Göttlicher Einfall (1)
Em meio ao vácuo imaculado e silencioso, Rénlèi Shén ergueu a mão. Nela, materializou-se um pincel longo e soberbo, forjado na mais pura e densa obsidiana. Com a sutileza do criador que acolhe sua própria obra, ele mergulhou a ponta da ferramenta no nada e começou a pintar o mundo branco. Sob seus pés, onde antes só existia a vacuidade, o chão despiu-se da aridez e transformou-se em um mar resplandecente, tingido por uma miríade de cores vivas e vibrantes que fluíam como ondas de tinta primordial.
Sua figura estava resguardada por um muro monumental, erguido com pedras de cristal reluzentes. Uma chama de fogo vibrante — uma verdadeira e viva língua de fogo — rodeou-o por completo. A intensidade daquele calor e daquela presença começou a me golpear com puro terror.
Ainda assim, atraído pelo destino e empurrado pela vontade do Lorde, entrei na chama vibrante.
Sem consumir minha existência, a parede de fogo abriu passagem para que eu me aproximasse de uma espaçosa habitação, também inteiramente construída com pedras de cristal. Muros, pavimento e piso refletiam uma luz hipnotizante. O telhado, alto e insondável, tinha a aparência de estrelas agitadas no firmamento e brilhos cortantes de relâmpagos; e, no meio daquela tempestade cósmica — cujo céu parecia ser feito de água pura —, querubins de fogo cruzavam os ares. A chama ardia incansável ao redor dos muros e o próprio portal queimava em labaredas.
Ao cruzar o limiar e entrar naquela habitação, fui atingido por uma sensação inexplicável: era quente como o fogo mais voraz e, simultaneamente, fria como o gelo mais sepulcral. Não havia ali nenhum traço de encanto comum ou de vida mortal. O terror me sobrepujou até o fundo das minhas células, e um tremor incontrolável de medo apoderou-se de todo o meu ser.
Diante de mim, revelou-se uma segunda habitação, ainda mais espaçosa e grandiosa que a primeira. Cada uma de suas entradas estava aberta de par em par, elevada no centro daquela chama pulsante. Tudo ali superava qualquer lógica humana: em glória, em magnificência e em magnitude, tornando impossível descrever em palavras o esplendor e a extensão daquele domínio. Seus pisos eram de puro fogo, acima dançavam relâmpagos entre estrelas agitadas, e o teto exibia um fogo ardente e perpétuo.
Criei coragem e examinei o recinto atentamente. No centro de tudo, vi um trono exaltado.
Sua aparência era pura e translúcida, semelhante à da geada, enquanto sua circunferência brilhava com o vigor e a forma da órbita do próprio Sol. Ao seu redor, ressoava soberana a voz de um querubim. Debaixo desse poderoso trono, vertiam rios de fogo flamejante que cortavam o espaço.
Sobre o trono, assentava-se Aquele cujo manto era mais brilhante que a luz solar e mais branco do que a neve virgem. O fogo flamejante o rodeava e uma grande coluna de chamas continuava a se elevar diante Dele, impedindo que qualquer um se aproximasse. Diante do trono, contavam-se miríades de miríades — dez mil vezes dez mil seres —, e nem mesmo assim o Santificado precisava de conselho. Contudo, os seres mais próximos jamais se afastavam Dele, nem de noite, nem de dia.
Eu permanecia ali, no limite extremo da existência, com a face coberta por um véu, trêmulo diante da majestade do Forjador.
Foi quando o silêncio do universo reescreveu o tempo. O Senhor, com Sua própria boca, chamou-me por entre o rugido das chamas, ressoando através de todas as nove consciências:
— Aproxima-te aqui, minha extensão, ferramenta amada minha: espelho de obsidiana.
O grande plano estava selado. O pincel de obsidiana repousou, e a criação finalmente encontrou seu despertar no ciclo eterno das almas.
As raízes de Yggdrasil estenderam-se sobre um novo palco branco que tomava forma através do espaço, transformando-se em grãos de areia espalhados pelo horizonte. Os ventos celestes erguiam as grandes dunas e, junto delas, o grande Casuar surgiu para proteger o corredor.
Do encontro do gelo com o calor, nas flutuações densas das nuvens nas paredes do grande e vasto corredor, o cavalo branco galopou.
Agitando-se de forma brusca e violenta, as águas negras de Nun se levantaram. Siaer, a grande boca, abriu-se dando passagem e cruzando sua bocarra, que consumia tudo o que encontrava pela frente no vasto oceano.
Era uma criatura insondável formada através das águas, coberta por uma espessa camada de pele derramada do tecido de uma existência já esquecida; nem aqueles que por ela passavam a conheciam, compreendiam ou entenderiam.
Arrastando seu corpo imenso, seus braços se erguiam formando um "V" invertido. Ambos os braços eram feitos dos restos de seres marinhos mortos, e cada uma de suas mãos possuía cinco longos e finos dedos.
Do interior da bizarra fusão das águas de Nun, uma mutação se desenrolou, ganhando tonalidades cristalinas. Um tamanduá guardião caminhou calmamente na praia recém-formada.
E, assim como em um ritual ancestral, o cavalo branco galopou para além da própria luz. Mais alto que um Shire, mais robusto de porte que um Percheron e mais forte do que o Belgian Draft, ele construiu a passagem da caminhada. Por ela, talismãs vermelhos com letras rúnicas douradas, presos em duas fileiras por um fio de prata, convocaram a chave.
Nove dragões de mármore branco com detalhes dourados rugiram, puxando um caixão de bronze.
Sobrevoando as marcações da área, os nove dragões pousaram o caixão de bronze e, ao seu redor, passaram a espreitar.
Incontáveis figuras de múltiplas formas, tamanhos e aparências aguardavam pacientemente.
Com o deslizar da tampa de bronze, ecoou o som gutural do bronze arranhando em sua abertura. A majestosa tempestade divina fez com que as nuvens aglomeradas se separassem e se abrissem.
"— Quando a vontade desperta, ela se imprime no universo. A verdade e a sabedoria infinita da criação eu guardo." Suspirando, El Gran Rey Maja aguardou pacientemente a vinda deles.
Na escuridão fria e sem fim, tudo se reuniu, tornando-se nulo. Retirados do descanso, o sono branco foi corrompido: um sussurro que logo tomou forma. Nuvens se aglomeraram sobre a tela branca, formando o olho do furacão. Os fortes ventos celestes cortavam as camadas do espaço como espadas de milhares de divindades, mas, para ele, não passavam de uma leve brisa que não o afetava.
Da tempestade majestosa e divina, as nuvens aglomeradas se separaram e se abrissem como as asas de um anjo.
Adentrando os portões dourados de Ishtar, passando pelas entranhas do mundo através das raízes profundas de Yggdrasil, ele pisou no novo palco branco que se abriu diante de si. Num instante, um mar azul-índigo calmo cobriu o horizonte em uma vasta cortina.
Diante de seus pés, o mar naquele lugar ganhava diversas curvas e reviravoltas, entrelaçando-se para se tornar um caminho.
Por este caminho, bestas divinas nadavam tranquilamente por esse mar do tempo e do espaço, carregando as Três Montanhas Divinas em suas costas. Entre elas estava a grande besta divina Yamata no Orochi, a temível serpente-dragão de oito cabeças e oito caudas.
Ela deslizava pelo caminho azul-índigo com olhos vermelhos, escamas verdes-avermelhadas, e musgo e árvores crescendo em suas costas.
Imediatamente, ele avistou três grandes montanhas que se elevavam ao longe: as montanhas vermelhas de Lhasa. Um majestoso palácio erguia-se sobre os picos em direção ao céu — um local sagrado, um edifício construído no raiar da criação, feito da mistura de granito e mármore com entalhes esculpidos em jade, fachadas de ouro e pérolas, sob um telhado vermelho.
Com o movimento do colossal corpo de Yamata no Orochi, as três montanhas de Deus, que compunham as Três Montanhas Divinas, surgiram uma após a outra. Cada montanha tinha 5.000.000 de quilômetros de altura, adornada com um jade que as fazia parecer pavilhões suntuosos. As montanhas eram cobertas por belas árvores que se alinhavam como as contas de um colar.
"— Dizia-se que os seres divinos das lendas residem ou passam por este local sagrado." Olhando para trás, ele notou a presença dos outros visitantes que chegavam.
A passos lentos, El Gran Rey Maja caminhava pela escadaria que se conectava aos nove círculos do inferno. Tijolos de terra vermelha pavimentavam o caminho da escadaria em direção ao mordomo.
Magro e alto como um pinheiro, ele trajava um fino e elegante terno de cor robusta Marsala. Ao inclinar da cabeça, revelavam-se três faces em seu rosto. Uma longa cauda branca descia de trás de sua cabeça até as pernas, com a ponta terminando em uma boca. Com o mover dela, o mordomo o cumprimentou:
"— Por meio de mim, seu anfitrião, agora irei desdobrar as crônicas deste mundo; de povos que propagam o fluxo natural, das estrelas na fronteira do material e imaterial e, além dos portões do 'exterior', onde a trindade reina. Este caminho à frente e uma reunião esperam pelos convidados."
Com um passo à frente, a tela vazia do vasto infinito do espaço foi engolida por um ponto vermelho, mergulhando essa tela cósmica em uma grotesca massa de carne e incrustando sobre esse amontoado máscaras brancas de prata, tão vastas quanto planetas.
Contorcendo-se e pulsando, o grotesco amontoado de carne girou e cinco protuberâncias se levantaram, forming asas de carne e olhos. Navegando entre as estrelas, adentrando seu centro, atravessou os antigos espíritos progenitores que, do clarão da aurora do início dos tempos aos dias de hoje, estão em um combate eterno.
Do centro de tal aberração, surgiram máscaras duplas: uma delas possuía uma face triste com uma lágrima escorrendo de seu olho esquerdo, e a outra, sorridente. Estendendo-se à frente, os rostos atravessaram, nadando à deriva no limiar das estrelas, uma dimensão azul-escura iluminada por incontáveis pontos brilhantes; arrastando-se sobre plataformas translúcidas, os rostos direcionaram-se, junto aos seus iguais, ao centro.
Seres grotescos saídos de um pesadelo agora se encontravam abaixo da dimensão estrelada. Do norte, sul, leste e oeste, os pesadelos vinham atraídos pelo centro, formado por um monte de mãos com os dedos entrelaçados acima e abaixo, palmas abertas formando costelas humanas, possuindo um olho em seu núcleo.
Caminhando do sul, vinha uma criatura humanoide cuja forma era feita de fuligem na maior parte, com o resto disposto em espiral.
Flutuando do oeste, uma esfera amontoada e retorcida de faces.
Batendo suas asas negras, vindo do leste, um grande crânio cinco vezes maior do que um morcego gigante; seu corpo, o tórax, abria-se e, do interior, uma névoa escura o preenchia.
Todas eram aberrações, mas todas focadas em uma única missão: chegar ao centro desta dimensão. Sentindo esse desejo ardente dos pesadelos, a dimensão lhes deu uma resposta.
E, do centro deste mundo, braços se manifestaram, usando-os como pernas de apoio, enquanto em sua parte superior faces se entrelaçavam em volta da moldura.
O silêncio que se seguiu entre os pesadelos quebrou-se com a vibração do espelho, repousando em aguardo ao grande advento.
No coração da raiz do mundo, o espaço se dobrou em uma moldura. O vidro negro à moldura se acoplou, preenchendo-a; de seu reflexo, uma luz negra escapou, jorrando um líquido petrolífero. Linhas se formaram, alinhando-se, e dele cinco pescoços longos como serpentes, com dentes grandes à mostra em múltiplas bocas sem lábios, abriram-se, ligando uma passagem — uma via de saída da fauna do espelho para este plano.
Localizado a cerca de 700 milhões de anos-luz da Terra, atravessava todo o caminho em direção a esta região do universo com pouquíssimas galáxias, através da passarela policromática que os ligava à constelação de Boötes.
Da passarela, três caminhos brilharam mais do que tudo. Suas almas resplandeciam em sete cores, contaminando o ambiente com uma luz única, característica de cada uma delas.
"— Para cada história, um escolhido da dádiva foi designado entre as figuras que mudaram a estrutura do mundo. Os ciclos giram agora em um único destino; desfiaremos o nó da existência e os mistérios que a compõem."
Se o mundo é a tela branca, o Rei de Preto é a tinta negra que o transforma e dá vida ao seu interior.
Engrenagens: personificações das leis da natureza, essências de manutenção e expansão do universo.
"— Morto ou vivo? Que pergunta mais estúpida a se fazer para o rei que dá forma a toda a matéria. Para aqueles que estão de pé diante do Rei de Preto, uma saudação faz-se necessária." — O servo fiel deu um passo à frente.
Por obrigação ou respeito — o motivo não se sabe —, apenas se viu que, ao rei, todos mostraram reverência em uma saudação.
"— Sou aquele que pode te libertar, trazer à tona a essência além do véu das dimensões" — sussurrou a voz, um eco etéreo que parecia vir de todos os lugares e de nenhum ao mesmo tempo. A vontade do rei manifestou-se em um labirinto de paradoxos e pesadelos.
"— O véu do além. Quem, em um momento de desatenção ou pura audácia, levanta o tecido para espiar, testemunha o horror daquele sentado no trono esculpido em jade negra. Humano? A aparência traz levemente essa sensação; humanoide a milhões de quilômetros. Uma altura muito acima das meras micobactérias que compõem a existência."
Profundo, perturbador, insondável. Exalando um brilho azul-celeste que escapava pelas rachaduras em seu peito, este se erguia até o topo de sua cabeça, cujas laterais se levantavam como lâminas afiadas e, na parte de trás, como uma coroa distorcida: seu próprio reflexo.
"— Antes que a única coisa que os agraciou desapareça por completo, presenteio-os com duas portas: uma escura e a outra branca."
Assistindo a tudo o que ocorria, desdobrando os eventos através da dimensão espelhada, Rénlèi Shén trazia os sete selos em seu braço direito e três fileiras com seis marcas no esquerdo.
Então, as chamas tomaram forma cortando como uma língua de fogo vibrante, dividindo-se em quatro cores: branca, vermelha, preta e amarela.
Rasgando o céu em fogo vivo num firmamento tempestuoso, queimavam ao redor. Em seguida, um bode acinzentado correu; houve um violento terremoto, o Sol tornou-se escuro como tecido de luto e a Lua ficou toda vermelha como sangue.
"— Quem é aquele… que a mim enviou e me fez retornar? Eu sou… Abaixo de teu pé, sou apenas este meu traço; o caminho do meio sou eu."
Movendo o dedo, o silêncio recaiu como o decreto de um imperador.
"— Tu és o Lorde, e eu sou teu servo… Digo com completa resolução que as coisas impuras de barro lá embaixo não merecem o vosso amor. Por que ter carinho por estes erros?"
E contudo, mesmo diante de sua indagação voraz, o silêncio foi sua única resposta.
『De onde vens?』
"— Venho de lá de baixo… De rodear a Terra e passear por ela."
『Observaste tu o meu servo? Pois não há nada neste vasto universo que abriga as estrelas que contenha o brilho presente no coração destas crianças.』
"— Não há nada que possa ser dito por teu servo; contudo, peço-te permissão: deixa-me estender a minha mão e tocar-lhes em tudo quanto têm no coração, em provação às tuas crianças, e verás se não blasfemam contra ti em tua face!"
E disse Ele, ao fim do longo silêncio:
『Eis que tudo quanto têm está na tua mão; somente contra suas vidas não estendas a tua mão.』