Segunda-feira, 08/01/2024
De repente, começa uma correria na praça de alimentação. As pessoas sussurram, assustadas. Vejo várias saindo do banheiro do shopping, algumas chorando, outras com a mão na boca.
— O que está acontecendo? — pergunta Victor, inquieto, ao notar o clima pesado.
Uma moça sai correndo do banheiro. Ela está pálida, quase branca.
— Moça, o que aconteceu? — digo, depois que ela passa por mim. — Por que está todo mundo indo ao banheiro e saindo branco como papel?
— Tem uma mulher morta no banheiro feminino! — diz ela, horrorizada. — É o O Devorador de Íris!
— O quê? — digo, assustado. — Não acredito que ele voltou!
— Quem, amor? — pergunta Victor, confuso e apreensivo.
— O Devorador de Íris… é um assassino que aterroriza a cidade há dez anos — respondo, sentindo um frio na barriga. — Ele já fez diversas vítimas e sempre arranca os olhos. É como se quisesse deixar sua assinatura.
— É como se a história estivesse se repetindo… — diz Victor, chocado. — Hyeon-um também fazia isso.
— Quem é Hyeon-um? — pergunto.
— Foi um homem cruel que fazia o mesmo com suas vítimas — responde Victor, visivelmente abalado. — Não posso acreditar que ele tenha reencarnado aqui.
Não acredito que o Devorador de Íris voltou. A última vítima foi há quase um ano. Esse assassino nunca deixa pistas. A polícia investiga esses crimes há anos, mas jamais conseguiu chegar até ele.
Perguntei a Victor sobre o assassino da vida passada, mas ele se recusou a falar. Agora fico me perguntando: o que aconteceu naquela outra vida para ele ficar tão assustado ao ouvir que existe um serial killer na cidade?
Chego em casa, vou direto para o meu quarto, pego o livro de feitiços e me sento na cama ao lado de Victor. Ele ainda está distante, perdido em pensamentos.
— Eu juro que não vou deixar ninguém te machucar de novo — diz Victor, me abraçando com força.
Ele começa a chorar.
— Não chora — digo, fazendo carinho em suas costas. — Eu não sei o que aconteceu com a gente na vida passada… mas prometo que não vai acontecer de novo.
Pego o livro de feitiços e começo a folheá-lo.
— É só você pedir que o livro responde — diz Victor, enxugando as lágrimas.
— Sério? — pergunto, incrédulo. — Livro… como faço para eliminar a personalidade fria e cruel de Victor?
Assim que termino a frase, as páginas começam a folhear sozinhas, até pararem em uma folha específica.
Poção da Unificação da Alma
Anoto todos os ingredientes e saio para comprá-los. Quando volto, pego minha chaleira elétrica e coloco as ervas dentro. Assim que a água começa a ferver, o aroma se espalha pelo quarto.
Depois de pronto, rasgo a folha onde está escrito a poção, em seguida coloco sobre a xícara para coar o chá com cuidado.
— Tomara que dê certo… — digo, apreensivo, enquanto termino de coar. — Aqui, amor.
Entrego a xícara para Victor.
— Vamos ficar juntos para sempre — diz ele, antes de assoprar o chá.
— Cuidado, está muito quente — aviso, preocupado.
— Eu vou esfriar — responde, soprando devagar.
Depois de alguns minutos, ele finalmente bebe todo o conteúdo da xícara.
— Está sentindo alguma coisa? — pergunto, nervoso.
— Não… não estou sentindo nada — responde.
De repente, o corpo dele amolece e ele desmaia nos meus braços.
— Victor! — grito, assustado, segurando-o com firmeza.
Meu coração dispara.
— Deve ser o efeito da poção… — sussurro, tentando me acalmar, enquanto o deito cuidadosamente na cama.
Coloco a cabeça dele sobre minhas pernas e começo a fazer carinho em seu cabelo, observando seu rosto.
Terça-feira, 09/01/2024
Acordo com um forte impacto nas costas, que me faz cair no chão.
— Aaaagh! — grito, enquanto bato contra o piso. — Ai… — resmungo, tentando me levantar.
Quando fico de pé, me deparo com Victor me encarando friamente.
É ele. O idiota frio e cruel.
A poção não funcionou.
— Você me chutou? — pergunto, incrédulo.
— Eu te avisei para não entrar no meu quarto de novo — diz Victor, com frieza. Sua voz parece abaixar a temperatura do ambiente.
— Esse é o meu quarto, seu idiota! — grito, irritado. — Se você me tocar de novo…
— Vai fazer o quê? — provoca ele, com um sorriso frio nos lábios.
Meu sangue ferve.
Olho para a cabeceira da cama e vejo o abajur.
— Experimenta — digo, pegando o objeto e arremessando na direção dele.
— Ficou maluco?! — grita Victor, desviando no último segundo.
O abajur acerta o guarda-roupa e se estilhaça no chão.
— Saia do meu quarto, Victor! — ordeno, tremendo de raiva.
— Você está muito atrevido — diz ele, incrédulo.
— Eu estou cansado de você e dessa sua frieza — respondo, com a voz falhando entre raiva e cansaço.
— Se está tão cansado, peça o divórcio — rebate.
— Você ia adorar, não é? — retruco. — Ficar com cem por cento de tudo.
— Você é realmente insuportável — diz ele.
— Foi você quem me escolheu — respondo, cruzando os braços. — Então eu não devo ser tão irritante assim para você.
Victor não responde. Apenas me encara por alguns segundos… e vai embora do quarto.
Não acredito… o insensível voltou. A poção não funcionou. Ela não conseguiu eliminar aquela personalidade insuportável.
Pego o livro.
— Livro, por que não funcionou? — digo, frustrado, enquanto o abro. — Eu quero uma poção que deixe somente o meu príncipe herdeiro!
As páginas não se mexem.
— Por que você não me responde? — grito, antes de jogar o livro contra a parede.
Estou tão irritado… Eu não suporto mais o Victor.
Tomo um banho para me acalmar. Depois desço as escadas, mas, assim que vejo Victor sentado à mesa, dou alguns passos para trás.
— Não vai tomar café comigo, amor? — diz Victor, sem tirar os olhos de uma pasta.
— Por quê? — respondo, enquanto desço as escadas. — Não consegue tomar café sem a minha companhia?
— Só se senta logo aí! — diz Victor, lançando-me um olhar mortal.
A empregada percebe o clima pesado e logo sai da sala.
— Não sei como você aguenta passar o dia todo com o senhor Gelo — digo, lançando um olhar para Carlos.
— Eu pago o Carlos muito bem, então ele não tem do que reclamar — rebate Victor.
— Se você diz — respondo, revirando os olhos.
— O mesmo digo para você. Você vive uma vida de príncipe — diz Victor, olhando para mim. — Com exceção de amor, eu te dou tudo o que quiser… até o mundo.
— Nossa, que romântico — retruco em tom de deboche.
— Estou indo para o trabalho, amor — debocha Victor enquanto se levanta. — Vamos, Carlos.
Ele se vira de costas e vai embora.
Estou na casa da minha mãe, no jardim, tomando chá com ela e Ana.
— Não aguento mais o Victor — digo, com a voz cansada.
— O que o seu marido fez dessa vez? — pergunta minha mãe, antes de levar um biscoito à boca.
— Ele é insuportável — respondo, frustrado.
— É a vida — rebate minha mãe. — Seu pai também era.
— Eu não quero ter um casamento igual ao seu — digo.
— Quanta frescura — diz Ana, sem paciência. — Você tem um marido rico que te dá tudo. Deveria estar feliz por ter sido escolhido por ele.
— Olha aqui, Ariel, não quero ouvir você falar assim — diz minha mãe, já começando a ficar irritada. — Graças ao Victor, aumentamos em sete vezes a fortuna da família. Vamos mudar de assunto.
Não sei por que ainda perco tempo desabafando com a minha mãe. Ela é uma egoísta que só pensa em dinheiro. Ela, sim, seria a esposa perfeita para o Victor.
Passei o dia todo no spa e fazendo compras. Fiz o que sei fazer de melhor: gastar o dinheiro do Victor.
Chego em casa e logo sinto o ambiente frio. Imediatamente sei o motivo: Victor está na sala.
— Se divertiu muito? — pergunta Victor.
— Sim, muito — respondo, levantando os braços e mostrando-os cheios de sacolas.
— Isso… assim que eu gosto — diz Victor friamente, enquanto se levanta e caminha na minha direção.
— Tomara que, quando você acordar amanhã, acorde com a personalidade do meu príncipe — digo, frustrado, enquanto caminho em direção à escada.
— Você gosta tanto assim da minha outra personalidade? — pergunta Victor, andando até parar no meu caminho.
— Sim. Do-hyun é gentil — respondo com um sorriso. — E, melhor ainda, ele me ama.
— Já sei dessa história toda — diz Victor, impaciente. — O príncipe herdeiro gosta de alguém parecido com você… mas não é você.
— Isso foi só no começo. Depois ele disse que se apaixonou por mim — retruco.
— Você é muito inocente, Ariel — diz Victor, com um sorriso frio. — Acha mesmo que alguém amaria você?
As palavras dele atingem meu coração com força.
— Eu não te suporto mais — digo, irritado.
— É só pedir o divórcio — diz Victor, com um sorriso cínico.
— Para de dizer isso! — grito, impaciente. — Você sabe que, se eu pudesse fazer isso, já teria feito.
— Esqueci que o doce Ariel não manda na própria vida — provoca Victor.
— Por que me escolheu? — pergunto, com a voz trêmula. — Você exigiu que só se casaria comigo.
— Porque você é um idiota sem graça — responde Victor friamente.
— Eu já cheguei ao meu limite — digo, chorando.
— Isso não é problema meu — retruca ele.
— É claro… até parece que você se importa comigo — digo, amargurado.
— Se está tão cansado assim, corta os pulsos — diz Victor, encarando-me friamente. — Quem sabe, no seu velório, eu consiga soltar uma lágrima.
Ele termina de falar e sobe as escadas, ainda com a mesma frieza.
Fico completamente sem reação diante da crueldade de Victor. Como ele pode dizer algo assim com tanta indiferença?
As palavras dele ficam ecoando na minha cabeça.
Talvez… essa seja a única forma de me libertar desse inferno.