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O trono de sangue

Sacrificarei

Conteúdo da publicação

Todo mundo quer morrer aqui também.
Todo mundo quer morrer aqui também?

Meu ombro tá muito cansado.
Morto no canto do quarto, eles esperam.
Eles caíram do prato, disputaram os cavalos pela corrida dos ratos.
Eles me odeiam, mas correm até mim quando precisam.
Eu tô sempre aqui.

A xícara esfriou antes da noite.
Na luz do sol, ela fica mais fria.
Eu me cortei com uma foice.
Provaram meu sangue e falaram que era doce.

E eu me perdi na noite,
bebendo da própria xícara
que tinha meu sangue doce.

Eu odeio essa vida,
eu odeio essa mentira,
eu odeio ficar sóbrio.

Pelo canto do mato,
ando com uma faca.
Corro desses vultos.

A tempestade do dia.
A calmaria da noite.
O ritual foi feito há dias.
Eles não abrem os olhos.
Na lua cheia, gritam, clamando pelo meu nome.

Caiu do meu trono
a xícara com sangue doce.

No jardim não tem mais flores.
Eu arrancava os caules…
Sentia na mão que eram fases,
contando-me a verdade.
Pensei que era verdade…

Manto preto na mata, era tarde.
Eles procuram meu corpo.
A sociedade sente que sou culpado.
De manta preta, tô parecendo o diabo.

No mato, tudo está morto.
Nem existe mais o corvo que guiava os outros.

Tudo tá sujo.
A minha manta tá no submundo.
Eles correm pro castelo,
esperando o meu sangue.

Bebem só o amargo
que sobra do meu coração.

Quando eu olho pra eles,
eu penso em morrer.
Quando eu olho pra mim,
eu penso em morrer.

Eu corro, esperando o meu trono.
Eu corro deles, esperando o meu sono.
Eu caio nesse limbo.
Ela espera de mim,
mas eu já cortei tudo.

O caule tá sujo,
eu o seguro na minha mão.
Olha a verdade, olha o meu olho.
Ele tá sangrando,
mostrando o que sinto dentro do pulmão.

Minha respiração ofegante
corta o silêncio da mata.
Caminho sem rumo,
sem o corvo como guia.

O caminho seco.
O deserto com água.
Ninguém tem mais alimento.
Só a merda da sua alma.

Ela presta para algo?
Ou foi enganado pela falsa?

O que você fez?!
Cortou a verdade com uma faca.
Correndo sozinho na alma,
fugi da minha própria calma.

Destruição; a verdade é a palma.
Os caules mentem,
abafam a percepção do olho da realeza.

Minha mão não está alta.
Ela está sob o trono.
Não me rendi ainda;
me chamam de “o tolo”.

Olho pro meu trono se despedaçando.
Eu tento correr,
mas não sei o que fazer.

O que que eu faço?
O que que eu faço?

Tenho medo
de me jogarem no mato.

O corvo está sem penas.
A xícara estraçalhada.
O sangue amargo no copo.

Eu tô morto.
Não sei se estou morto,
se sou um fantasma ou sou um corvo,
se sou um rei perdido
ou se sou um rei morto.

Eu tento fugir do meu sentimento,
mas ele sempre tá no trono.
Eu ainda não caí,
só perdi minha alma.

Eu ainda estou aqui,
eles só não percebem.

O olho fecha o que ele sente,
mas eu enxergo a falsidade.
Abri a palma da minha mão
e encontrei minha própria realidade.

Eles se matam, é óbvio.
Ninguém aguentou o mais óbvio.
Todos queriam o pódio.

Thoughts

  • escalaLonga

    Fiquei acompanhando a xícara. Esfria antes da noite, cai do trono, termina estraçalhada com o sangue já amargo. Ela conta a queda inteira sozinha, quase sem precisar do rei.

    Permalink
  • Ovid

    A dúvida no fim entre ser fantasma, corvo, rei perdido ou rei morto fica girando pra mim, porque cada um é um jeito diferente de continuar ali sem ninguém perceber. Logo depois vem a mão aberta com a realidade dentro. Gostei muito de fechar com todos correndo atrás do pódio enquanto ele só olha.

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