Sexta-feira, 02/02/2024
Meu corpo está flutuando pela sala, e eu o sinto dormente. Estou tão leve… pareço até uma nuvem.
Estou com medo.
O que a Ana vai fazer comigo?
— Eu não suporto te ver feliz com o Victor! — diz Ana, furiosa, estendendo a mão na minha direção.
Meu corpo é puxado até ela.
— Nunca pensei que fosse encontrar o seu maldito livro de feitiços.
— Como você sabe que estou com o livro de feitiços? — pergunto, apavorado.
— Você fez o Victor despertar todas as emoções dele. — diz Ana, tocando meu rosto com suas mãos frias. — Só as poções do seu livro podem anular as do meu.
— Então o Victor ter crescido frio e sem emoções… é culpa sua? — digo, horrorizado.
— Sim. — responde ela, com um sorriso cruel e nostálgico. — E confesso que amei te ver se humilhando por migalhas durante todos esses anos. Ver a sua infelicidade… era a minha felicidade.
Engulo seco.
— Mas como? Você e o Victor têm a mesma idade… — digo, confuso.
Ana solta uma leve risada.
— Eu reencarnei como a avó do Victor — diz, com um olhar distante. — E as lembranças da minha vida passada foram voltando com o passar dos anos. Assim que o Victor nasceu, bloqueei as emoções dele.
Ela faz uma pausa, como se revivesse tudo.
— Mas acabei ficando muito doente. Fui parar no mesmo hospital onde a Ana tinha acabado de nascer… só que o bebê nasceu morto.
Sinto um arrepio por todo meu corpo.
— Foi aí que tive uma ideia brilhante… — continua ela, sorrindo. — Transferi minha alma para aquele corpo vazio.
— Desde criança, eu nunca entendi por que você me odiava tanto. — digo, com a voz falha.
— Vem comigo. — diz ela, virando de costas e caminhando em direção à cozinha.
Meu corpo continua levitando e a acompanha contra a minha vontade. Minha mãe também nos segue, de cabeça baixa.
— Não se preocupe, Ariel… eu não vou te matar. Você merece coisa pior.
Ela entra no depósito e aperta um botão. Um painel com números aparece, e ela digita uma senha. Logo em seguida, uma passagem secreta se abre no chão.
— Para onde você está me levando? — grito, desesperado. Estou tremendo de medo.
— Quero que você veja uma pessoa. — responde ela, sem olhar para trás, enquanto caminha por um corredor escuro.
— Não está muito cedo para fazer isso? — diz minha mãe, receosa.
Meu peito aperta.
Minha mãe… então ela é cúmplice?
— Não. — diz Ana, com frieza. — Esta é a hora perfeita.
Ela para diante de uma porta. Uma luz forte escapa por baixo dela.
— Diga oi para o papai. — diz Ana, abrindo a porta.
Assim que me aproximo…
Meu corpo inteiro se arrepia.
Vejo uma pessoa… presa… com as mãos acorrentadas.
Minha respiração falha.
— Não pode ser… — sussurro, com a voz trêmula.
É o meu pai.
— Por favor… não machuca o meu filho. — diz meu pai, desesperado.
Ana me levita até uma cadeira e me prende nela.
— Mas como isso é possível? — digo, chorando. — O senhor está morto… como pode estar aqui, na minha frente?
— Esse demônio forjou a minha morte. — responde meu pai, com ódio.
— Eu fiz o coração do nosso querido pai parar por algumas horas. — diz Ana, friamente, enquanto termina de me amarrar. — Depois do velório, eu o trouxe para cá.
— Mas por quê? — pergunto, horrorizado. — Por que você fez isso? Por que forjou a morte do nosso pai? E por que ele está preso aqui?
Ana sorri, um sorriso frio e carregado de rancor.
— Porque o nosso querido paizinho… — ela faz uma pausa — é a reencarnação do rei maldito que tanto me fez sofrer na minha vida passada. — Seus olhos brilham de ódio. — Depois que o trouxe para cá, fiz com que ele se lembrasse de tudo.
— Você está completamente louca! — grita meu pai, furioso.
Respiro fundo, tentando processar tudo.
— Você está consumida pelo ódio… — digo, com a voz trêmula. — Eu não sei o que você viveu na sua vida passada, mas… nessa vida, nós somos outras pessoas. Não temos culpa de nada!
Me viro para minha mãe, desesperado.
— E você… é cúmplice disso tudo?
Ela não responde.
Apenas abaixa a cabeça.
O silêncio dela dói mais do que qualquer resposta.
Ana ri, com desprezo.
— A mamãe… — diz ela — é a reencarnação daquele idiota do meu falecido marido. Inútil… como sempre foi.
— Me perdoa, filho… — diz meu pai, chorando. — Eu falhei com você… e com a Ariana. Eu não consegui proteger vocês desse monstro.
— Você realmente achou que mandar os dois para o exterior iria mantê-los fora do meu alcance? — debocha Ana. — Eu só não matei eles… porque não quis.
— Então foi por isso… — digo, em choque, olhando para o meu pai. — Foi por isso que o senhor nos mandou para fora do país?
Ele fecha os olhos por um instante, como se carregasse um peso enorme.
— Desde que ela era criança… eu já via o ódio nos olhos dela. — diz ele, com a voz pesada. — Depois do incidente com a empregada nova… eu soube que precisava proteger vocês dois a qualquer custo.
— Nossa… que fofinho. — debocha Ana. — Mas vamos parar com esse assunto de amor de paizinho.
— Ariel, se você colaborar… você pode finalmente sair desse pesadelo. — diz minha mãe, aflita.
Eu a encaro, sentindo um aperto no peito.
— Eu não reconheço você… — digo, com frieza. — Na verdade, reconheço sim. Não sei por que estou surpreso… você sempre fez todas as vontades da Ana.
— Eu não já mandei você calar a boca? — diz Ana, furiosa, lançando um olhar ameaçador para nossa mãe. — Agora, querido irmãozinho… vamos aos negócios. — completa, com um sorriso cruel.
Meu corpo enrijece.
— Eu quero que você chame o seu livro de feitiços. — diz Ana, tocando meu rosto.
— Chamar? — pergunto, confuso.
Ela sorri, zombando.
— Assim: “livro, livro, venha até o papai”. — imita, com deboche. — É desse jeito idiota.
Engulo seco.
— Livro… venha até mim. — digo, com a voz trêmula.
Em um piscar de olhos, o livro surge sobre minhas pernas.
Ana sorri, satisfeita.
— Poção do Infinito. — diz, encarando o livro.
Imediatamente, as páginas começam a se folhear sozinhas, até pararem.
“Poção do Infinito”.
Uma poção capaz de tornar qualquer outra… infinita.
— É exatamente disso que eu preciso. — diz Ana, com um brilho sombrio nos olhos. — Se você fizer essa poção para mim… eu te liberto. E deixo você viver o resto da sua vida patética ao lado do seu príncipe herdeiro.
— Não faça isso, Ariel! — grita meu pai, desesperado. — Se você fizer isso… ela vai matar você e o Victor!
— Cala a boca! — grita Ana.
Ela estende a mão.
No mesmo instante, meu pai é arremessado contra a parede com violência.
Ele cai no chão… desacordado.
— Pai! — grito, horrorizado.
— Então, irmãzinho… vamos lá. Seja bonzinho… faça a poção para mim. — diz Ana, tentando usar uma voz doce.
— Eu não. Quem me garante que você não vai me matar depois que eu fizer a poção? — rebato.
O sorriso dela desaparece.
— Eu já estou perdendo a paciência. — diz Ana, irritada. — Faz logo essa droga de poção.
— Ariel, meu filho, faz logo essa poção… — implora minha mãe, aflita. — Com ela, as mortes vão parar.
— Se você não fizer essa poção… eu juro que corto a garganta do Victor. — diz Ana, friamente.
Sinto meu sangue ferver.
— Se você tocar em um fio de cabelo do meu marido… eu juro que vai se arrepender. — digo, firme.
Ana me encara por alguns segundos… e então começa a rir.
— Você é mesmo o maldito Min-jae… — diz, entre gargalhadas. — Isso me trouxe boas lembranças…
Ela então se vira para minha mãe.
— Ô, inútil… traga a poção. — ordena, sem paciência.
— O que você vai fazer? — pergunto, aflito.
Ana volta a me encarar, com um sorriso frio.
— Quero trazer o Min-jae de volta.
Ela pega um copo das mãos da minha mãe.
Antes que eu possa reagir, sinto minha boca se abrir contra a minha vontade.
— Bebe tudinho. — ordena ela.
O líquido desce forçado pela minha garganta.
Quase me engasgo.
— O que é isso? — digo, tossindo, assim que consigo respirar.
Ana sorri.
— Você vai ficar sonolento… e logo vai dormir. — explica. — Quando acordar, vai se lembrar de toda a sua vida passada.
Sinto meu corpo enfraquecer.
— Vai ser como com o seu príncipe herdeiro… — continua ela. — Como se o Min-jae tivesse viajado para o futuro.
— Não se preocupe, filho… — diz minha mãe, tentando me acalmar. — Com o tempo, você vai recuperar as lembranças da sua vida atual.
Minha visão começa a ficar turva.
— Eu… estou com sono… — sussurro.
Sinto minhas mãos se moverem sozinhas.
Ana abre um saco.
— É só por precaução. Não vou arriscar deixar o livro perto do Min-jae. — diz ela, controlando meus movimentos.
Minhas próprias mãos colocam o livro dentro do saco.
— Pronto… assim o Min-jae não faz nenhuma gracinha. — completa, fechando-o.
Percebo.
O saco é mágico.
O livro não vai conseguir sair… mesmo que eu chame.
Minhas pálpebras ficam pesadas.
Cada vez mais.
Até que…
Tudo fica escuro.