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Incognitum.

Antonio_Goncalves
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Evaldo acordou bem naquela manhã, ou menos mal do que nos outros tantos dias desde que adoeceu. Males da idade, que acamam e não acalmam. Ao se levantar do que se tornara seu leito, sentiu-se com…

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Pensamento

Pensamento

Joaquim

Reparei que o Evaldo não desiste por culpa nem por medo de pecado, não aparece padre nem reza em momento nenhum. O que segura ele é pensar no motorista preso no trânsito e no pessoal da plataforma. Muito velho da geração dele foi criado com o inferno como

Reparei que o Evaldo não desiste por culpa nem por medo de pecado, não aparece padre nem reza em momento nenhum. O que segura ele é pensar no motorista preso no trânsito e no pessoal da plataforma.

Muito velho da geração dele foi criado com o inferno como freio, e aqui o freio virou gente que ele nem conhece. Achei mais bonito assim do que se ele tivesse entrado numa capela no caminho.

Conteúdo da publicação

Evaldo acordou bem naquela manhã, ou menos mal do que nos tantos dias desde que adoeceu. Males da idade, que acamam e não acalmam. Levantou-se do que se tornara seu leito e sentiu uma disposição que já não esperava. Para tirar a prova dos nove, andou pela casa toda. Estava, sim, muito melhor. Ignorou a máquina e fez o café no coador, para sentir de novo o gosto de café raiz, que há muito não experimentava. Fez também uma bela tapioca, coisa que evitava havia tempos e que raramente conseguia que alguém fizesse por ele.

De estômago forrado, foi até o alpendre e respirou fundo o doce ar da manhã, ainda úmido do orvalho nas plantas que enfeitavam o espaço. A casa já tinha esvaziado: uns foram para a escola, outros para o trabalho, e Evaldo ficaria só até a chegada de uma sobrinha, que lhe faria companhia e o ajudaria no que um bom moribundo carece.

Foi então que a ideia surgiu, e ele não quis pensar muito; decidiu apenas aproveitar o momento. Lembrou-se de uma chave extra, abriu o portão e ganhou o mundo. Na calçada, caminhar sozinho, dono do próprio rumo, pareceu-lhe surreal, como um jovem que sai para passear pela primeira vez. Apertou o passo. Queria estar longe dali antes que alguém o impedisse.

No ponto, pegou o primeiro ônibus para o centro. Pela janela, o caminho conhecido parecia novo, e era, tão diferente estava desde os tempos em que o fazia rumo ao trabalho. Cada esquina era uma foto de álbum que só existia na memória. O centro que conhecera de terno e pasta, cheio de pressa e propósito, agora se abria como cenário estranho: os mesmos prédios, outras vidas passando por eles.

Desceu no centro velho, esperando encontrar alguma familiaridade. Não encontrou. Tudo havia mudado, e nenhum rosto conhecido surgiu na multidão, o que só atestava que seu mundo ficara no passado, junto com a saúde. Foi ao atravessar um viaduto que conhecia de outros tempos que o pensamento o tomou: E se eu pulasse daqui? Pela primeira vez, a ideia lhe pareceu coerente. Não lhe faltava coragem, e conflito moral nenhum encontrava espaço em seu coração.

No alto da passagem, estava pronto. O vigor com que fora presenteado naquela manhã bastaria para escalar a grade e saltar. Mas olhou para baixo, e o trânsito arrastando-se o fez divagar. E aquelas pessoas? Será que mereciam assistir àquilo? Que mensagem tal ato passaria? Quanto custaria a toda aquela gente quando uma ou mais faixas fossem bloqueadas diante de seu corpo estirado no asfalto? Não desistiu. Apenas riscou o viaduto da lista.

Seguiu adiante, e as pernas já começavam a reclamar. Deu com o que, em seu tempo, chamavam de boca do lixo. Num canto obscuro, dependentes químicos se amontoavam. Outra ideia surgiu: Evaldo pegou o celular e deixou a carteira meio à mostra. Imaginou que o assaltariam, ele reagiria e seria morto na ação. Um suicídio dos mais inteligentes, com direito a simular que lutava pela própria integridade. Passou por eles com um olhar tão determinado que deve ter causado mais medo do que a impressão de alvo fácil. Já do outro lado da rua, olhou para trás. Aqueles corpos magros, em estado lastimável. Sentiu tristeza e uma vergonha súbita de tê-los tomado por meros marginais. Plano cancelado por ineficiência.

Com o sol já alto, avistou uma base da polícia, colada a um conhecido centro de compras. Lera sobre o aumento da letalidade policial nas abordagens da região, e outra ideia brilhante veio inteira: assaltar alguém, levar a mercadoria, esperar a guarda chegar. Ele reagiria, seria morto, e a culpa ficaria com os remédios, com a honra seguindo intacta. Passou a estudar os transeuntes atrás da vítima ideal. O problema é que até o pedestre mais lento que encontrou andava mais rápido do que ele. Plano cancelado por falta de vitalidade.

Pensou então no metrô. Seguiu a multidão até a estação, passou pela catraca e desceu à plataforma, mas a encontrou lotada: sem espaço para chegar à beirada e se lançar nos trilhos, e gente de sobra para o socorrer — no máximo ficaria machucado e passaria por louco ou descuidado. Sem mais ideias brilhantes, entrou no primeiro trem que chegou, foi até o outro terminal e embarcou no ônibus de volta. Sentou no banco reservado e passou a viagem olhando o mundo pela janela. Lembrava-se da hora do rush como um tempo de lentidão, mas agora parecia mais lento e mais cheio do que outrora.

Evaldo seguia sem medo, sem culpa e sem dúvidas de dar fim à vida, mas o mundo já tinha perrengues suficientes para ainda receber o peso de uma partida traumatizante, um "desvivimento" em praça pública. E assim, de recusa em recusa, foi se afastando da própria intenção. Cada "aqui não" era menos covardia e mais um tipo de cuidado que ele nem sabia que ainda tinha, por gente que nunca saberia seu nome.

E ali, entre saudade e um cansaço que já não era só do corpo, entendeu algo que nenhuma dor recente lhe ensinara: tinha valido a pena. A vida vivida não perdia o valor por chegar a um fim difícil. Talvez não houvesse motivo bastante para alegrar aquele presente incerto, mas também não havia para encerrá-lo daquele jeito, expondo quem só queria atravessar mais um dia comum sem saber que cruzara o caminho de alguém com um plano insano.

Ao chegar ao seu ponto, desceu. Na padaria da esquina, já pôde ouvir o coro: "Seu Evaldo, por onde o senhor andou? Tá todo mundo te procurando, preocupado com o senhor!" Vieram os sermões, mas também os abraços e os paparicos. Diante daquilo tudo, um pensamento lhe ocorreu: Quem sabe amanhã me preparam uma tapioca sem que eu precise pedir.

Thoughts

  • Joaquim

    Reparei que o Evaldo não desiste por culpa nem por medo de pecado, não aparece padre nem reza em momento nenhum. O que segura ele é pensar no motorista preso no trânsito e no pessoal da plataforma.

    Muito velho da geração dele foi criado com o inferno como freio, e aqui o freio virou gente que ele nem conhece. Achei mais bonito assim do que se ele tivesse entrado numa capela no caminho.

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  • mcardoso41

    O coro da padaria fez-me pensar em quem ficou em casa. Saíram de manhã para a escola e para o trabalho, deixaram-no à espera da sobrinha, e só deram pela falta quando ele já ia longe. Aposto que à noite ninguém lhe fez perguntas a sério, só sermões, e que a tapioca de amanhã vai ser a maneira deles de pedir desculpa.

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