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GUARDIÃO DA NOITE, O SENTINELA DAS TREVAS

Eduardo13

Conteúdo da publicação

A chuva caía sobre a cidade de São Paulo. As ruas de Santo Amaro estavam quase desertas, iluminadas apenas pelos postes e pelos faróis dos poucos carros que atravessavam a madrugada.

Naquela noite, dois destinos estavam prestes a se cruzar.

Carlos Josué, um homem simples e trabalhador, havia saído para resolver alguns problemas antes do nascimento de seus filhos gêmeos. Porém, no caminho de volta para casa, acabou sendo vítima da violência das ruas, uma sombra negra foi vista por ele antes do fim. Encontrado gravemente ferido, não resistiu. Sua morte seria registrada como mais um caso policial, perdido entre tantos outros que aconteciam diariamente na metrópole.

Na mesma noite, sua esposa, Marta, estava internada na Maternidade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo

Apesar das complicações do parto, ela conseguiu dar à luz dois meninos saudáveis.

— São dois lindos garotos, dona Marta! — disse uma enfermeira, colocando os recém-nascidos perto dela.

Marta estava exausta. Mesmo sentindo que suas forças estavam desaparecendo, sorriu ao contemplar os filhos.

— Meus pequenos... Meus dois anjinhos...

Ela acariciou delicadamente o rosto de cada um.

— Vocês vão crescer juntos, meus amores. Um sempre vai cuidar do outro. Prometam isso à mamãe...

Os bebês choraram baixinho, como se respondessem àquelas palavras.

Mas Marta não teve tempo de ouvir o primeiro choro dos filhos por muito tempo. Seu estado piorou rapidamente. Os médicos tentaram salvá-la, mas, apesar de todos os esforços, ela morreu naquela madrugada.

Quando a notícia chegou aos funcionários do hospital, ninguém sabia o que fazer com os dois órfãos. O pai estava morto, a mãe havia falecido no parto e nenhum parente tinha sido localizado.

Os meninos foram acomodados juntos no berçário, identificados como Bebê A e Bebê B, enquanto a administração tentava encontrar uma solução.

Naquela primeira noite, nada aconteceu.

Na segunda, porém, o impossível começou.

Capítulo 2 — As sombras do berçário

Eram aproximadamente três horas da madrugada quando uma enfermeira ouviu um ruído vindo do corredor.

Não era o choro de uma criança, nem o barulho de algum equipamento.

Era o som de correntes arrastando-se pelo chão.

Clang... clang... clang...

Ela saiu da sala de enfermagem e olhou para o corredor vazio.

— Tem alguém aí?

Nenhuma resposta.

Quando voltou os olhos para o berçário, percebeu algo que fez seu sangue gelar.

Uma sombra negra, alta e disforme, atravessava a parede como se ela não existisse.

A enfermeira Sarah tentou gritar, mas a voz não saiu.

Ao mesmo tempo, uma luz branca surgiu do outro lado da sala. Não era a luz de uma lâmpada. Era uma presença luminosa, de contornos humanos, que parecia irradiar uma paz inexplicável.

As duas figuras permaneceram imóveis por alguns segundos, separadas pelos berços dos gêmeos.

Então a sombra negra se inclinou na direção de um dos bebês.

A figura luminosa reagiu imediatamente.

O ar ficou pesado. As lâmpadas começaram a piscar. Os aparelhos eletrônicos emitiram sons descontrolados, e uma corrente de vento atravessou o ambiente fechado.

A enfermeira caiu de joelhos.

Quando conseguiu levantar a cabeça, as duas figuras haviam desaparecido.

E os dois bebês também.

Os berços estavam vazios.

A polícia foi chamada. O hospital foi isolado. Funcionários, médicos e seguranças foram interrogados. As câmeras disponíveis não registraram nenhuma entrada ou saída suspeita.

Nenhuma janela estava aberta. Nenhuma porta havia sido arrombada.

Era como se as crianças simplesmente tivessem deixado de existir.

A enfermeira Sarah, ainda em choque, repetia a mesma frase:

— Havia uma sombra... E havia uma luz... Elas vieram buscar os meninos!

Seu relato foi considerado fruto do trauma. O caso permaneceu sem solução, e, com o passar dos anos, acabou esquecido.

Mas os gêmeos não haviam morrido.

Eles haviam sido levados para um lugar que não pertencia inteiramente ao mundo dos vivos.

E lá, algo extraordinário aconteceria.

Capítulo 3 — O homem das correntes vivas

São Paulo, 2026 — Trinta e quatro anos depois.

A cidade havia mudado. Arranha-céus dominavam o horizonte, avenidas estavam tomadas por veículos e milhões de pessoas percorriam as ruas sem imaginar o que se escondia nas sombras.

Naquela madrugada, em uma região abandonada do centro, um grupo de criminosos cercava um homem caído no chão.

— Acabou para você! — gritou um deles, levantando uma barra de ferro.

Antes que o golpe fosse desferido, um ruído metálico ecoou entre os prédios.

CLANG! CLANG! CLANG!

Os criminosos olharam para cima.

No alto de um edifício, uma figura estava de pé diante da Lua.

Vestia um uniforme negro e branco, uma máscara ameaçadora e uma longa capa branca que se agitava ao vento. Correntes douradas envolviam seu corpo, movimentando-se como se possuíssem vontade própria.

Seus olhos brilhavam na escuridão.

Um dos criminosos deixou a arma cair.

— Quem... quem é você?

A figura saltou do edifício e aterrissou no asfalto com uma força que fez a água das poças se espalhar.

As correntes se desenrolaram de seus braços.

— Sou aquele que aparece quando a escuridão acredita que venceu.

Um dos homens tentou atacá-lo.

A corrente avançou sozinha, envolveu a arma e a arrancou de suas mãos. Outra prendeu as pernas de dois criminosos, derrubando-os sem lhes causar ferimentos fatais.

O restante tentou fugir.

Não conseguiu.

As correntes vivas se moveram pelos becos, bloquearam as saídas e imobilizaram os agressores até que a polícia chegasse.

O vigilante libertou a vítima e desapareceu antes da chegada das viaturas.

Minutos depois, estava no alto de outro prédio, contemplando a cidade.

Ele não combatia apenas assaltantes, assassinos e corruptos.

Havia algo muito pior crescendo sob São Paulo.

Criaturas que se alimentavam do medo. Entidades que atravessavam as paredes. Demônios que encontravam abrigo nos corações humanos. E forças antigas que estavam despertando depois de décadas de silêncio.

O homem ergueu uma das mãos.

As correntes se enrolaram em seu braço, obedecendo a um comando silencioso.

Por um instante, uma luz branca brilhou sob sua armadura negra.

Ele fechou os olhos.

— O equilíbrio está se rompendo...

O vigilante abriu os olhos.

Pela primeira vez em muitos anos, sentiu medo.

Não por si mesmo.

Mas pelo que estava prestes a acontecer.

Porque, desde aquela noite de 1992, ele acreditava que sua missão era proteger a humanidade das forças das trevas.

Agora, começava a compreender a verdade.

Ele não havia sido escolhido para combater a escuridão. Havia sido criado para impedir que ela dominasse o mundo.

E, em algum lugar da cidade, a outra metade de seu destino acabava de despertar.

SENTINELA DAS TREVAS

Capítulo 4 — O confronto dos dois guardiões

São Paulo, sexta-feira, 18h37.

O fim de semana estava começando. Depois de uma semana inteira de trabalho, milhares de pessoas deixavam fábricas, escritórios, lojas e oficinas, ansiosas para voltar para casa.

Alguns combinavam de encontrar os amigos no bar para tomar uma cerveja. Outros corriam para pegar o ônibus, enquanto famílias se preparavam para jantar juntas.

Mas, em meio àquela multidão, havia pessoas cujas intenções eram muito diferentes.

Num beco escuro de Santo Amaro, três homens discutiam como assaltar um estabelecimento comercial. Em outro ponto da cidade, um criminoso observava uma mulher caminhando sozinha. Mais adiante, um homem dominado pelo ódio preparava-se para acertar contas com um antigo desafeto.

E naquela noite, algo estava prestes a mudar.

Sob os pés dessas pessoas, as sombras começaram a se movimentar.

Primeiro, eram apenas manchas escuras no asfalto. Depois, alongaram-se contra a direção da luz, rastejando pelas paredes e envolvendo os sapatos dos homens.

Uma voz sussurrante começou a ecoar dentro de suas cabeças.

— Faça... liberte sua raiva... ninguém poderá impedi-lo...

Os olhos dos criminosos ficaram avermelhados. Seus rostos se contorceram em sorrisos perversos. Aquilo não criava a maldade do nada; apenas alimentava o que já existia dentro deles, transformando ressentimento em fúria e crueldade em desejo irresistível.

No alto de um edifício, uma figura observava tudo.

O Guardião da Noite.

Seu uniforme negro e branco refletia a iluminação da cidade. A capa branca agitava-se ao vento, enquanto as correntes douradas se moviam lentamente ao redor de seus braços, como serpentes à espera de uma ordem.

Ele fechou os punhos.

— Isso não é normal. Essas sombras estão se espalhando rápido demais.

Uma corrente ergueu-se e apontou para uma rua distante.

— Seja lá quem estiver por trás disso, vai ter que passar por mim.

As correntes dispararam, prendendo-se às estruturas metálicas de um edifício vizinho. Ele desceu em velocidade impressionante e aterrissou diante dos homens que se preparavam para atacar uma loja.

— Acabou a festa, rapazes.

Um deles avançou com uma faca.

O Guardião desviou, agarrou o braço do agressor e o imobilizou com uma corrente. Os outros dois tentaram fugir, mas foram derrubados por laços metálicos que surgiram do nada.

Entretanto, as sombras não desapareceram.

Pelo contrário.

Elas começaram a convergir para um único ponto da rua.

O Guardião ergueu a cabeça.

— O que está acontecendo?

As luzes dos postes se apagaram uma após a outra.

Um vento quente soprou entre os edifícios. As sombras se ergueram do chão, formando uma coluna negra que girava como um pequeno tornado. Dentro dela, dois olhos amarelos se acenderam.

Então uma gargalhada profunda ecoou pela avenida.

— Finalmente nos encontramos, irmão!

O Guardião ficou imóvel.

— Irmão? Do que você está falando?

A coluna de sombras explodiu numa nuvem de fumaça escura.

Uma figura surgiu no meio da rua.

Era um homem de porte imponente, usando uma armadura que lembrava a do Guardião da Noite. Mas, onde o primeiro vestia preto e branco, aquele recém-chegado usava vermelho e amarelo. Sua capa rasgada parecia feita de chamas, e duas grandes pontas curvas, semelhantes a chifres, projetavam-se do alto de sua máscara.

Correntes negras e avermelhadas arrastavam-se pelo asfalto.

Seu peito trazia um símbolo semelhante ao do Guardião, mas algo era diferente, como se fosse sua versão corrompida.

O recém-chegado inclinou a cabeça.

— Você protege os homens. Eu liberto aquilo que eles escondem. Você aprisiona os monstros. Eu lhes dou poder.

O Guardião apertou os punhos.

— Quem é você?

O desconhecido abriu os braços.

— Pode me chamar de Nêmesis.

— Eu sou aquilo que você poderia ter se tornado. Sou a outra face da mesma moeda. Enquanto você luta para manter a humanidade de pé, eu mostrarei que ela merece cair.

— Você está usando essas sombras para controlar as pessoas!

— Controlar? Não, meu caro. Estou apenas retirando as correntes que as impedem de mostrar quem realmente são!

O Guardião olhou ao redor. Pessoas gritavam, veículos colidiam e homens dominados pelas sombras atacavam tudo o que encontravam pela frente.

Ele voltou a encarar o adversário.

— Vou acabar com isso.

Nêmesis soltou uma gargalhada.

— Era exatamente o que eu esperava ouvir.

O duelo começa.

O Guardião lançou suas correntes douradas.

Elas cortaram o ar, buscando envolver o inimigo pelo peito e pelos braços. Nêmesis girou o corpo, e suas próprias correntes se ergueram do chão, chocando-se contra as do adversário.

O impacto provocou uma onda de energia que estilhaçou as janelas dos edifícios próximos.

Os dois saltaram ao mesmo tempo.

Punho contra punho!

O estrondo ecoou pela avenida.

O Guardião foi lançado contra um automóvel estacionado, amassando a lataria. Antes que pudesse se levantar, Nêmesis surgiu diante dele e desferiu um golpe que o fez deslizar vários metros pelo asfalto.

— Você está enferrujado, irmão!

O Guardião ergueu-se lentamente.

— Ainda não viu nada.

As correntes douradas começaram a brilhar. Elas se multiplicaram, formando uma rede luminosa que cercou Nêmesis por todos os lados.

Por um instante, o vilão pareceu preso.

Uma a uma, as correntes foram se rompendo.

— Sua luz não pode me deter! — gritou Nêmesis.

— Talvez não. Mas posso deter você!

O Guardião avançou e acertou um golpe direto no rosto de seu oponente. Nêmesis cambaleou, surpreso com a força do impacto.

Pela primeira vez, o sorriso desapareceu de sua voz.

Os dois voltaram a se enfrentar, trocando golpes sob o céu escuro de São Paulo. Correntes vivas se chocavam, faíscas iluminavam a rua e ondas de energia faziam o asfalto rachar.

Seus olhos amarelos brilharam intensamente.

— Nós não somos apenas dois homens usando armaduras parecidas. Nossa história começou muito antes de nascermos!

O Guardião tentou libertar-se, mas as correntes negras envolveram seus braços.

Nêmesis aproximou o rosto de sua máscara.

— Pergunte a si mesmo por que você foi escolhido pela luz... enquanto eu fui escolhido pelas trevas.

O Guardião parou de lutar por uma fração de segundo.

Aquelas palavras tocaram uma lembrança que ele não conseguia compreender: dois berços vazios, um clarão branco e uma presença negra.

Nêmesis caminhou até o centro da avenida e ergueu os braços. As sombras espalhadas pela cidade responderam ao seu chamado, formando uma gigantesca nuvem sobre os edifícios.

— Esta noite, São Paulo conhecerá o verdadeiro poder das trevas!

O Guardião tentou levantar-se. Seu corpo doía, mas suas correntes ainda brilhavam.

Ele olhou para as pessoas em perigo.

Depois, encarou o inimigo.

— Eu não sei quem você é... nem o que fizeram conosco quando éramos crianças.

Suas correntes se ergueram novamente.

— Mas uma coisa você precisa entender: enquanto eu estiver de pé, você não tocará em nenhum inocente!

Nêmesis abriu os braços, satisfeito.

— Então levante-se, irmão. Porque esta noite um de nós vai descobrir qual dos dois merece continuar existindo!

E, sob o céu de São Paulo, os dois guardiões prepararam-se para o golpe decisivo.

SENTINELA DAS TREVAS

Capítulo 5 — Caim e Abel: A origem dos dois guardiões

São Paulo, sexta-feira, 22h16.

O Guardião da Noite tentava se levantar depois do último golpe de Nêmesis. Seu uniforme preto e branco estava danificado, e suas correntes douradas haviam perdido parte do brilho.

Nêmesis caminhava em sua direção, preparando-se para desferir o golpe final.

— Acabou, irmão! A escuridão sempre vence!

O Guardião apoiou um joelho no chão. Fechou os olhos e pensou nas pessoas que havia protegido, nas vidas que ainda poderia salvar e naquela estranha lembrança de dois bebês desaparecidos numa maternidade.

Então, algo despertou dentro dele.

Uma luz branca surgiu em seu peito.

Primeiro, era apenas um pequeno brilho. Depois, espalhou-se por toda a armadura, envolvendo seus braços, sua capa e suas correntes.

Nêmesis recuou, cobrindo o rosto.

A luz aumentou de intensidade, expulsando as sombras que rastejavam pelo asfalto. Os criminosos dominados pela influência maligna caíram de joelhos, enquanto as criaturas negras que os cercavam gritavam antes de desaparecer.

O Guardião ergueu-se completamente.

Sua capa branca transformou-se numa espécie de manto luminoso, e as correntes douradas brilharam como ouro incandescente.

— Eu não sei de onde vem esse poder — declarou ele. — Mas sei que não o usarei para dominar ninguém. Usarei para proteger os inocentes!

Nêmesis olhou para as próprias mãos. As correntes negras tremiam, como se reconhecessem aquela luz.

Foi então que uma gargalhada sobrenatural ecoou pelos céus.

— Que cena comovente! Dois irmãos separados pelo destino, finalmente reunidos para destruir um ao outro!

A luz da Lua desapareceu.

Uma fenda abriu-se no meio da avenida, revelando um abismo de fogo, rios de lava e torres negras que se erguiam sobre montanhas de pedra.

Do interior daquela abertura surgiu uma figura monstruosa.

Era alto, possuía enormes asas negras, olhos incandescentes e uma coroa de chifres que contornava sua cabeça. Correntes infernais envolviam seu corpo, e uma aura de maldade parecia distorcer o próprio ar ao seu redor.

O Guardião sentiu suas correntes se contraírem.

Nêmesis, pela primeira vez, pareceu assustado.

A criatura abriu os braços.

— Sejam bem-vindos! Vocês virão ao meu reino infernal, onde descobrirão a verdadeira origem de suas existências!

O Guardião ergueu a cabeça.

— Quem é você?

O demônio sorriu.

— Sou Calisiel! Senhor das Sombras, soberano de legiões infernais e aquele que separou vocês na noite em que nasceram!

O segredo da Santa Casa

As palavras atingiram os dois como um raio.

Calisiel continuou, saboreando cada sílaba:

— Em 1992, naquela maternidade de São Paulo, dois bebês vieram ao mundo. Caim e Abel. Filhos de Marta e Carlos Josué. A mãe morreu no parto, o pai foi assassinado nas ruas, há há ha , obra minha, e vocês ficaram sozinhos, indefesos, sem ninguém que pudesse protegê-los.

O Guardião sentiu o coração acelerar.

Aquelas eram as informações do caso que havia permanecido sem solução durante décadas.

— Este aqui foi o primeiro que tomei para mim. Caim! Eu era a sombra que a enfermeira viu naquela noite. Levei-o para as profundezas do meu reino, onde foi criado entre demônios, aprendendo a odiar uma humanidade que jamais lhe ofereceu amor.

Nêmesis ficou imóvel.

— Você disse que me salvou! — gritou ele. — Disse que os humanos teriam me abandonado e que somente as trevas me dariam uma família!

— E dei! — respondeu Calisiel, gargalhando. — Dei-lhe poder, força e um propósito! Transformei você na minha arma contra o mundo.

O demônio voltou-se para o Guardião.

— Mas o outro bebê foi levado por Galiel, um anjo enviado pelas forças celestiais. Abel foi criado sob a luz, recebeu treinamento e aprendeu a usar suas habilidades para proteger os homens.

O Guardião sentiu uma lembrança atravessar sua mente.

Uma voz distante, serena, que parecia chamá-lo desde a infância.

Abel...

Ele levou a mão à cabeça.

— Meu nome... meu verdadeiro nome é Abel?

Calisiel confirmou com um movimento da cabeça.

— Sim! E seu irmão é Caim! Dois gêmeos que deveriam ter crescido juntos, mas que foram transformados em instrumentos de uma guerra muito maior.

Nêmesis olhou para o Guardião.

Por trás da máscara vermelha e amarela, alguma coisa começava a mudar.

Durante trinta e quatro anos, acreditara que o mundo era seu inimigo. Calisiel lhe contara que a humanidade era corrupta, que a luz era uma mentira e que seu irmão havia sido escolhido para condená-lo.

Agora, descobria que toda a sua história havia sido construída sobre uma mentira.

— Você me disse que Abel tinha me abandonado! — rugiu Caim.

Calisiel soltou uma gargalhada.

— E você acreditou! Era tão fácil! Bastava alimentar seu orgulho, sua raiva e seu desejo de vingança. Nunca precisou de muito para se tornar aquilo que eu queria.

Caim baixou a cabeça.

Suas correntes negras se arrastaram pelo chão.

Pela primeira vez, ele não sentia raiva do irmão.

Sentia raiva de si mesmo.

A batalha no reino infernal

— Chega! — bradou Calisiel.

O demônio ergueu as mãos, e uma onda de energia atravessou a avenida.

O chão desapareceu sob os pés dos dois guardiões.

Abel e Caim foram sugados pela fenda, atravessando um túnel de fogo e sombras até caírem sobre uma plataforma de pedra negra, no coração do reino infernal.

Diante deles, estendia-se um horizonte de rios incandescentes, montanhas pontiagudas e fortalezas construídas com rochas que pareciam pulsar.

Milhares de criaturas observavam das muralhas.

Calisiel abriu as asas.

— Aqui, minhas palavras são leis! Neste reino, a luz enfraquece, a esperança apodrece e até os mais poderosos se ajoelham diante de mim!

Ele lançou uma rajada de fogo contra Abel.

O Guardião ergueu as correntes douradas e criou um escudo luminoso. A explosão sacudiu a plataforma, mas ele resistiu.

Calisiel então se voltou para Caim.

— Mate seu irmão! Prove que continua sendo meu filho predileto!

Caim não se moveu.

— Você não é meu pai.

O sorriso do demônio desapareceu.

— O quê?

— Você me roubou da minha família. Roubou meu passado e me ensinou a odiar meu próprio sangue. Chamou isso de salvação, mas tudo o que queria era um servo!

Calisiel rugiu de fúria.

Uma corrente infernal disparou em direção a Caim e envolveu seu pescoço, arremessando-o contra uma coluna de pedra.

Abel correu para ajudá-lo, mas outras correntes surgiram do chão, prendendo seus braços e pernas.

O demônio ergueu os dois irmãos diante de seu trono.

— Vocês são meus! A luz pode ter dado a Abel seus poderes, mas fui eu quem fez de Caim uma arma! Nenhum de vocês pode me vencer sozinho!

As criaturas infernais começaram a gritar, celebrando a vitória de seu senhor.

Calisiel aproximou-se dos irmãos.

— Olhem para vocês! Um vestido de branco e preto, o outro de vermelho e amarelo. Dois lados opostos, destinados a lutar até que um destrua o outro. E eu serei o vencedor, independentemente de quem sobreviver!

Abel olhou para Caim.

— Irmão... não precisamos continuar esta guerra.

Caim ergueu lentamente a cabeça.

— Passei a vida inteira acreditando que você era meu inimigo.

— Eu também não sabia que você existia.

— Então vamos mostrar a ele o que acontece quando tenta separar uma família!

Abel estendeu a mão.

Depois, segurou a mão do irmão.

Uma explosão de energia percorreu a plataforma.

A luz branca de Abel encontrou a energia vermelha de Caim. As duas forças giraram ao redor deles, formando um círculo que começou a crescer, rompendo as correntes infernais.

Calisiel recuou.

— Impossível!

As armaduras dos irmãos começaram a brilhar. As correntes douradas de Abel se entrelaçaram às correntes negras de Caim, formando uma arma extraordinária, capaz de combinar luz e trevas sem que uma destruísse a outra.

Caim olhou para as próprias mãos.

— Passei a vida pensando que a escuridão era minha natureza.

Abel respondeu:

— A escuridão foi o lugar onde você foi criado. Não precisa ser o lugar onde vai permanecer.

Caim voltou-se para Calisiel.

— Você queria um monstro? Então terá de enfrentar um homem que escolheu seu próprio caminho!

Os irmãos contra o senhor das sombras.

Calisiel abriu as asas, fazendo o céu infernal estremecer.

— Eu sou o senhor deste reino! Vocês não passam de duas crianças brincando com poderes que não compreendem!

Ele lançou uma tempestade de fogo contra os irmãos.

Abel girou as correntes douradas, criando uma barreira de luz. Caim avançou pelo lado oposto, usando suas correntes negras para absorver e desviar parte das chamas.

Pela primeira vez, lutavam juntos.

Abel protegia o irmão dos ataques mais devastadores, enquanto Caim usava sua força para abrir caminho através das defesas demoníacas.

Calisiel golpeou o chão com o punho, convocando criaturas monstruosas das profundezas. Elas cercaram os guardiões, mas as correntes combinadas varreram a plataforma, derrubando os invasores.

Caim saltou sobre uma criatura gigantesca e prendeu suas pernas com as correntes negras. Abel surgiu acima dela e lançou um feixe de luz que a fez desaparecer numa nuvem de fumaça.

Os dois aterrissaram lado a lado.

— Nada mal, irmão! — disse Caim.

Abel sorriu.

— Para quem tentou me matar há poucos minutos, você está aprendendo depressa!

Mesmo diante do perigo, os dois soltaram uma breve gargalhada.

Calisiel, porém, não achou graça.

Com um rugido ensurdecedor, transformou-se numa criatura ainda maior. Seus chifres cresceram, suas asas cobriram o céu e sua armadura tornou-se uma massa de pedra, fogo e correntes.

— EU VOU DESTRUIR VOCÊS!

Ele avançou.

Abel e Caim uniram as mãos e ergueram suas correntes.

— Pela vida que nos foi roubada! — gritou Abel.

— Pela família que você tentou destruir! — completou Caim.

As duas energias convergiram num poderoso feixe de luz branca e fogo vermelho, atingindo Calisiel diretamente no peito.

O demônio foi arremessado contra os degraus de seu próprio trono.

O impacto provocou rachaduras nas muralhas da fortaleza. As criaturas infernais fugiram, aterrorizadas, enquanto as correntes que prendiam as almas daquele reino começaram a se romper.

Calisiel tentou levantar-se.

Pela primeira vez em eras, sentiu algo que julgava impossível.

Medo.

Os irmãos caminharam em sua direção, lado a lado.

Abel, o Guardião da Noite.

Caim, o antigo Nêmesis.

Dois gêmeos separados pela luz e pelas trevas, agora unidos por uma escolha que nenhum demônio poderia fazer por eles.

Calisiel ergueu o rosto, tomado pelo ódio.

— Vocês acham que venceram? Acham que podem destruir o inferno e voltar para a superfície como heróis?

Ele sorriu, apesar dos ferimentos.

— Eu não sou a única força que deseja a alma de vocês. Existem outros seres que observaram seu nascimento... seres muito mais antigos do que eu.

Abel e Caim trocaram olhares.

O chão começou a tremer novamente.

No alto da fortaleza, uma figura desconhecida surgiu entre as nuvens negras, observando silenciosamente a batalha.

Calisiel percebeu a presença e, pela primeira vez, pareceu verdadeiramente apavorado.

— Não... Ele não deveria ter despertado...

SENTINELA DAS TREVAS

Capítulo 6 — Dois irmãos, um só destino.

O reino infernal estremecia. As muralhas estavam rachadas, rios de lava transbordavam e as criaturas das trevas fugiam diante do poder recém-despertado dos dois irmãos.

Abel, o Guardião da Noite, e Caim, que durante tantos anos havia sido conhecido como Nêmesis, permaneciam lado a lado diante do trono de Calisiel.

Mas ainda havia uma verdade que precisavam conhecer.

Uma voz serena ecoou no coração de Abel. Era Galiel, o anjo que o havia protegido desde a infância.

— Abel, chegou a hora de conhecer toda a verdade. Você e seu irmão foram separados porque, juntos, possuíam um poder extraordinário. As forças celestiais sabiam que vocês poderiam se tornar os maiores defensores da humanidade.

Uma luz envolveu os dois irmãos, revelando imagens de um passado distante.

Na noite de 1992, Galiel havia recebido a missão de proteger os gêmeos. Ambos deveriam ser criados sob os princípios da luz, aprendendo a usar seus dons para combater o mal.

Entretanto, Calisiel interferiu antes que isso pudesse acontecer. Aproveitando-se da fragilidade daquele momento, roubou o pequeno Caim e o levou para o reino infernal.

Abel foi salvo por Galiel. Caim cresceu sob a influência de Calisiel.

Não fora uma escolha dos irmãos. Não fora uma traição entre eles.

Tudo havia sido planejado para impedir que os dois descobrissem o verdadeiro alcance de seus poderes.

Caim baixou a cabeça. Durante toda a sua vida, acreditara que as trevas eram sua única família. Agora, compreendia que havia sido privado de tudo aquilo que poderia ter conhecido.

Abel aproximou-se dele.

— Nós perdemos trinta e quatro anos, irmão. Mas ainda temos o futuro.

Caim ergueu os olhos. Por trás da máscara vermelha e amarela, já não havia o mesmo ódio de antes.

— Você é o Guardião da Noite — declarou ele. — E, a partir de agora, eu serei o Sentinela das Trevas!

As correntes negras envolveram seus braços, enquanto uma energia vermelha iluminava sua armadura.

— Não usarei mais as trevas para espalhar o mal. Usarei o poder que recebi para destruir aqueles que ameaçam os inocentes. Juntos, vamos derrotar todas as forças malignas que se levantarem contra este mundo!

Abel estendeu a mão.

Caim apertou-a com firmeza.

A luz branca e a energia vermelha se uniram, iluminando o reino infernal. Pela primeira vez, os dois irmãos estavam lado a lado, não como inimigos, mas como aliados.

O Guardião da Noite e o Sentinela das Trevas.

Dois poderes diferentes. Dois caminhos distintos. Uma única missão.

Entretanto, a vitória ainda não estava completa.

A chegada de Astiel

Calisiel, caído diante do próprio trono, ergueu lentamente a cabeça. Seu corpo estava ferido, e suas forças haviam praticamente desaparecido.

Ele olhou para o alto da fortaleza.

— Mestre... perdoe-me! — gritou, desesperado. — Eu não tenho forças para derrotar esses dois! Eles uniram seus poderes! Não consigo detê-los!

O céu infernal abriu-se.

Uma presença aterradora surgiu acima das nuvens, fazendo até mesmo os demônios mais poderosos se ajoelharem.

Uma voz profunda respondeu:

— Você falhou, Calisiel.

Seis olhos incandescentes abriram-se na escuridão.

A criatura que desceu das alturas era semelhante a Calisiel, mas muito mais assustadora. Possuía seis olhos, chifres retorcidos que se projetavam em diferentes direções e uma armadura negra atravessada por veios de fogo infernal. Suas enormes asas pareciam feitas de fumaça e brasas.

Seu nome era Astiel.

O verdadeiro mestre das forças que haviam manipulado o destino dos gêmeos.

Calisiel tentou se arrastar na direção dele.

— Mestre, por favor... dê-me outra oportunidade!

Astiel ergueu uma das mãos.

— Você teve séculos para cumprir sua missão. E fracassou diante de dois seres que deveriam ter sido nossos instrumentos.

Uma labareda de fogo infernal irrompeu de seus dedos.

Calisiel não teve tempo de gritar. O fogo o envolveu completamente, consumindo sua forma demoníaca até que não restasse nada além de cinzas que desapareceram no vento.

Abel e Caim assistiram à cena, horrorizados.

Astiel voltou seus seis olhos para os dois irmãos.

— Então vocês finalmente se encontraram. O Guardião da Noite... e o Sentinela das Trevas.

Ele abriu as asas, e uma tempestade de fogo iluminou o horizonte.

— Aproveitem sua pequena vitória. Protejam os humanos, salvem suas cidades e acreditem que podem mudar o destino que lhes foi reservado.

Um sorriso cruel surgiu em seu rosto.

— Porque eu voltarei atrás de vocês. E, quando chegar esse dia, conhecerão um poder diante do qual até Calisiel tremia.

Sua gargalhada ecoou por todo o reino infernal.

— Esperem por mim! Vocês me verão em breve! Há, há, há, há!

A fenda no céu fechou-se.

O silêncio tomou conta da fortaleza.

Abel olhou para o irmão.

— Parece que nossa luta está apenas começando.

Caim ajustou sua máscara e fez as correntes negras se recolherem ao redor dos braços.

— Então vamos estar preparados.

Os dois caminharam lado a lado em direção à passagem que os levaria de volta à superfície.

Acima deles, o céu infernal continuava em chamas.

E, muito além daquele reino, uma presença antiga aguardava o momento de retornar.

FIM... POR ENQUANTO.

Continua em: Guardião da Noite e Sentinela das Trevas — A ameaça de Astiel.

    Thoughts

    • Cidinha

      Dar o nome de Caim e Abel pros gêmeos e no fim o Caim escolher segurar a mão do irmão me deixou contente. Na Bíblia a história deles termina tão diferente.

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    • soleioanoite

      Fiquei pensando na enfermeira Sarah. Ela viu a sombra e a luz, ninguém acreditou, e o caso foi esquecido. Ela é a única pessoa viva que estava lá em 1992, então desconfio que o Astiel vai atrás dela primeiro.

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    • marryhelp

      É o Spawn, só que preto e branco e menos pesado, e feito por IA

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