponto aqui é o vazio que fica.

Um relacionamento longo vai ocupando espaços que, às vezes, a gente nem percebe. Os programas de fim de semana, os amigos em comum, os hábitos, os planos. Aos poucos, duas vidas vão construindo uma rotina compartilhada, e a gente quase esquece como era viver fora dela.

E não envolve só duas pessoas. Envolve famílias inteiras, histórias, costumes e tudo aquilo que se constrói ao longo dos anos.

Quando algo assim termina, não é só uma pessoa que deixa de estar presente. É uma vida inteira que precisa ser reorganizada.

Depois sobra um rombo gigante, e a pergunta que martela na cabeça de quem passa por isso é uma só: como preencher esse buraco?

Outro desafio daquela época era que meus amigos de longa data tinham, meio que naturalmente, seguido seus caminhos. A gente se via de tempos em tempos, mas confesso que, por culpa minha, fui me afastando ao longo dos anos. Vivíamos uma vida meio isolada, por motivos que não cabem neste relato.

Eu precisava encontrar alguma coisa nova. Conhecer gente, sair de casa, ocupar a cabeça e, quem sabe, descobrir uma versão de mim que já não lembrava muito bem como era viver fora daquela rotina.

Mas, antes de continuar, deixa eu dar alguns passos para trás. Entra comigo na maquininha do tempo.

Rebobinando a fita: fim dos anos 80

Eu nasci em 1983 e não conheci meu pai. Minha mãe e toda a família vieram do Piauí em busca de uma vida melhor.

(Abro um parêntese: vários pedaços desta história dariam, tranquilamente, outros textos. Mas isso fica pra depois.)

A família, naquela época, era muito festeira. Foi uma delícia crescer correndo no quintal com os primos enquanto os adultos se divertiam com aquela alegria que só nordestino tem: risada alta, bebida e muito forró, muitas vezes ao vivo, com sanfona, zabumba e triângulo.

Sempre chegava parente de outros cantos de São Paulo, e só de lembrar eu já sinto os cheiros, os gostos e as sensações daqueles dias.

Se você cresceu numa família assim, sabe exatamente do que eu tô falando.

Foi ali meu primeiro contato com a dança. O dois pra lá, dois pra cá faz parte da formação de muita gente que veio do Norte e do Nordeste, ou que é filho de quem veio.

Enquanto isso, outros ritmos iam tomando conta do país. Quem não lembra da febre da lambada, com “Adocica”, do Beto Barbosa?

Anos 90

Mais pra frente veio a explosão do pagode, com Raça Negra, Negritude Júnior, Soweto, Katinguelê e tantos outros. Esse período, que hoje a gente chama de pagode 90, criou todo um estilo.

Lembro que, aqui nas periferias de São Paulo, onde nasci e cresci, a moda entre a molecada era raspar a cabeça, colocar os óculos escuros na testa e fazer as coreografias ao som de Katinguelê.

Se você não fez, com certeza conhece alguém que fez kkk.

Na Bahia, o pagode baiano corria em paralelo, na onda do axé. O Gera Samba, que depois virou É o Tchan, estourou com “Segura o Tchan”, e a Companhia do Pagode, com “Na Boquinha da Garrafa”.

Olhando para trás, acho curioso como certas críticas às letras e coreografias do funk parecem ignorar que muitas dessas características já estavam presentes em sucessos populares de outras épocas. O pagode e o axé dos anos 90 também tinham letras de duplo sentido e coreografias bastante sexualizadas.

E o detalhe: tudo isso passava na TV aberta, em horário nobre, com a família inteira reunida na sala.

Aliás, enquanto escrevo, outra coisa me chama a atenção: naquela época, quase toda casa tinha uma TV só, e sempre tinha aquela pessoa que era dona do controle remoto e decidia o que todo mundo ia assistir rs.

Eram muito menos opções do que hoje. De certa forma, isso fazia com que a gente compartilhasse mais coisas: os programas, as músicas, as danças e até as conversas que surgiam depois.

Mas voltando à dança, que, embora não pareça, é o foco deste texto kkk.

Nessa mesma época, tinha uma subcultura que fazia meus olhos brilharem: os bailes black da periferia de São Paulo, onde rolava o samba-rock.

Pra quem não sabe, é um estilo associado à cultura dos bailes paulistanos, que ganhou força entre as décadas de 60 e 70 e mistura elementos do samba com influências do rock e do soul americanos.

Ele combinava perfeitamente com os passinhos e as coreografias da black music e do charme, que a geração anterior à minha, meus primos mais velhos e os amigos deles, dominava como ninguém.

Eu? Só observava, com muita admiração e zero habilidade kkk.

Deu pra perceber que cada fase da minha vida teve sua trilha sonora, né? E a dança sempre esteve ligada a momentos felizes.

Tem um ditado que diz que ninguém é triste comendo coxinha. Eu tomo a liberdade de adaptar: ninguém é triste dançando.

De volta a 2014

Agora a gente avança a fita de volta pra 2014, com aquele buraco enorme pra preencher.

Até então, acho que eu não conhecia ninguém que fizesse aula de dança. Se não me engano, foi numa rede social que apareceu o anúncio de uma escola bem no caminho entre o trabalho e a minha casa.

Na minha cabeça, era o momento ideal pra me aventurar e conhecer gente nova. Eu precisava, de algum jeito, socializar.

Na época, eu fazia um curso umas três vezes por semana, e isso já ajudava muito. Mas os buracos maiores eram nos fins de semana.

Sempre gostei muito de filmes e séries, só que esse tinha sido o alimento de boa parte dos anos de relacionamento. Eu precisava sair, conversar, ver gente. Precisava de experiências que não se resumisssem a ficar em casa, diante de uma tela.

Quando vi o anúncio, decidi que ia. Confesso que estava com vergonha, com receio, mas eu precisava daquilo.

Comentei com um amigo do curso, e ele não só topou na hora como ainda chamou uma amiga. E lá fomos nós pra primeira aula de sertanejo universitário.

Foi incrível.

Todo mundo ali também estava começando. Cada passo era ensinado do zero, e cada pequena evolução dava um baita orgulho. Não precisava saber dançar, não precisava chegar conhecendo ninguém, não precisava provar nada. Era só estar ali e tentar.

Dali em diante vieram as amizades novas, os churrascos, a galera saindo junta pra treinar os passinhos que tinha aprendido. Aos poucos, a dança deixou de ser apenas uma atividade e virou também um jeito de conviver, de conhecer pessoas e de construir novas histórias.

Foi uma fase muito gostosa.

Lembra da pergunta lá do começo? Aquela sobre conseguir apontar um dia e dizer que a vida mudou?

Acho que aquele foi um desses dias.

Não porque tudo tenha mudado de uma hora pra outra, nem porque a dança tenha resolvido todos os meus problemas. Mas porque, naquele momento, eu comecei a abrir espaço para uma vida diferente da que eu tinha conhecido até então.

Às vezes, um recomeço não chega com grandes anúncios. Chega disfarçado de convite pra uma aula de dança.

Hoje

Os anos passaram, eu me casei, formei uma família, e a dança, mesmo sem ser contínua, sempre volta de tempos em tempos.

Até porque é um ótimo exercício, e confesso que não sou muito fã de academia, embora eu vá duas vezes por semana.

Já passei pelo sertanejo universitário, pela vanera paulista, uma variação mais animada do sertanejo, prima da vaneira que se dança lá no Sul, e pelo forró universitário, outra febre da minha adolescência.

Hoje faço aulas duas vezes por semana, e a aventura da vez são o samba de gafieira e o samba-rock.

Samba-rock.

Aquele mesmo que eu ficava só olhando meus primos dançarem, sem jeito nenhum. Décadas depois, quem tá na pista aprendendo os passos sou eu.

Se isso não é uma viagem no túnel do tempo, eu não sei o que é.

E talvez seja justamente isso que torna tudo tão especial. A gente cresce, muda, constrói uma vida, assume responsabilidades e, no meio de tudo isso, algumas coisas da infância continuam esperando por nós.

Às vezes, basta uma música, um lugar ou uma oportunidade para que a gente se reencontre com uma parte de quem foi.

Confesso pra vocês que foi muito gostoso relembrar tudo isso. E preciso agradecer a quem me fez uma pergunta depois do texto que escrevi pros 18 anos da minha sobrinha.

Naquele texto, deixei este conselho:

“Todo mundo precisa ter um hobby que não tenha nada a ver com trabalho, igreja ou família — esse vai ser um momento só seu, onde ninguém mais te alcança.”

Foi a partir de uma pergunta sobre esse conselho que nasceu este texto. E acho que ele inteiro acabou virando a minha resposta. @Iraceminha

Às vezes ainda caio na tentação de achar que já estou meio velho pra isso. Aí encontro na pista gente 20, 30 anos mais velha do que eu, aprendendo passos novos, errando, rindo e vivendo.

E percebo que a idade não precisa ser uma autorização que a gente espera receber para começar alguma coisa.

A vida não para de oferecer novos começos. Às vezes, tudo o que a gente precisa é aceitar o convite e dar o primeiro passo.

E olha que ainda ficou muita coisa de fora: o forró da adolescência, as histórias da família que veio do Piauí... Cada uma dessas lembranças rende um texto só dela. Mas isso fica pras próximas viagens.

Agora a maquininha do tempo é sua: qual é a música que, quando toca, te leva direto de volta ao passado? E quem estava dançando com você?

Thoughts

  • AdilsonMaximus

    Gostei do texto, ele aborda as décadas de 80 e 90 principalmente, se pudéssemos voltar no tempo, com certeza eu voltaria.

    Permalink
  • edvaldodealmeida

    Excelente texto, incrível história! A vida é assim e essa é a parte boa de se viver! Que bom fazer parte desse novo recomeço com a turma da dança.

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  • sonoAtrasado

    Daquela turma da primeira aula de sertanejo, ainda sobrou alguém que dança com você hoje no samba-rock?

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  • Eduardo13

    As vezes é bom repensar no termo família, a que temos, tivemos ou poderia ter. Mas é bom ter a família que conhecemos nas memórias, seja bom ou ruim.

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