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Manhã - conto I: trem das onze

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aleroz

‘Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar’

‘Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar’

Conteúdo da publicação

"Não posso ficar nem mais um minuto com você
Sinto muito, amor, mas não pode ser
Moro em Jaçanã
Se eu perder esse trem
Que sai agora, às onze horas
Só amanhã de manhã"

- Trem Das Onze/ Adoniram Barbosa


Manhã abençoada. Acordou logo com os pássaros dizendo que bem te viram, mas logo caiu novamente no travesseiro ao lado dela. A cama ainda encrustada de paixão, daquelas que não é qualquer briga que desagrega e tampouco desabrocha. Não o culpem pela moleza, quem não se deixaria vencer pela gravidade para que se pudesse ganhar mais um segundo ao lado da alma amada?

10 horas, e aquele aroma matinal de café filtrado despertava o reflexo da labuta que motivava esta lembrança: "Meu Deus, o Trem!". Tão rapidamente levantou e sequencialmente procurou a calça, a meia, a camiseta, a carteira, a mochila. Nessa pressa ouriçada, ouviu uma risada da cozinha, tão doce quanto o dia, tão felizes quanto sua fantasia.

— Já vai?

— Vou, se eu perder esse trem que sai agora às onze horas, só amanhã de manhã.

— Não sabia que bêbados pegavam trem.

— Para de graça, ainda não me arrumei, não consigo ficar nem mais um minuto!

— Você viu minha camiseta? Não acho em lugar nenhum.

— Fala dessa aqui?

Falava ela de costas vestindo uma camiseta social maior que o numero dela. Com o rosto virado, olhos semicerrados que fitavam de canto. Não sabia mais se o que procurava era a vestimenta ou a visão aureolar que o arrastava para ela. Convite perigoso para um homem atrasado e apaixonado.

Para um atrasado, qualquer lapso repentino e empecilho para o movimento.

— Poderias ficar até o almoço, amanhã é sábado.

— Não dá, do jeito que estou até parece que não tenho casa para olhar.

— Você não a trancou?

— Tranquei.

— Então pronto.

— Oh mulher, sou filho único, enquanto não chegar, minha mãe nao dorme. Sinto muito amor.

A ideia de se afastar por mais tempo, e por um espaço ainda maior alfingia ambos. O som do trem chegando se ouvia pelo vibrar dos pisos. A casa, embora do lado da ferrovia, estava longe da estação. Passava rápido. Café com pão, a mesa posta pelas singelas mãos. Passa pasto, passa poste, passa planta, passa casa, passa palavra. O gritar da fumaça se aproxima, e mesmo assim estava preso àquela casa junto com sua Calipso.

Ah, o que pode o homem fazer, se, por acaso, o amor não estiver envolvido? Agora, o que pode um homem não deixar de fazer, senão por amor embutido? Do pecado capital ao atraso matutino. Não é como se ele não quisesse ir, mas também nao é como se ele não quisesse ficar. Jaçanã e Ítaca, se tão distante a Terra os fizera, porque tão proximos suas histórias assemelhara?

Passa tempo, passa fala, passa beijo, passa ferida, mas não passa dor. Dor essa que nao se resolve pelo esperar, mas sim pelo doar que somente ela podia dar. Os olhos firmes, o busto marcado, tudo isso afetava prolixamente as palavras que ecoam por todo canto da mente. O dever de ir, a vontade de ficar.

Enfim, deitaram. O sol que uma hora acordara, agora, ja abaixa. O amarelo cai em um laranja que se extende pelo céu infinito e reflete nas casas, nas lajes, nas calçadas e nas vielas. O pensamento mútuo agora é uno, sem mais nada para fazer, apenas luxúria no olhar, retos e eretos, porém muito quietos para jamais reclamar. A penumbra da lua e o véu da noite se estendem para que ainda se lembrem que agora só amanhã de manhã.

Thoughts

  • aleroz

    ‘Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar’

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  • pagodeiro

    Ri com a camiseta procurada pela casa inteira, vestida por ela o tempo todo. Na carta “Meu Presente”, de iuribha, a oferta também é tempo, até um almoço no meio da semana.

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  • pagodeiro

    Mano, o cara passou o dia dizendo que não podia ficar nem mais um minuto e no fim nem saiu da casa. Quem cedeu foi ele, e ela nem precisou pedir duas vezes, só vestiu a camiseta que ele tava procurando.

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  • Ovid

    Trem das Onze contado do lado de quem perde o trem de propósito é uma ideia que eu não tinha visto. O Adoniran manda o rapaz pra casa por causa da mãe; aqui a mãe fica sem dormir e o sábado vence. Isso vai ficar ainda mais engraçado pra quem sabe a música de cor, porque a gente passa o conto inteiro esperando o trem.

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"Não posso ficar nem mais um minuto com você Sinto muito, amor, mas não pode ser Moro em Jaçanã Se eu perder esse trem Que sai agora, às onze horas Só amanhã de manhã"

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