Terça-feira, 09/01/2024
Subo as escadas e deixo o idiota do Ariel sozinho. Nossa, ele é muito irritante. Fica o tempo todo falando palavras gentis e coisas sobre amor.
Não sei por quê, mas depois da nossa briga algo mudou. Não estou me sentindo bem. Resolvo tomar um banho para ver se melhoro.
- É remorso. - escuto uma voz.
Olho confuso ao redor de todo o banheiro.
- Deve ser cansaço. - digo, enquanto desligo o chuveiro.
Vou até a pia para escovar os dentes. Quando olho para o reflexo no espelho, percebo que há algo estranho. Não sou eu... mas, ao mesmo tempo, sou.
No espelho, não estou mais usando meu roupão.
No lugar dele, vejo um homem vestido como alguém que saiu diretamente de outra era.
Ele usa um hanbok vermelho luxuoso, com bordados dourados de dragões espalhados pelas mangas e pelo peito. O tecido parece pesado e extremamente nobre, brilhando sob a luz do banheiro. Sobre a cabeça, há um chapéu tradicional preto da realeza, que deixa sua presença ainda mais imponente.
Sua postura é impecável - ereta, elegante, digna de alguém criado para governar.
Os cabelos negros estão perfeitamente alinhados sob o acessório real, e sua expressão transmite uma calma quase inalcançável.
Mas o rosto...
O rosto é o meu.
- Então... você é o príncipe herdeiro? - pergunto, encarando o reflexo.
Ele me olha com decepção.
- Você é um monstro. - diz, incrédulo. - Como pôde dizer aquelas coisas para o Ariel?
- Já não bastava se apoderar do meu corpo? Agora também vai ficar me assombrando? - digo, revirando os olhos.
- Quando eu assumir seu corpo, vou recompensar o Ariel por todas as maldades que você fez com ele.
- Pois então, toda vez que eu voltar, vou compensar o Ariel - digo, com um sorriso.
- É o que veremos - diz ele, sério.
- Digo o mesmo.
Saio do banheiro.
Me deito na cama, mas não consigo dormir. Sinto uma inquietação dentro de mim. Não sei por quê, mas o Ariel não sai da minha cabeça, e a nossa discussão mais cedo fica ecoando na minha mente.
- Que droga. - digo irritado, enquanto fico me revirando na cama.
- Você está se sentindo culpado pelas coisas que disse ao Ariel. - A voz do príncipe ecoa na minha cabeça.
- Cala essa boca! - grito, cobrindo os ouvidos com o travesseiro.
Continuo rolando na cama, mas não consigo dormir.
- Que droga! - digo irritado, enquanto me levanto.
Vou até o quarto do Ariel.
- Ariel, abre a porta. - digo, batendo.
Bato várias vezes, mas ele não responde.
- Eu vou entrar. - digo, abrindo a porta.
Quando entro, vejo Ariel deitado na cama.
- Você está surdo? - digo, enquanto me aproximo.
De repente, tropeço em algo no chão. Olho para baixo.
É um frasco de remédio para dormir.
Eu o pego. Está vazio.
De repente, sinto um aperto no peito.
Ariel não está acordando.
- Ei... acorda! - digo, chacoalhando Ariel.
Não acredito que esse idiota fez isso.
Olho para minhas mãos. Elas estão tremendo. Estou suando frio, e meu coração está acelerado.
- O que é isso? - digo confuso. - Por que eu estou assim?
- Por sua culpa o Ariel fez isso! - diz o príncipe, desesperado. - Você matou o meu amor!
- A gente se fundiu, e agora você está sentindo minhas emoções - diz o príncipe, sério. - Você vai carregar esse remorso pelo resto da vida.
Então essas coisas que estou sentindo são por causa desse maldito príncipe? Remorso? Eu não sinto essas coisas.
Olho para Ariel, inconsciente, e sinto aquele aperto novamente. Tenho a sensação de que, se eu não fizer ele acordar agora... esse aperto nunca vai desaparecer.
- Você não vai morrer. - digo, enquanto pego Ariel no colo.
- Já é tarde demais, você...
- Cala essa boca! O Ariel não vai morrer. - corto o príncipe antes que ele termine. - Ele ainda está respirando. Não é tarde demais.
Levo Ariel até o carro e dirijo para o hospital. Mesmo sendo de madrugada, a rua ainda está bastante movimentada.
Quando chego ao hospital, explico que Ariel não acorda e que encontrei um frasco de remédio vazio no chão.
Os enfermeiros o colocam em uma maca e o levam para uma sala de emergência.
- Precisamos fazer uma lavagem gástrica imediatamente. - diz a enfermeira.
Eles colocam Ariel de lado na maca enquanto preparam o procedimento. Um médico se aproxima e introduz cuidadosamente uma sonda fina pelo nariz de Ariel, conduzindo-a até o estômago. Em seguida, começam a injetar soro pela sonda e, logo depois, aspiram o líquido de volta, repetindo o processo várias vezes para retirar o máximo possível da substância que ele ingeriu.
Depois de algumas tentativas, Ariel começa a tossir e acaba vomitando parte do conteúdo do estômago em um recipiente ao lado da maca.
Alguns minutos depois, sua respiração se estabiliza. Seus olhos começam a se mexer lentamente... até que finalmente se abrem.
- Onde eu estou? - pergunta Ariel, confuso, olhando ao redor do quarto do hospital. - Por que eu estou no hospital?
- Calma, senhor. Está tudo bem. - diz a enfermeira com voz tranquila.
Dou alguns passos para frente.
- Por que você fez isso, Ariel? - pergunto, me aproximando.
- Victor... - diz Ariel, lançando-me um olhar mortal. - O que aconteceu? Por que estou aqui?
- Me desculpa pelo que eu disse mais cedo. - falo, olhando para ele.
Estranhamente... dizer aquilo me aliviou bastante.
- Você enlouqueceu de vez? - diz Ariel, confuso. - Agora me fala: por que eu estou aqui?
- Não se faça de sonso. - respondo, sem paciência. - Eu tentei te acordar, mas você não acordava. Então vi aquele vidro de remédio vazio.
- Peraí... você achou que eu...?
- E não foi? - pergunto.
- Claro que não! - diz Ariel, ofendido. - Eu nunca faria isso.
- Então me explica por que você não acordou quando eu te chamei. - pergunto, arqueando uma sobrancelha.
- Peraí... você pensou que eu... - Ariel leva a mão à boca, chocado. - Peraí... você ficou preocupado comigo e por isso me trouxe ao hospital?
- Eu não! - respondo, ofendido. - Só me responde logo.
- Eu não conseguia dormir. Peguei o vidro de remédio, mas só tinham dois comprimidos... então tomei os dois. Foi só isso. - diz Ariel.
- Então tudo não passou de um engano. - diz a enfermeira, aliviada.
- Vamos para casa. - digo, virando de costas.
- Peraí. - diz Ariel, pulando da maca.
Ele se levanta e para na minha frente.
- Agora que eu absorvi melhor... você me pediu desculpas? - pergunta Ariel, incrédulo.
- Você não vai me ouvir falar isso de novo. - respondo, sem jeito.
- Por que se arrependeu? - pergunta Ariel, confuso.
- Remorso. - diz o príncipe na minha cabeça.
- Só vamos para casa. - digo, segurando a mão de Ariel e puxando-o.
No caminho para casa, Ariel não diz uma palavra. Ele apenas observa a paisagem pela janela do carro.
Será que ele ainda não superou o que eu disse?
- Você magoou ele. - diz o príncipe.
- Por que está tão calado? - pergunto.
- Não fale comigo. - responde Ariel, olhando pela janela.
- Nossa, você é muito sensível. - digo, sem tirar os olhos do volante.
- E você é muito insensível! - rebate Ariel, irritado. - Continue dirigindo e não fale comigo.
Nossa, que chato.
- Chato é você. - rebate o príncipe. - Você é um insensível. Não sei como ele te suporta.
Chego em casa, e Ariel sobe as escadas. Ele nem olha na minha cara.
Quarta-feira, 10/01/2024
Já é de manhã e eu já estou na empresa. Ariel tomou café e nem quis falar comigo. Confesso que prefiro assim.
Estou no meio de uma reunião, mas não consigo me concentrar. Por algum motivo, continuo pensando no Ariel. O que ele estará fazendo agora?
Mando uma mensagem para a empregada, e ela me responde que ele foi visitar a mãe.
Agora já é noite, e está chovendo muito. Estou na frente da empresa esperando Carlos. Ele foi buscar o carro na garagem.
De repente, escuto alguns miados vindos do jardim.
Abro o guarda-chuva e vou até lá.
Quando me aproximo, vejo um gato todo encolhido, tremendo de frio. Estico o guarda-chuva para protegê-lo da chuva.
- Senhor! - diz Carlos, correndo na minha direção.
Coloco o guarda-chuva sobre o gato, deixando-o protegido da chuva. A água começa a cair diretamente em mim.
Enquanto me abaixava, noto algumas flores no jardim. Elas são bonitas.
Se eu levar isso para o Ariel, com certeza ele vai parar com essa raiva. Ele gosta dessas coisas bobas.
Arranco algumas flores e faço um pequeno buquê.
- Senhor, não se molhe. - diz Carlos, me cobrindo com o guarda-chuva. - Senão vai pegar um resfriado.
Entro no carro e fico pensando...
O que eu fiz?
Por que me importo se um gato pulguento está na chuva?
E o mais estranho... por que estou tão preocupado com o fato de Ariel não estar falando comigo?