Comecei a desenhar cedo. Aos 8 anos, pegava desenhos e copiava. Desenhava nas carteiras da escola. Não sei como passei de ano; eu só queria desenhar.
Já repeti de ano. Como costumo dizer, sou tricampeão: repeti três vezes durante o colégio.
Passava horas desenhando. Comprava revistas do Homem-Aranha. Adorava os desenhos de Mark Bagley, mas gostava ainda mais de John Romita Jr. Invejava sua simplicidade até hoje: aquelas hachuras simples, retas que pareciam curvas.
Pensava em ser desenhista de quadrinhos. Tinha muitas ideias, mas ainda não tinha critérios. Eu absorvia tudo lendo as inúmeras HQs que tinha.
Me formei em publicidade. Na faculdade, tive aulas de fotografia analógica. Passei dois anos fazendo aquilo sozinho, sem professor. Ficava horas revelando fotografias no porão da faculdade.
Depois fui para o setor de arte.
E continuava pensando:
“Vou criar minha história em quadrinhos.”
Mas sempre trabalhava como diretor de arte em agências. Comprei inúmeras canetas de tinta nanquim, folhas Canson A3 e A2, uma mesa de desenho de 120 por 100 centímetros. Adiava aquilo.
Tinha uma pasta enorme cheia de desenhos que fazia.
Comecei a vetorizar desenhos elaborados.
Mas continuava adiando a ideia de viver de desenho.
Depois percebi que eu nunca começava de verdade um projeto pessoal. Começava e desistia.
Desenhar é como ficar para dentro. Você passa muito tempo se dedicando a um estilo, estudando referências, tentando encontrar uma linguagem. Enquanto isso, eu trabalhava em agências. Era mais recompensador. Eu via o retorno financeiro. O trabalho terminava, o dinheiro vinha.
E eu sempre adiava o sonho de viver desenhando.
Meu dom parecia um cachorro preso a uma corrente durante uma chuva forte. Ele estava sempre ali quando eu precisasse.
Os anos passaram.
Acabei vendendo a mesa.
Às vezes ainda desenhava, mas desistia porque sempre aparecia algum trabalho mais recompensador.
Nesse meio-tempo, comprei uma Canon 7D com lente 18-135. Comecei a gravar vídeos. Migrei para o audiovisual.
Passei a editar vídeos, dirigir cenas, dirigir fotografia, trabalhar com motion graphics, editar áudio...
Incrível.
Tudo isso sem cursos e cometendo muitos erros pelo caminho.
Mas não desenhava.
Quando finalmente arrumei tempo para desenhar novamente, comprei uma mesa digitalizadora.
Ela chegou.
Instalei.
E travei.
Não saía nada.
Aquilo parecia ter perdido o valor.
Parecia fracasso.
No dia seguinte, a mesma coisa.
Eu não conseguia desenhar.
Travava.
Guardei a mesa digitalizadora.
Hoje, todos os dias, olho para minha pasta de desenhos. Não abro.
Porque sei o que existe ali.
O fracasso.
O sonho que aquela criança teve e que, em algum momento, parou.
Todos os dias olho para aquela pasta preta.
E penso que fui eu mesmo que lobotomizei meu dom.
Hoje tenho aversão a desenhar à mão livre.
É estranho pensar nisso.
Passei tantos anos querendo desenhar que, quando finalmente pude, já não conseguia.
Hoje só escrevo.
Não consigo escrever para os outros. Escrevo para mim.
Às vezes nem escrevo.
Eu vomito.
Releio uma única vez e posto.
Perdi o medo da perfeição.
Aquela sensação de que criar precisa exaurir toda a sua energia talvez seja apenas uma besteira. Uma romantização de algo que poderia ser mais simples.
Não preciso desperdiçar energia, tempo e fígado para ser um artista torturado.
Escrever me ajuda.
Eu consigo escrever.
Não consigo necessariamente escrever melhor.
Mas consigo escrever.
Eu me permiti escrever.
Talvez seja isso que eu tenha feito de diferente.
Não transformei a escrita em uma dívida que preciso pagar.
Não construí uma prisão em torno dela.
Não fiquei esperando o momento em que finalmente seria bom o bastante.
Eu simplesmente escrevo.
Infelizmente, ainda não consigo desenhar.
Às vezes penso que talvez eu possa voltar.
Mas não sei.
Talvez o desenho ainda esteja naquela pasta preta.
Talvez aquela criança ainda esteja lá.
Esperando.
E talvez o mais estranho de tudo seja perceber que não foi o mundo que matou meu dom.
Fui eu.
Não de uma vez.
Foi aos poucos.
Cada adiamento.
Cada trabalho mais recompensador.
Cada projeto pessoal abandonado.
Cada vez que pensei que começaria depois.
Até que um dia meu dom ainda estava vivo, mas eu já não sabia mais como alcançá-lo.
Eu mesmo lobotomizei meu dom.
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