Segunda-feira, 08/01/2024
Fui à casa da minha mãe. Como sempre, ela fingiu preocupação com Victor - e, por um momento, quase acreditei.
Minha família sabe muito bem que, se Victor morrer, eu serei o herdeiro de tudo.
Subo para o meu antigo quarto. Minha mãe ainda o mantém exatamente do mesmo jeito. Às vezes, sinto vontade de mandar Victor à merda e voltar para cá. Mas não posso. Existe um contrato idiota que me prende a ele para sempre.
Meu pai fez uma fusão com a empresa do pai de Victor. A minha família é dona de uma distribuidora, e a família dele é proprietária de uma marca de refrigerantes. A fusão foi um sucesso e está rendendo muito lucro.
Pego uma cópia do contrato e fico encarando o documento. Nossos pais foram muito sacanas: quem decidir pular fora e pedir o divórcio perde tudo. Victor tem 50%, e eu tenho os outros 50%. Minha família jamais permitiria que eu me divorciasse.
- Está pensando em pedir o divórcio? - brinca minha irmã, Ariana, entrando no quarto e me vendo encarar o contrato.
- Você acha que a mamãe deixaria eu me divorciar do Sasuke Uchiha? - brinco, enquanto guardo o contrato na gaveta.
- Somos irmãos gêmeos. Eu sinto quando você está triste - diz Ariana, sentando-se ao meu lado na cama. - Que tal a gente fugir?
- Tá louca? - digo, incrédulo.
- A gente pode ir para a Inglaterra. Foi lá que crescemos - diz Ariana, pensativa. - A mamãe nem disfarça a preferência. Ela gosta mais da Ana.
- Olha pelo lado bom... pelo menos crescemos juntos - respondo, com um sorriso.
- Ainda não consigo entender o que passou pela cabeça dos nossos pais ao mandar os filhos caçulas para um internato na Inglaterra com apenas seis anos - diz Ariana, com rancor na voz. - Eu só não fugi para bem longe por sua causa.
- Não tenho coragem de fazer isso com a nossa mãe. Ela já está velha - digo, pensativo. - O papai morreu há pouco tempo. Quero que ela tenha uma velhice confortável.
Já é fim de tarde, e estou indo embora. Quando desço as escadas, escuto a voz de Ana, minha irmã mais velha.
- Já está indo, Ariel? - pergunta Ana.
- Sim - respondo, sem olhar para trás.
- Voltando para o seu príncipe encantado? - diz ela, em tom de deboche. - Para o seu ninho de amor.
Paro e me viro para encará-la.
- O que você está insinuando?
- Que o seu casamento é uma droga! - diz Ana, cruzando os braços.
- Dá para deixar o Ariel em paz? - intervém Ariana, surgindo atrás dela.
- Dá para vocês três pararem?! - grita minha mãe, do sofá.
- Estou indo para casa - digo, antes de sair sem olhar para trás.
Volto para casa, mas as palavras de Ana não saem da minha cabeça. Meu casamento é mesmo uma droga. O ambiente aqui é tão tóxico que perdi completamente a inspiração para pintar. Quem diria... eu, Ariel, que criava quadros tão lindos, perder totalmente o talento.
Já é noite, e estou na sala assistindo a um filme quando Victor chega.
- Agora me explica... o que aconteceu ontem à noite? - diz ele, parando na frente da televisão.
- O que você acha? - respondo, puxando a gola da camisa e revelando os chupões que ele deixou no meu pescoço. - Você estava mais quente que uma chaleira.
- Espero que tenha aproveitado bem cada momento - diz Victor, furioso, enquanto se dirige às escadas. - Porque isso nunca mais vai acontecer.
Nossa... ele ficou realmente ofendido.
Não demora muito, tomo um banho e me deito. Acabo pegando no sono.
De repente, me sobressalto. Estou deitado de lado quando sinto o colchão afundar atrás de mim. Logo depois, um braço me envolve pela cintura.
- Por que está aqui sozinho? - diz Victor, mas a voz é doce.
Viro o rosto e encontro seus olhos. Ele sorri para mim com ternura.
- Vossa Alteza... - digo, chocado. - Pensei que não o veria mais.
Abraço-o com força.
- Por que está aqui? Eu te procurei pela casa toda - diz ele, confuso.
- Este é o meu quarto - respondo.
- Não se esconda mais - murmura Victor, apertando-me contra o peito.
Terça-feira, 09/01/2024
É de manhã, e a personalidade de príncipe de Victor não mudou. Ainda bem.
Tomamos banho juntos e agora estamos à mesa, tomando café da manhã.
- Ainda preciso me acostumar a usar essas coisas do futuro! - diz Victor, sem jeito, batendo os talheres um no outro. - Quero fazer uma coisa depois.
- O quê, coisa fofa? - pergunto, observando seu jeito desastrado com os talheres.
- Quero que me leve para conhecer o futuro - diz Victor, empolgado. - Quero andar naquele palanquim de ferro.
- O nome é carro! - respondo, rindo.
- Bom dia - diz Carlos, entrando na sala.
- Bom dia - respondo.
- Senhor, a reunião é às oito em ponto - informa Carlos, olhando para o tablet.
- Reunião? - pergunta Victor, confuso.
- A personalidade de príncipe dele voltou - explico.
- O que vamos fazer? - diz Carlos, desesperado. - A reunião é daqui a trinta minutos.
- Mas eu vou passear com o Ariel - declara Victor, firmemente. - Quero conhecer o futuro.
- Mas precisamos do presidente na reunião - insiste Carlos, aflito.
- É melhor você chamar o pai dele - sugiro, pensativo. - Com essa personalidade, Victor não tem a menor condição de participar da reunião. Ele ficaria completamente perdido.
Pego o carro e levo Victor para passear. Em todo lugar ele pedia para parar; parecia uma criança encantada com cada novidade.
Finalmente chegamos ao shopping. Logo na entrada, Victor se encanta com uma máquina de pelúcia.
- Ariel, o que é isso? - pergunta ele, fascinado, apoiando as mãos no vidro.
- É uma máquina de pegar pelúcia - explico, aproximando-me. - A gente coloca dinheiro, controla essa garra com esses botões e tenta pegar um dos bichinhos lá dentro. Se a garra fechar direitinho e não soltar no caminho, o brinquedo cai ali embaixo, nesse compartimento.
Mostro os controles para ele.
- Quer tentar pegar um?
- Quero! - responde Victor, animado.
Coloco o dinheiro na máquina, e ele começa a tentar pegar uma pelúcia. Mas falha todas as vezes.
- Eu não consigo - diz, frustrado.
- Calma, eu vou te ensinar - digo, ficando atrás dele e colocando minhas mãos sobre as suas. - Tem um truque para conseguir pegar.
Tento apoiar o queixo em seu ombro, mas não consigo por causa da nossa diferença de altura.
- É impossível pegar um - resmunga Victor, desanimado. - Parece que passaram sabão nessa garra de ferro.
- Vamos tentar juntos - sugiro, movendo a garra com mais cuidado. - Tem que mirar bem e pegar uma pelúcia que esteja mais solta.
Depois de mais três tentativas, finalmente conseguimos. A garra fecha com firmeza e, dessa vez, não solta o brinquedo.
Quando a pelúcia cai no compartimento, Victor dá pulos de alegria enquanto eu a retiro da máquina.
- Conseguimos! - comemora ele, sorrindo como se tivesse conquistado um reino inteiro.
Agora estamos tomando sorvete.
- Acho que é impossível você não ser a reencarnação de Min-jae - diz Victor, todo bobo, enquanto prova o sorvete. - Você tem exatamente a personalidade dele: é gentil e educado.
- Não posso dizer o mesmo de você - respondo, dando mais uma colherada. - Você e o Victor não têm nada a ver um com o outro.
- Como não? O Victor é a minha reencarnação. Eu sou o príncipe Yi Do-hyun - diz ele, olhando-me confuso. - Como ele não teria a minha personalidade?
- Então esse é o seu nome... - digo, sorrindo ao finalmente ouvi-lo revelar.
- Sim. Mas você não pode pronunciar o nome do príncipe herdeiro - diz Victor, ficando sério de repente.
- Você não é mais príncipe - retruco.
- Desculpe... é força do hábito - responde ele, com um sorriso sem graça. - Mas me diga... como é o Victor?
- Frio e cruel - afirmo, sem hesitar. - Uma pessoa egoísta, que só pensa em si mesma.
- Eu? Frio e cruel? - pergunta, incrédulo.
Victor fica em silêncio por alguns segundos, pensativo.
- Não consigo me imaginar sendo assim... - murmura. - Mas, pelo menos, há uma parte boa nisso tudo: nós nos amamos.
Baixo os olhos para o sorvete, sentindo um aperto no peito.
- Na verdade... eu te amava. O Victor nunca me amou. Ele sempre me maltratou e me desprezou.
Victor fica boquiaberto com a revelação.
- Por que não me disse isso antes? - pergunta, chocado.
- Eu só queria esquecer o passado e viver um novo futuro com você - digo, pensativo. - Mas não imaginava que você e o Victor ficariam disputando o controle do mesmo corpo.
- Não se preocupe - diz Victor, tocando minha mão com delicadeza. - Vamos encontrar um jeito de eu permanecer permanentemente neste corpo.
- Esse seria o meu maior sonho - respondo, com a voz trêmula.
Victor não tira os olhos de mim.
- Você encontrou o seu livro de feitiços? - pergunta, atento. - Se encontrou, isso comprova que você é Min-jae.
- Eu encontrei um livro de feitiços dentro de um buraco numa árvore - digo, ainda chocado ao lembrar.
- Então é realmente você - afirma Victor, sorrindo. - Só o Min-jae pode tocar no livro de feitiço.
Desvio o olhar, sem graça.
- Está bem... eu achei o livro de feitiços. - Suspiro. - Fiz a poção do amor e dei para o Victor.
- Então foi isso que me despertou - diz Victor, pensativo. - Com a ajuda do livro, vamos encontrar uma poção que elimine de vez essa personalidade cruel do Victor.
Meu coração acelera, transbordando esperança. Se o Victor cruel desaparecer para sempre... isso significa que poderei ser feliz ao lado do meu doce e adorável príncipe herdeiro.