Gostei muito das bocas nas paredes sussurrando verdades demais. Medo que entra pelo ouvido é o meu tipo favorito de medo 🕯️
Manuscrito das três faces
Terra dos filhos de Seth
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Pensamento
Gostei muito das bocas nas paredes sussurrando verdades demais. Medo que entra pelo ouvido é o meu tipo favorito de medo 🕯️
Conteúdo da publicação
Terra dos filhos de Seth
Atravessando a estrada limpa, onde altas árvores escondiam o que havia por trás delas, viam-se à sua direita vastos campos por onde pastava o gado.
No silêncio da viagem, acompanhado da única presença que o seguia não importa aonde fosse, a voz estava presente em sua mente.
Perdido em delírios e devaneios que ressurgiam do passado, algo o puxou de volta para a sua realidade. Bem diante dos seus olhos, o pôr do sol emitiu uma tonalidade vermelho-sangue radiante; o espaço dobrou-se em bordas, rachando e estilhaçando-se em bilhões de pedaços, revelando por trás da matéria o abismo escuro e gélido, girando infinitamente em um vórtice demoníaco.
Puxado para dentro deste abismo amorfo por uma violenta força gravitacional, seu corpo foi achatado, deformado e comprimido, tragado para dentro como uma fina linha de costura.
Cada partícula, órgão e fibra que compunham seu corpo foram retorcidos, reescritos e afinados de forma brutal. Mas não havia dor. Não porque o processo fosse indolor — pelo contrário —, mas o motivo da ausência de dor dava-se puramente pela velocidade com que foi puxado: no limite do tempo de reação do cérebro, tudo já havia ocorrido.
Ao abrir os olhos: surpresa, espanto e excitação pelo fenômeno testemunhado. Pulsando e batendo como tambores, o céu ardia em fogo vivo e as vozes ecoavam como um estrondo, para logo em seguida **terminarem** com a passagem do ímpeto monstruoso de um meteoro — não um meteoro, mas algo com tamanha potência de disparo que chegava a ser confundido —, deixando para trás uma cauda flamejante no céu e abrindo passagem para a descida das águas primordiais, as águas negras de Nun.
— Lindo, não acha?
— Hã? — Confuso e atordoado, ele olhou com os olhos arregalados para o ser estranho ao seu lado. — **Qu...** Quem é... você? Como chegou tão…
— Shh… Isso não importa agora. Tudo o que importa são as coisas… — De fala mansa e relaxada, disse o estranho vestido com um terno preto de camisa interna vermelha, escondendo o rosto atrás de uma máscara de oni. — Lá vem!
— Vem o quê?!
— Aboleths!
Saindo das águas de Nun, tentáculos longos e pálidos excretavam uma secreção de muco mutagênico. Tal presença causou um cisma no tecido do espaço, provocando uma reação imediata do mundo.
Como uma resposta à descida destas criaturas ancestrais, tanto jinn quanto contratante foram prontamente puxados pela passarela policromática.
— Em verdade, do primeiro Khaos surgiu a nova ordem, mas depois veio, de seios fartos, a Terra, e os alicerces sempre seguros dos Grandes Antigos sustentam as leis. Do Khaos vieram também a escuridão e a noite. Atravessando por este caminho rumo ao potencial do sol, a casa protogenia, o povo ariano… Deles você saberá a partir de agora.
Bombeando como um coração, o tecido dos sonhos explodiu o espaço, invocando tentáculos pálidos vindos diretamente do abismo; incontáveis olhos surgiram nas paredes, acompanhados por bocas que sussurravam verdades demais.
Vhoorn caminhava por aquele espaço corrompido com o auxílio de seu bastão de ouro, devorando não a matéria, mas o próprio espaço. Sua presença dobrava, torcia e engolia as dimensões, apagando as distâncias e fazendo com que locais distantes se tornassem infinitamente curtos.
Reinando o silêncio e guiando em um tour pelo núcleo dos sonhos, o jinn com máscara de oni ergueu seu lampião e o direcionou ao interior de uma caverna escura.
Na ausência da visão, os outros sentidos se afloraram: o gotejar da água escorrendo entre as estalactites produzia um eco agudo que se propagava por cada canto da caverna até atingir o ouvido do escolhido, intensificado pela privação da luz.
O suor frio escorreu, encharcando-lhes as costas. Atento e alerta, o escolhido avançara um passo de cada vez, em cautela constante.
— **Hmm...** haa, assim se começa a trilhar o caminho: a busca do eu, o eu cuja resposta não vemos por estarmos com os olhos **tapados** pela mão da ignorância. — Erguendo o lampião, o jinn com máscara de oni olhou uma última vez antes de apagar a chama, devolvendo o derradeiro resquício de luz ao breu absoluto.
Mesmo olhando para este abismo pulsante e borbulhante, seu olhar não vacilou; manteve-se firme, perseverando diante de uma vontade maior que o incentivava, até que sua mente se limpou. Virando o olhar para ele e, em seguida, voltando o rosto para a piscina negra, deu o primeiro passo, afundando cada vez mais, descendo para a terra dos filhos de Sete.
Um cavaleiro branco com arco e coroa sai para conquistar: o falso salvador, o enganador religioso. Aquele que porta no coração o desejo de expansão, poder, domínio e conquista.
E assim a penúltima trombeta tocou.
Thoughts
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PermalinkFiquei mais inquieta com a explicação da falta de dor do que com os tentáculos todos. Tudo acontecer antes de o cérebro dar por isso é uma ideia que me ficou, e não é das confortáveis.
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PermalinkGostei muito das bocas nas paredes sussurrando verdades demais. Medo que entra pelo ouvido é o meu tipo favorito de medo 🕯️
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PermalinkSeth no título e Sete na última frase, e com as águas de Nun logo ali no meio o nome serve para os dois lados: o filho de Adão e o deus egípcio do caos. Gostei muito desse jogo, me fez pensar em qual dos dois manda nessa terra onde ele acabou de afundar! Vai postar a continuação do manuscrito?
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PermalinkRi alto quando ele pergunta vem o quê no meio daquele caos todo. Depois de tanto vórtice e água primordial, é a reação que eu teria, mano.
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