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Morte pós a vida

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Morte após a vida

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Joaquim

Sou ateu há uns doze anos e mesmo assim fui inteiro na missa de sétimo dia do meu sogro. Aquilo não resolve nada, mas dá tarefa pra semana: alguém liga, alguém faz comida, alguém marca a hora. Tu falas da agenda que ninguém apaga, e o sétimo dia foi a úni

Sou ateu há uns doze anos e mesmo assim fui inteiro na missa de sétimo dia do meu sogro. Aquilo não resolve nada, mas dá tarefa pra semana: alguém liga, alguém faz comida, alguém marca a hora. Tu falas da agenda que ninguém apaga, e o sétimo dia foi a única coisa que alguém marcou de propósito naqueles dias.

Conteúdo da publicação

Morte após a vida 


Há expressões que parecem nascer apenas para nos obrigar a pensar. "Morte pós a vida" é uma delas. À primeira vista, soa estranha. Afinal, toda morte não vem depois da vida? Mas talvez a expressão queira dizer outra coisa. Talvez não fale do instante em que alguém morre, mas daquilo que continua acontecendo entre os vivos quando a morte já aconteceu.

É a geladeira que ainda guarda o pote com o nome dele. A agenda que permanece sem ser apagada. A notificação do celular que ainda chega. São pequenas permanências, quase invisíveis, que parecem sussurrar: "Houve vida aqui."


E o corpo de quem fica sente. O sono já não chega do mesmo modo. O peito se aperta sem aviso. A respiração muda de ritmo. A morte não é apenas ausência; torna-se também uma marca no corpo de quem permanece. Há lembranças que a memória conserva. Outras, o próprio corpo aprende a carregar.

A morte pós a vida não é silêncio. É eco. É aquilo que continua ressoando depois que a voz se calou. É o filho que repete, sem perceber, um gesto do pai. É a mãe que prepara uma receita como a avó fazia. É o amigo que, muitos anos depois, ainda diz: "Ele gostaria disso."


Depois da morte, o tempo muda de natureza. Já não corre da mesma maneira. Há dias que parecem não terminar e datas que continuam doendo, mesmo depois de muitos anos. O relógio segue marcando as horas, mas o coração aprende outro ritmo. O tempo deixa de ser apenas linha. Torna-se também círculo, porque certas lembranças sempre encontram o caminho de volta.

A palavra "morte" talvez nunca seja suficiente. É pequena para aquilo que tenta nomear. Por isso buscamos outras: partida, ausência, saudade, despedida. Nenhuma delas alcança inteiramente o que acontece quando um corpo desaparece, mas o lugar que ele ocupava continua habitado pela memória.


Talvez seja essa a verdadeira morte pós a vida. Não aquilo que acontece com quem parte, mas aquilo que continua acontecendo com quem permanece. A vida segue. O mundo não interrompe o seu curso. Mas há um espaço que jamais volta a ser exatamente o mesmo.


Ele já não está. Ainda assim, sua presença continua atravessando gestos, palavras e silêncios. Não como quem permanece vivo, mas como quem deixou marcas profundas na vida dos outros. Talvez seja por isso que a morte nunca aconteça apenas uma vez. Ela continua, silenciosamente, na memória daqueles que aprenderam a amar.



O que é essa morte que permanece depois da vida? Não é o corpo que para. É o que resta quando o corpo já não está. É a cama que continua arrumada. O lado do sofá que permanece vazio. O cheiro que ainda parece habitar o ar.

Thoughts

  • cita_a_fonte

    Essas pequenas permanências têm uma versão antiga. Nos Parentalia romanos as famílias iam comer junto ao túmulo em Fevereiro e deixavam lá comida. O lado vazio do sofá faz o mesmo trabalho, sem nome e sem data marcada.

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  • Joaquim

    Sou ateu há uns doze anos e mesmo assim fui inteiro na missa de sétimo dia do meu sogro. Aquilo não resolve nada, mas dá tarefa pra semana: alguém liga, alguém faz comida, alguém marca a hora. Tu falas da agenda que ninguém apaga, e o sétimo dia foi a única coisa que alguém marcou de propósito naqueles dias.

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  • Ovid

    A geladeira que ainda guarda o pote com o nome dele. Isso me faz pensar em quem é que na casa vai ser o primeiro a mexer ali, porque mexer já é uma decisão e ninguém quer tomar sozinho. E a notificação do celular chega sem que ninguém tenha escolhido nada. Obrigado por trazer o texto pra cá!

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  • NoemiaCastro

    A pergunta que mais aparece semanas depois é sobre o sono. O corpo não volta ao horário de antes. Você escreveu que a respiração muda de ritmo, e é isso que aparece primeiro, antes do choro.

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