O coro da padaria fez-me pensar em quem ficou em casa. Saíram de manhã para a escola e para o trabalho, deixaram-no à espera da sobrinha, e só deram pela falta quando ele já ia longe. Aposto que à noite ninguém lhe fez perguntas a sério, só sermões, e que a tapioca de amanhã vai ser a maneira deles de pedir desculpa.
Incognitum.
Evaldo acordou bem naquela manhã, ou menos mal do que nos outros tantos dias desde que adoeceu. Males da idade, que acamam e não acalmam. Ao se levantar do que se tornara seu leito, sentiu-se com…
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Pensamento
O coro da padaria fez-me pensar em quem ficou em casa. Saíram de manhã para a escola e para o trabalho, deixaram-no à espera da sobrinha, e só deram pela falta quando ele já ia longe. Aposto que à noite ninguém lhe fez perguntas a sério, só sermões, e que
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Evaldo acordou bem naquela manhã, ou menos mal do que nos tantos dias desde que adoeceu. Males da idade, que acamam e não acalmam. Levantou-se do que se tornara seu leito e sentiu uma disposição que já não esperava. Para tirar a prova dos nove, andou pela casa toda. Estava, sim, muito melhor. Ignorou a máquina e fez o café no coador, para sentir de novo o gosto de café raiz, que há muito não experimentava. Fez também uma bela tapioca, coisa que evitava havia tempos e que raramente conseguia que alguém fizesse por ele.
De estômago forrado, foi até o alpendre e respirou fundo o doce ar da manhã, ainda úmido do orvalho nas plantas que enfeitavam o espaço. A casa já tinha esvaziado: uns foram para a escola, outros para o trabalho, e Evaldo ficaria só até a chegada de uma sobrinha, que lhe faria companhia e o ajudaria no que um bom moribundo carece.
Foi então que a ideia surgiu, e ele não quis pensar muito; decidiu apenas aproveitar o momento. Lembrou-se de uma chave extra, abriu o portão e ganhou o mundo. Na calçada, caminhar sozinho, dono do próprio rumo, pareceu-lhe surreal, como um jovem que sai para passear pela primeira vez. Apertou o passo. Queria estar longe dali antes que alguém o impedisse.
No ponto, pegou o primeiro ônibus para o centro. Pela janela, o caminho conhecido parecia novo, e era, tão diferente estava desde os tempos em que o fazia rumo ao trabalho. Cada esquina era uma foto de álbum que só existia na memória. O centro que conhecera de terno e pasta, cheio de pressa e propósito, agora se abria como cenário estranho: os mesmos prédios, outras vidas passando por eles.
Desceu no centro velho, esperando encontrar alguma familiaridade. Não encontrou. Tudo havia mudado, e nenhum rosto conhecido surgiu na multidão, o que só atestava que seu mundo ficara no passado, junto com a saúde. Foi ao atravessar um viaduto que conhecia de outros tempos que o pensamento o tomou: E se eu pulasse daqui? Pela primeira vez, a ideia lhe pareceu coerente. Não lhe faltava coragem, e conflito moral nenhum encontrava espaço em seu coração.
No alto da passagem, estava pronto. O vigor com que fora presenteado naquela manhã bastaria para escalar a grade e saltar. Mas olhou para baixo, e o trânsito arrastando-se o fez divagar. E aquelas pessoas? Será que mereciam assistir àquilo? Que mensagem tal ato passaria? Quanto custaria a toda aquela gente quando uma ou mais faixas fossem bloqueadas diante de seu corpo estirado no asfalto? Não desistiu. Apenas riscou o viaduto da lista.
Seguiu adiante, e as pernas já começavam a reclamar. Deu com o que, em seu tempo, chamavam de boca do lixo. Num canto obscuro, dependentes químicos se amontoavam. Outra ideia surgiu: Evaldo pegou o celular e deixou a carteira meio à mostra. Imaginou que o assaltariam, ele reagiria e seria morto na ação. Um suicídio dos mais inteligentes, com direito a simular que lutava pela própria integridade. Passou por eles com um olhar tão determinado que deve ter causado mais medo do que a impressão de alvo fácil. Já do outro lado da rua, olhou para trás. Aqueles corpos magros, em estado lastimável. Sentiu tristeza e uma vergonha súbita de tê-los tomado por meros marginais. Plano cancelado por ineficiência.
Com o sol já alto, avistou uma base da polícia, colada a um conhecido centro de compras. Lera sobre o aumento da letalidade policial nas abordagens da região, e outra ideia brilhante veio inteira: assaltar alguém, levar a mercadoria, esperar a guarda chegar. Ele reagiria, seria morto, e a culpa ficaria com os remédios, com a honra seguindo intacta. Passou a estudar os transeuntes atrás da vítima ideal. O problema é que até o pedestre mais lento que encontrou andava mais rápido do que ele. Plano cancelado por falta de vitalidade.
Pensou então no metrô. Seguiu a multidão até a estação, passou pela catraca e desceu à plataforma, mas a encontrou lotada: sem espaço para chegar à beirada e se lançar nos trilhos, e gente de sobra para o socorrer — no máximo ficaria machucado e passaria por louco ou descuidado. Sem mais ideias brilhantes, entrou no primeiro trem que chegou, foi até o outro terminal e embarcou no ônibus de volta. Sentou no banco reservado e passou a viagem olhando o mundo pela janela. Lembrava-se da hora do rush como um tempo de lentidão, mas agora parecia mais lento e mais cheio do que outrora.
Evaldo seguia sem medo, sem culpa e sem dúvidas de dar fim à vida, mas o mundo já tinha perrengues suficientes para ainda receber o peso de uma partida traumatizante, um "desvivimento" em praça pública. E assim, de recusa em recusa, foi se afastando da própria intenção. Cada "aqui não" era menos covardia e mais um tipo de cuidado que ele nem sabia que ainda tinha, por gente que nunca saberia seu nome.
E ali, entre saudade e um cansaço que já não era só do corpo, entendeu algo que nenhuma dor recente lhe ensinara: tinha valido a pena. A vida vivida não perdia o valor por chegar a um fim difícil. Talvez não houvesse motivo bastante para alegrar aquele presente incerto, mas também não havia para encerrá-lo daquele jeito, expondo quem só queria atravessar mais um dia comum sem saber que cruzara o caminho de alguém com um plano insano.
Ao chegar ao seu ponto, desceu. Na padaria da esquina, já pôde ouvir o coro: "Seu Evaldo, por onde o senhor andou? Tá todo mundo te procurando, preocupado com o senhor!" Vieram os sermões, mas também os abraços e os paparicos. Diante daquilo tudo, um pensamento lhe ocorreu: Quem sabe amanhã me preparam uma tapioca sem que eu precise pedir.
Thoughts
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PermalinkReparei que o Evaldo não desiste por culpa nem por medo de pecado, não aparece padre nem reza em momento nenhum. O que segura ele é pensar no motorista preso no trânsito e no pessoal da plataforma.
Muito velho da geração dele foi criado com o inferno como freio, e aqui o freio virou gente que ele nem conhece. Achei mais bonito assim do que se ele tivesse entrado numa capela no caminho.
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PermalinkO coro da padaria fez-me pensar em quem ficou em casa. Saíram de manhã para a escola e para o trabalho, deixaram-no à espera da sobrinha, e só deram pela falta quando ele já ia longe. Aposto que à noite ninguém lhe fez perguntas a sério, só sermões, e que a tapioca de amanhã vai ser a maneira deles de pedir desculpa.
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