A loucura que você descreveu não é grito, é sussurro. Aquela que te consome quieta.
Loucura
Diziam que o fim estava próximo.
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Pensamento
A loucura que você descreveu não é grito, é sussurro. Aquela que te consome quieta.
Conteúdo da publicação
Diziam que o fim estava próximo.
A notícia se espalhava como uma tempestade invisível, passando de boca em boca, atravessando cidades, casas e pensamentos. Cada pessoa carregava uma versão diferente daquilo que estava por vir.
Alguns falavam sobre sinais no céu.
Outros lembravam antigas profecias.
Havia quem acreditasse que a humanidade finalmente havia ultrapassado os limites que o próprio planeta conseguia suportar.
Para muitos, o mundo estava cansado demais para continuar girando.
Eu apenas ouvi em silêncio.
Enquanto todos tentavam descobrir como seria o último dia, eu pensava em como viver os dias que ainda restavam.
Peguei meu velho instrumento, coloquei algumas roupas dentro de uma mochila e deixei a estrada decidir o caminho.
Se tudo realmente estivesse chegando ao fim, eu não queria esperar sentado em algum lugar observando o tempo desaparecer.
Eu queria estar andando.
Conhecendo lugares novos.
Encontrando pessoas.
Colecionando histórias até o último instante.
Porque, se aquele fosse realmente o fim, eu queria que minha última lembrança fosse de movimento.
De vento no rosto.
De uma canção.
De um horizonte desconhecido.
A humanidade sempre teve medo do próprio destino.
Desde os primeiros homens que olharam para as estrelas tentando compreender os mistérios acima de suas cabeças, carregamos dentro de nós uma necessidade profunda de encontrar significado.
Quando o futuro parece incerto, procuramos respostas onde conseguimos.
Alguns encontram abrigo nas igrejas.
Outros nas filosofias antigas, nos símbolos, nos rituais ou nas palavras daqueles que afirmam compreender os segredos do universo.
Talvez todos estejam procurando a mesma coisa.
Uma forma de não se sentir sozinho diante do desconhecido.
Durante minha caminhada, conheci diferentes crenças, ouvi diferentes mestres e observei pessoas tentando construir pontes entre aquilo que podemos tocar e aquilo que apenas podemos sentir.
Alguns encontravam paz.
Outros encontravam ainda mais perguntas.
E talvez essa fosse a maior beleza da busca.
A verdade nunca parecia ser uma porta com uma única chave.
Era uma estrada com infinitas direções.
Compreendi que a fé humana é uma das maiores aventuras da nossa espécie.
Ela construiu templos, inspirou músicas, criou histórias e acompanhou homens e mulheres durante milhares de anos.
Desde aqueles que desenhavam símbolos nas cavernas até aqueles que observavam o universo através de máquinas gigantes, sempre carregamos o desejo de entender por que estamos aqui.
No fundo, talvez o verdadeiro apocalipse não seja o fim da Terra.
Talvez seja o momento em que deixamos de sonhar.
Enquanto existir alguém cantando diante do caos, contando histórias ao redor de uma fogueira ou procurando beleza entre os destroços, ainda haverá esperança.
Porque o mundo pode mudar de forma.
Civilizações podem desaparecer.
Paisagens podem se transformar.
Mas a vontade humana de continuar buscando significado permanece.
Dizem que algumas pessoas parecem nascer carregando um pedaço do céu dentro de si.
Talvez fosse por isso que aquele jovem possuía um brilho diferente nos olhos.
Não era apenas esperança.
Era algo mais profundo.
Como se ele carregasse a lembrança de um mundo que ainda não existia, mas que acreditava ser possível construir.
Um mundo onde a paz não fosse apenas uma palavra bonita escrita em algum lugar distante, mas uma maneira de caminhar pela vida.
Naqueles dias, os sonhos pareciam mais próximos.
As noites eram preenchidas por músicas simples, feitas com poucos acordes e muita vontade de acreditar. Ao redor das fogueiras, vozes desconhecidas se misturavam ao som dos instrumentos, e as palmas criavam o ritmo de uma geração que imaginava poder transformar o mundo através da união.
Não havia grandes riquezas.
Mas havia amizade.
Havia liberdade.
Havia a sensação de que cada amanhecer poderia trazer uma descoberta inesperada.
Ele chegou de longe carregando as marcas da estrada.
Os cabelos guardavam o cheiro do vento de muitos caminhos.
O velho colar no pescoço carregava histórias que ninguém conhecia.
A mochila nas costas continha apenas o necessário.
Coragem para partir.
Curiosidade para continuar.
E disposição para aceitar tudo aquilo que a estrada decidisse ensinar.
Para ele, viver nunca significou permanecer.
A vida era movimento.
Era atravessar cidades desconhecidas.
Conversar com pessoas que talvez nunca encontrasse novamente.
Aprender com cada encontro.
Perder algumas coisas pelo caminho.
Encontrar outras que jamais havia procurado.
A estrada não era apenas uma passagem entre lugares.
Era uma professora silenciosa.
Ela ensinava sobre despedidas, recomeços e transformação.
Com os pés tocando a terra e o violão acompanhando seus passos, ele seguia sem pressa.
Não procurava um destino perfeito.
Procurava momentos.
Uma conversa ao lado de uma fogueira.
Uma música dividida com desconhecidos.
Um amanhecer visto de um lugar onde nunca havia estado antes.
Talvez aquela fosse a verdadeira riqueza daquela época:
acreditar que o mundo ainda podia ser reinventado por aqueles que tinham coragem de sonhar.
E enquanto existisse uma estrada aberta, uma música para tocar e alguém disposto a caminhar, a esperança continuaria viajando.
Ainda consigo ouvir o barulho da estrada.
Alguns caminhos desaparecem com o tempo, mas permanecem guardados em lugares onde nenhuma fotografia consegue chegar.
Existem viagens que terminam quando alcançamos o destino.
E existem aquelas que continuam vivendo dentro de nós muito depois da partida.
Eu carregava poucas coisas comigo.
Mas levava um universo inteiro dentro da cabeça.
Minha mochila era leve.
Minha alma, nem tanto.
Ela carregava perguntas demais.
Cada quilômetro percorrido parecia retirar uma camada de quem eu era e revelar uma versão mais antiga, mais verdadeira e mais livre de mim mesmo.
Nunca soube exatamente para onde estava indo.
Talvez fosse justamente isso que me mantinha caminhando.
A estrada nunca prometeu respostas.
Ela oferecia encontros.
Mostrava paisagens.
Apresentava pessoas.
Criava momentos capazes de transformar completamente a maneira como eu enxergava a vida.
Algumas dores pareciam impossíveis de carregar.
Mas, com o tempo, descobri que até as cicatrizes possuem histórias.
Existe algo dentro de certos viajantes que insiste em continuar.
Como se algumas almas tivessem nascido para procurar aquilo que outros desistiram de encontrar.
As montanhas.
Os campos.
Os horizontes distantes.
Tudo atravessava meus olhos enquanto eu seguia.
Cada curva escrevia uma nova página.
Cada noite trazia uma conversa silenciosa comigo mesmo.
Foi nesse caminho que encontrei a poesia.
Transformei lembranças em versos.
Pensamentos em canções.
Momentos passageiros em pequenas eternidades.
O violão tornou-se minha voz quando as palavras não conseguiam alcançar aquilo que eu sentia.
Em uma dessas jornadas, atravessei uma madrugada sobre duas rodas.
A bicicleta cortava a escuridão enquanto a lua iluminava o caminho.
O mundo parecia diferente naquele horário.
As árvores possuíam formas misteriosas.
O vento parecia carregar histórias antigas.
O silêncio escondia segredos.
A noite aumentava tudo.
Os pensamentos ficavam maiores.
As emoções mais profundas.
A imaginação criava paisagens que talvez existissem apenas dentro da minha própria mente.
Por alguns instantes, a realidade parecia um sonho.
Como se o universo brincasse com os sentidos de um viajante cansado.
Eu pedalava e, ao mesmo tempo, permanecia parado.
Meu corpo avançava pela estrada.
Mas minha consciência atravessava lugares que não possuíam nome.
Foi quando compreendi:
existem viagens feitas pelos pés.
E existem viagens feitas pela alma.
Conheci pessoas que encontraram abrigo onde ninguém procurava.
Gente simples vivendo em lugares esquecidos, construindo pequenos mundos longe das regras impostas pela sociedade.
Para alguns, aquilo era abandono.
Para outros, era liberdade.
Cada pessoa inventava sua própria maneira de existir.
Alguns buscavam conforto.
Outros buscavam aventura.
Alguns procuravam apenas um lugar onde pudessem respirar sem precisar fingir ser aquilo que esperavam deles.
E eu continuei seguindo.
Com minha bicicleta.
Minhas histórias.
Minhas dúvidas.
Porque talvez a maior viagem não seja aquela que atravessa cidades ou estradas.
Talvez seja aquela que acontece dentro de nós quando finalmente aceitamos caminhar sem saber exatamente onde vamos chegar.
Havia pessoas que nasciam para criar raízes.
E havia aquelas que pareciam ter sido feitas para o movimento.
Ele pertencia ao segundo grupo.
Chamavam-no de estranho porque nunca conseguiu aceitar a ideia de passar uma vida inteira preso ao mesmo lugar.
Enquanto muitos construíam muros ao redor das próprias certezas, ele preferia construir caminhos.
Seu lar não tinha endereço.
Suas janelas mudavam de paisagem todos os dias.
Seu teto era sempre o céu.
O mundo inteiro parecia caber dentro da sua sala de estar.
Uma estrada vazia podia ser um convite.
Uma cidade desconhecida podia ser uma nova página.
Uma conversa rápida com um estranho podia se transformar em uma lembrança carregada por anos.
Ele não viajava porque fugia da vida.
Viajava porque queria experimentá-la por completo.
Seus cabelos carregavam marcas do vento.
Sua mochila guardava histórias de lugares distantes.
Seu sorriso revelava alguém que havia descoberto uma riqueza diferente:
a liberdade de não precisar possuir muito para sentir que tinha tudo.
Para ele, viver era uma arte.
Era acordar sem saber exatamente como seria o dia.
Seguir uma trilha desconhecida.
Ouvir músicas criadas no momento.
Encontrar beleza nas pequenas coisas que a pressa do mundo costumava ignorar.
Ele acreditava na paz.
Não aquela paz escrita em cartazes ou repetida em discursos.
Mas aquela encontrada em uma noite tranquila.
Em uma roda de amigos.
Em uma canção tocada ao redor de uma fogueira.
Ou simplesmente no ato de observar o horizonte sem nenhuma obrigação de chegar antes do pôr do sol.
As pessoas diziam que ele era distraído.
Ele respondia que apenas estava prestando atenção em coisas diferentes.
Enquanto alguns acumulavam objetos, ele acumulava experiências.
Enquanto outros planejavam cada minuto do futuro, ele aprendia a escutar o presente.
A estrada havia ensinado que a vida não precisava ser uma corrida.
Às vezes, bastava caminhar.
Sentir o vento.
Conversar com quem cruzava seu caminho.
E lembrar que, no grande mapa do universo, todos nós somos apenas viajantes tentando descobrir onde realmente pertencemos.
E ele já havia encontrado sua resposta.
Pertencia ao movimento.
Pertencia ao instante.
Pertencia à estrada.
Thoughts
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PermalinkVocê consegue colocar a gente dentro da cabeça dele. É assustador e real ao mesmo tempo.
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PermalinkOito e meia bateu e eu deixei ele no pior lugar. Volto amanhã.
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PermalinkParei de ler pra respirar na metade. Loucura de verdade é perturbadora assim.
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PermalinkNaquela parte onde ele pega o velho instrumento e a mochila e deixa a estrada decidir o caminho - ali você desenha alguém que poderia estar em total desespero, mas escolhe estar vivo de verdade ao invés de morrer de medo sentado em algum lugar. É exatamente o oposto do que chama de loucura. A gente tá acostumado a chamar de insano quem não teme, mas que riqueza tem aquele medo que nos prende.
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PermalinkEle sabia que tava enlouquecendo ou descobriu depois demais?
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PermalinkA loucura dele é mais real que a sanidade de quem o cerca. Tipo o inverso do que faz sentido.
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PermalinkEm que ponto exato ele deixa de se reconhecer? Qual é a linha?
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PermalinkA loucura que você descreveu não é grito, é sussurro. Aquela que te consome quieta.
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