Às vezes, eu me pergunto por que existe tanto preconceito, tanta raiva nesse mundo. Por que as pessoas se incomodam tanto com a maneira como alguém escolhe viver, se vestir ou amar. A homofobia já me machucou algumas vezes, mas, na maioria delas, o que senti foi irritação. Irritação por perceber que ainda existem pessoas que acreditam ter o direito de opinar sobre a minha existência como se eu precisasse da autorização delas para ser quem sou.
Sempre gostei de ser eu mesma.
Gosto do meu cabelo raspado nas laterais, das roupas puxadas para o masculino, dos riscos na sobrancelha e de, às vezes, usar um piercing na boca. Gosto de olhar no espelho e reconhecer minhas próprias escolhas. Nunca precisei parecer mais feminina para me sentir mulher, muito menos mudar minha aparência para deixar alguém confortável.
Sempre soube que gostava de mulheres. Aos dez anos, já sabia. Aos doze, me assumi. Aos quatorze, descobri que a palavra que me definia era lésbica.
Desde os dez anos, tentava encontrar um estilo que combinasse comigo. Confesso que, no começo, errei bastante. Usava roupas completamente masculinas, enormes, três vezes maiores do que eu precisava. Hoje até sinto vergonha de algumas escolhas, mas faz parte. Eu estava experimentando, tentando descobrir o que gostava e o que fazia sentido para mim.
Minha mãe nunca gostou muito das minhas roupas. Ela continuava tentando me colocar dentro de um padrão feminino, mesmo quando eu deixava claro que não era aquilo que queria para mim. Minha sexualidade não era exatamente o problema. Eram as roupas, o cabelo, a aparência, a maneira como eu escolhia me apresentar ao mundo.
Talvez tenha sido aí que minha rebeldia começou.
Eu queria vestir o que gostava. Queria sair de casa sem sentir que precisava trocar de roupa para agradar alguém. Queria olhar para o meu corpo e me sentir confortável na minha própria pele.
Aos treze anos, cortei o cabelo pela primeira vez daquele jeito. Raspei das duas orelhas para baixo, fiz um degradê na nuca e escolhi um desenho. Lembro disso porque, de alguma maneira, aquele corte representava algo que eu ainda não sabia explicar direito.
Com o tempo, percebi que minha rebeldia não era simplesmente uma vontade de contrariar minha mãe. Era uma tentativa de conquistar minha liberdade.
Mas existe uma diferença entre alguém não gostar do seu estilo e alguém acreditar que tem o direito de diminuir você por causa dele.
É aí que entra a homofobia.
Já ouvi comentários que me fizeram perceber o quanto algumas pessoas se incomodam com mulheres que não correspondem à feminilidade que esperam delas. E lembro especialmente de uma situação com a mãe da minha ex.
Ela me disse que eu era mais homem do que os homens com quem ela transava.
Eu ri.
Ri de uma maneira sarcástica, amarga, quase como se aquilo fosse tão absurdo que não merecesse outra reação. Mas, por dentro, senti uma mistura de tristeza e irritação. Porque, por trás daquela frase, existia a tentativa de usar a minha aparência como uma ofensa, como se ser comparada a um homem fosse uma maneira de me diminuir.
E quantas outras coisas uma mulher como eu pode ouvir?
“Você precisa se vestir como mulher.”
“Você só é lésbica porque nunca conheceu um homem de verdade.”
“Precisa ser tão masculina?”
“É só uma fase.”
Talvez algumas pessoas digam essas coisas acreditando que estão apenas dando uma opinião. Talvez outras saibam exatamente o veneno que estão despejando. Mas nenhuma dessas frases muda quem eu sou. Só escancara o quanto algumas pessoas ainda acreditam que têm o direito de controlar a vida alheia, como se a minha existência fosse uma afronta pessoal.
E o mais irritante é que, às vezes, parece que a nossa simples existência já é suficiente para incomodar alguém.
Se eu corto o cabelo, incomoda. Se uso roupas masculinas, incomoda. Se gosto de mulheres, incomoda. Se não tento esconder nenhuma dessas coisas, incomoda ainda mais.
Então, o que esperam que eu faça? Que eu apague quem sou, mude meu corpo, meu cabelo, minhas roupas e meus afetos para que pessoas preconceituosas possam dormir tranquilas?
Não.
Saber que existem pessoas que não aprovam quem eu sou só me faz ter ainda menos vontade de viver tentando agradá-las. Não quero passar a vida inteira pedindo desculpas por uma aparência, uma orientação ou uma existência que não tem absolutamente nada de errado.
E não vou abaixar a cabeça para ninguém que use o preconceito como justificativa para me desrespeitar. Não vou sorrir para disfarçar a raiva. Não vou fingir que é “só opinião” quando o que estão fazendo é tentar me diminuir.
Também é por isso que entendo quem diz que não se envolveria com uma mulher que não é assumida. E concordo com isso.
Se assumir não é simples para todo mundo. Existem pessoas que têm medo da família, que dependem dos pais ou que sabem que podem enfrentar rejeição dentro de casa. Eu entendo que essas consequências existem e não quero fingir que são pequenas.
Mas entender o medo de alguém não significa que eu seja obrigada a viver dentro dele.
Eu não quero um relacionamento em que precise ser escondida. Não quero deixar de conhecer a família de alguém porque ela tem medo de apresentar a própria namorada. Não quero passar datas importantes sem poder ocupar o lugar que tenho na vida de uma pessoa. Não quero ouvir promessas de que um dia tudo vai mudar enquanto o presente continua sendo o mesmo.
Porque chega uma hora em que você começa a se perguntar que lugar realmente ocupa naquela relação.
Você é a namorada ou é alguém que só pode existir quando ninguém está olhando?
É doloroso gostar de alguém e perceber que precisa aceitar tão pouco para continuar ao lado dessa pessoa. É doloroso esperar que ela tome uma decisão, que enfrente a própria realidade, que cumpra uma promessa que você não tem como cumprir por ela.
E, por mais que eu compreenda que cada pessoa tem seu tempo, também acredito que ninguém é obrigado a sacrificar a própria felicidade esperando que outra pessoa esteja pronta.
Não quero transformar a dificuldade de alguém em motivo para julgá-la. Mas também não vou transformar essa dificuldade em uma prisão para mim.
Eu tive a sorte de me assumir sem que isso fosse, para mim, uma batalha. Sempre consegui me colocar no lugar dos outros, mas nunca senti que precisava esconder quem sou para ser aceita.
Mas, quando penso em tudo isso, fico revoltada até quando vamos deixar que o medo da opinião alheia decida o que podemos fazer da nossa própria vida?
Até quando alguém vai deixar de ser quem é, usar a roupa de que gosta, de cortar o cabelo como quer ou de apresentar a pessoa que ama porque tem medo de decepcionar alguém?
Até quando vamos confundir ser aceitos com sermos obrigados a caber em um padrão?
E acho que é justamente por isso que continuo gostando tanto da minha rebeldia.
Porque, para mim, ela deixou de ser uma questão de contrariar alguém. Tornou-se uma maneira de não permitir que outras pessoas decidam até onde posso ser eu mesma.
Talvez as pessoas devessem ser mais rebeldes.
Rebeldes o suficiente para enfrentar o preconceito, questionar aquilo que lhes ensinaram a considerar errado e parar de viver de joelhos, implorando aprovação de quem nunca teve coragem de questionar nada.
Rebeldes o suficiente para admitir quem amam, e quem é e para construir uma vida que realmente lhes pertença.
Sei que nem todo mundo vai gostar. Algumas pessoas vão se afastar. Outras vão demonstrar sua desaprovação. MAS ELES QUE SE FODAM, seja quem você quer ser.
Quero ser eu mesma. Quero amar sem precisar fingir que aquela pessoa é apenas uma amiga. Quero me olhar no espelho e gostar do que vejo. Quero construir uma vida na qual não precise esconder partes de mim para continuar sendo aceita.
E, se isso incomoda alguém, talvez essa pessoa precise aprender a lidar com o próprio incômodo, porque ele não é problema meu.
Eu não vou diminuir minha voz para proteger o conforto de quem me desrespeita. Não vou esconder meu corpo, meu cabelo, minhas roupas ou meu amor para alimentar a covardia de ninguém.
Porque eu não nasci para caber no padrão de ninguém.
E você também não.