Sábado, 20/01/2024
Victor está com os olhos arregalados. Ele ficou em choque com as minhas palavras. Não me arrependo. Não vou mais pegar leve. Não serei mais o Ariel que se humilhava por migalhas de atenção.
— Eu quero que você me deixe na casa da minha mãe. — digo.
— Mas por quê? — pergunta Victor, confuso, lançando-me uma breve olhada. — Pensei que fôssemos passar um tempo juntos.
— A minha inspiração está voltando, e estou com vontade de desenhar as flores do jardim da minha mãe. — digo, enquanto olho pela janela. Victor precisa de um tempo sozinho agora.
— Eu posso ver você desenhar? — pergunta Victor, apreensivo.
— Melhor não. Você precisa ficar um tempinho sozinho. — respondo, olhando para ele. — Amanhã vá me buscar bem cedo.
— Promete que não vai usar a poção do amor em outro homem? — pergunta Victor, apreensivo.
— Isso vai depender do nosso encontro de amanhã. — digo, olhando para ele com um leve sorriso.
— Estou me sentindo um esquizofrênico. — diz Victor, pensativo. — O Do-hyun não cala a boca por nenhum segundo. — acrescenta, pressionando levemente a testa com uma das mãos.
Olho para Victor e sinto pena da sua situação. Eu não imaginava que esse seria o resultado da poção. Sinto-me um pouco culpado… na verdade, muito culpado. Deve ser difícil dividir a mente com outra pessoa. Deve ser sufocante.
Victor me deixou na casa da minha mãe. Peguei meu antigo caderno de desenho e agora estou sentado na grama, com o caderno apoiado nas pernas, desenhando as flores do jardim.
— Irmão, você aqui? — escuto a voz doce de Ariana atrás de mim. — Fico feliz que você tenha voltado a desenhar.
— Como foi o encontro? — pergunto, virando o rosto em sua direção.
— O cara é um tremendo machista. — diz Ariana, revoltada, enquanto se abaixa e se senta ao meu lado. — Ele disse que a mulher dele não trabalha. Então eu fui bem realista com ele e respondi: “Meu querido, sou uma médica em início de carreira. Não vou jogar tudo para o alto por causa de macho.”
— Não acredito que ainda exista gente assim. — digo, incrédulo.
— Agora que comecei meu doutorado, não vou abrir mão do meu sonho por causa de macho nenhum. — afirma Ariana, com firmeza.
— O que os gemeozinhos estão cochichando? — pergunta Ana, enquanto se aproxima.
Olho para ela e percebo que mudou o visual. Ela cortou o cabelo. Já era curto… e agora está ainda mais curto.
— Então se assumiu de vez agora? — diz Ariana, antes de soltar uma gargalhada.
— Você é tão escandalosa! — retruca Ana, irritada, enquanto entra na casa.
— Para de provocar ela. — repreendo Ariana. — É por isso que ela não gosta da gente.
— Não ligo se essa chata não gosta de mim. — diz Ariana, sem remorso.
— Não seja insensível. — digo, enquanto encosto a cabeça no ombro de Ariana.
— Não se preocupe, amor. — diz Ariana, fazendo carinho no meu cabelo. — Eu só sou assim com ela.
— Fiquei pensando no Carlos. — digo, pensativo. — Ele está tão triste.
— O que houve com o secretário gostoso do Victor? — pergunta Ariana, lançando-me um olhar curioso. — Por que ele está triste?
— A noiva dele o traiu e ainda o fez se sentir um lixo. — explico.
— Que mulherzinha. — diz Ariana, revoltada. — Que ela tenha uma morte horrível.
— Credo, Ariana! Não diga isso. — respondo, horrorizado.
— Desculpa. É que eu acho o Carlos tão fofinho e gentil. Ele não merecia passar por isso. — diz Ariana, levantando-se. — Agora vamos. Vamos comer alguma coisa. — acrescenta, me puxando pela mão.
Domingo, 21/01/2024
Ontem Victor passou o dia todo me mandando mensagens. Foi fofinho… mas preciso me fazer de difícil. Não sei qual das personalidades dele eu gosto mais: a do príncipe sorridente ou a do Sasuke fofo e arrependido.
Agora estou tomando café da manhã com minha mãe e minhas irmãs. Ana, como sempre séria e calada, sentou-se à mesa e não deu um pio. Mamãe, por outro lado, está brigando com Ariana por causa do pretendente de ontem.
— Você envergonhou o nome da família. — diz minha mãe, irritada, olhando furiosa para Ariana. — A família do cirurgião está dizendo que você é uma selvagem.
— Selvagens são eles, um bando de machistas. — responde Ariana, incrédula. — Em vez de se incomodar comigo, por que não arruma um pretendente para essa sapatão aí? — acrescenta, apontando para Ana.
— Eu estou quieta no meu canto. — diz Ana, batendo na mesa, furiosa. — Não me provoca, Paola Bracho!
Ana chama Ariana de Paola Bracho e eu de Paulina. Ela diz que Ariana é abusada como a Paola, enquanto eu sou sonso como a Paulina.
— Já chega! — diz minha mãe, batendo na mesa.
— Meu Deus… — suspiro, antes de levar a xícara à boca.
Meu celular vibra. Victor está me esperando.
Levanto discretamente e deixo as três discutindo na sala. Elas nem percebem que eu saí.
Passo pelo portão e vejo Victor se encarando fixamente no espelho do carro. Parecemos dois adolescentes indo para o primeiro encontro… mas, na verdade, é exatamente isso. Somos dois adultos quase na casa dos trinta tendo nosso primeiro encontro — e o melhor de tudo: já estamos casados há cinco anos.
— Bom dia, Victor. — digo, enquanto abro a porta do carro.
— Bom dia, Ariel. — responde Victor, olhando para mim. — Eu ia entrar para cumprimentar sua mãe.
— É melhor não. O clima entre as três não está nada bom. — digo, fechando a porta do carro.
— O que vamos fazer? — pergunta Victor, ansioso. — Como vou saber se te amo ou não?
— Até chegar ao amor, você vai passar por algumas fases. — digo, levando o dedo à bochecha. — Por acaso você tem vontade de me beijar agora? — pergunto, ansioso.
— Não. — responde Victor, firmemente.
— Você sentiu saudade? Ficou pensando em mim? — pergunto, receoso.
— Sim. — diz Victor, olhando para mim. — Eu contei os minutos para te ver.
— Ontem você sentiu ciúmes, agora saudade e ansiedade para me ver. — digo, com um sorriso bobo.
— O que isso quer dizer? — pergunta Victor, confuso.
— Que você está na primeira fase. — explico. — É uma longa jornada até a última… a fase final, quando você estiver apaixonado.
— E quando eu vou saber que estou apaixonado? — pergunta Victor, ainda confuso.
— Você vai querer me beijar. — digo, sem jeito.
— Assim? — pergunta Victor, igualmente sem graça.
— Vamos ao zoológico. — digo, tentando mudar de assunto. — É um lugar ótimo e romântico para encontros de casais.
Victor dá um sorriso bobo e logo começa a dirigir.
Chegamos ao zoológico e logo Victor estaciona o carro. Entramos, e o lugar está bastante movimentado.
— A gente vai andar assim. — digo, enquanto entrelaço minha mão na de Victor. — Como todo casal faz.
— Mas só se você estiver confortável. — acrescento, apreensivo.
— Meu coração está acelerado. — diz Victor, levando a outra mão ao peito. — É estranho… mas é uma sensação boa. — completa, apertando minha mão com firmeza enquanto caminhamos pelo zoológico.
— Essa é a fase dois. — digo, todo bobo. — Você está tímido e encantado.
— O Do-hyun está falando um monte de bobagens. Ele não quer que eu segure sua mão. — diz Victor, enquanto chegamos ao recinto da onça-pintada.
Victor coloca a mão sobre a grade.
— Ele está com inveja de mim.
— Mas eu não vou ligar para os surtos dele. — continua Victor.
— Do-hyun, para de ser chato. Deixa eu ter um momento a sós com meu marido. — digo, olhando para Victor.
— Vê essa onça? Ela me faz lembrar de mim. — diz Victor, pensativo. — Eu sempre fui solitário.
— Por favor, não seja mais solitário. — digo, enquanto encosto a cabeça em seu ombro. — Me deixa ficar ao seu lado.
Victor não diz nada. Apenas me olha e me dá um leve sorriso — aquele sorriso discreto, sem mostrar os dentes, bem estilo Sasuke Uchiha.
Depois de ver vários animais, eu e Victor estamos na praça de alimentação, tomando sorvete. A praça é bem fofinha, toda enfeitada com decorações de animais. A casquinha do sorvete é em formato de girafa.
— Eu quero saber de você. — diz Victor, antes de dar uma mordida no pescoço da girafa de casquinha.
— O que você quer saber? — pergunto, enquanto tomo mais um pouco do sorvete.
— Seu clima favorito, sua cor favorita, sua comida preferida, filmes… Quero saber essas coisas. — diz Victor, olhando para mim com curiosidade. — Quero saber do que você gosta.
— Você passou muito rápido para a fase três. — digo, surpreso. — Agora quer saber tudo sobre mim.
— Sim. Estou muito curioso para saber tudo sobre você. — diz Victor, animado.
Ele apoia os cotovelos sobre a mesa, coloca o queixo nas mãos e fica me encarando.
Nossa… ele está parecendo alguém… e vocês sabem muito bem quem.
— Eu amo a nossa culinária paraense. Minha cor favorita é rosa. Gosto de dias frios, porque é bom para dormir abraçado com um ursinho de pelúcia. — digo, com um sorriso. — Também gosto de filmes de ação… e de anime.
— Temos gostos um pouco parecidos. — diz Victor, com um leve sorriso surpreso.
Olho para frente e levo um susto.
É ela. Clara, a ex do Carlos. Ela está vindo na nossa direção, acompanhada de um homem.
— Victor! — digo, chocado, enquanto o puxo para trás de uma planta.
— O que houve? — pergunta Victor, confuso.
— É a Clara. — sussurro, enquanto espio.
— Ela parece tão feliz. — diz Victor, incrédulo, observando-a ao lado do homem. — Mesmo depois de tudo o que fez com o Carlos.
Ela passa por nós e segue para o bosque com o homem.
— Vamos lá. — sussurro, enquanto puxo Victor pela mão.
— O que vamos fazer? — pergunta Victor, confuso, enquanto é arrastado por mim.
— Vamos segui-los. E também quero dizer umas verdades para essa mulher. — digo, irritado, enquanto a sigo discretamente.
Clara segue com o homem para além dos recintos, lá no fundo do bosque, onde fica um pequeno lago. Já é fim de tarde, o sol está se pondo e quase não há mais ninguém no zoológico.
Por que ela está indo para um lugar tão isolado com esse homem?
Os dois param diante do lago e ficam olhando para a água.
— Ariel, deixa isso para lá. Vamos voltar. — diz Victor, tentando me puxar.
— Depois que eu disser umas verdades para essa ridícula. — digo, virando-me para olhar para Victor. — Ela deve desculpas ao Carlos.
— Espera… cadê o homem? — pergunta Victor, confuso, olhando ao redor.
Olho na direção do lago e vejo que Clara está sozinha.
— O Do-hyun está sentindo magia. — diz Victor, levando as mãos à cabeça. — Ele quer que a gente saia daqui agora.
— Victor… o que é aquilo? — digo, horrorizado, ao ver algo começando a emergir da água.
— Aaaagh! — grita Clara, assustada.
É uma pessoa.
Ela veste roupas pretas, mangas compridas e um capuz. No rosto, usa uma máscara de caveira.
Clara tenta correr, mas tropeça e cai no chão.
— O Do-hyun está dizendo que é o assassino. — diz Victor, horrorizado.
— Ele está falando que aquele é o Devorador de Íris? — pergunto, apavorado.
O homem então começa a atacar Clara, enquanto ela grita por ajuda.
Não acredito…
Estou diante do serial killer conhecido como o Devorador de Íris.