Do manifesto inteiro, a parte dos meios de produção foi a única que a indústria nunca comprou. Ficou com as cores e o slogan, e os discos continuaram a ser gravados e vendidos pelos mesmos. Por isso desconfio da ideia de que agora temos referência: referência sem editora própria volta a ser tendência de estação.
GIRLS TO THE FRONT - P.1
Pensamento
Do manifesto inteiro, a parte dos meios de produção foi a única que a indústria nunca comprou. Ficou com as cores e o slogan, e os discos continuaram a ser gravados e vendidos pelos mesmos. Por isso desconfio da ideia de que agora temos referência: referê
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O meu primeiro texto aqui teve uma ótima repercussão e fico muito feliz com isso, mas, antes de começar o novo, queria pontuar algumas coisas.
Primeiro: recebi algumas respostas sobre o trip hop que me deram uma nova visão sobre o assunto e outras que só reafirmaram a minha ideia (de que a melancolia feminina é aceitável e, de certa forma, boa, enquanto a rebeldia não). Confesso que queria que meu primeiro texto fosse sobre o movimento Riot Grrrls e sobre o Female Rage (que é sobre o que vou falar hoje). Porém, na hora me deu vontade de falar sobre o trip hop e tirar umas coisas que tinha na cabeça. Até porque meu objetivo aqui é esse: escrever as frases que surgem na minha cabeça. Não necessariamente vai ter lógica e muitas vezes vai ser absurdamente pessoal (até porque essa conta é minha). Segundo: muito provavelmente esse texto vai ter uma continuação, já que venho estudando esse movimento e o punk há pelo menos uns 2 anos.
Sem mais delongas, bora pro assunto.
Um dos comentários do meu último texto me deu uma curiosidade que me deixou com ainda mais vontade de falar sobre a raiva feminina. No comentário, a pessoa dizia (resumidamente) que o trip hop ficou conhecido por meio de vozes femininas, mas os produtores, compositores e membros oficiais eram todos homens. O que me fez fazer outra pergunta: por que escolher vozes femininas para a melancolia?
Não é de hoje que as "sad girls" são idolatradas dentro da indústria musical. Ser vulnerável é quase como um atestado de qualidade na indústria. Lembrando que isso não é necessariamente ruim, até porque eu estaria sendo hipócrita se reclamasse de vulnerabilidade, sendo que escuto mais a voz da Fiona Apple do que a minha própria. Entretanto, existe uma ideia enraizada de que mulheres e figuras femininas não têm capacidade de falar sobre política, raiva, sexo, vida, morte... Vivências que não sejam ligadas a um relacionamento e o sentimento que nos resta é a tristeza. E ainda tem o fato de que homens são ensinados justamente do contrário, mas não vou entrar tanto nesse assunto (quero falar disso quando for falar de Moonlight).
Dentro desse contexto, nos anos 90 surge o Riot Grrrls. Ele surge de um sentimento muito comum: não pertencimento. AS meninas não se sentiam pertencentes aquela cena punk de Washington e resolveram criar então a própria cena. Começou com fanzines, foi progredindo para bandas e se tornou uma referência para uma outra cena que estava surgindo, o Grunge. Pouco se fala da ligação entre os dois, mas, na verdade, ela é até bem grande (vou falar disso depois). A liderança do movimento era Kathleen Hanna, vocalista da banda Bikini Kill, que escreveu o manifesto Riot Grrrl em 1991 na revista Bikini Kill ZINE 2.
"Porque nós, garotas, ansiamos por discos, livros e fanzines que falem conosco, com os quais nos sintamos incluídas e que possamos entender à nossa maneira.
Porque queremos facilitar o contato entre as garotas para que possamos compartilhar estratégias e criticar e elogiar umas às outras.
Porque precisamos assumir o controle dos meios de produção para criar nossos próprios significados.
[...]
PORQUE queremos e precisamos encorajar e ser encorajadas diante de todas as nossas inseguranças, diante do rock machista que nos diz que não sabemos tocar nossos instrumentos, diante das "autoridades" que dizem que nossas bandas/fanzines/etc. são as piores dos EUA e
PORQUE não queremos nos assimilar aos padrões de outra pessoa (homem) sobre o que é ou não é.
[...]
PORQUE estamos revoltadas com uma sociedade que nos diz que menina = burra, menina = má, menina = fraca.
PORQUE não estamos dispostas a deixar que nossa raiva real e válida seja dissipada e/ou voltada contra nós através da internalização do sexismo, como se observa no ciúme entre garotas e em comportamentos autodestrutivos típicos de meninas.
Porque acredito de todo o meu coração, mente e corpo que as meninas constituem uma força revolucionária que pode, e vai, mudar o mundo de verdade."
E infelizmente isso não mudou muito. Continuamos ansiando por discos, livros que falem conosco, continuamos precisando ser encontradas, continuamos revoltadas e continuo acreditando que meninas constituem uma força revolucionária. Mas tem uma coisa diferente: temos referência.
Por mais que o Riot Grrrl nunca tenha tido o destaque que mereceu, por mais que as bandas e zines tenham sido boicotadas, por mais que a indústria tenha roubado a ideia e a tenha transformado em "🫂✨💜✨🩷 Girl Power, meninas, a amizade é mágica ✨", por mais que o movimento tenha suas problemáticas raciais e de sexualidade. Não dá para negar que ele conseguiu cumprir pelo menos um pouco desse manifesto.
Agora falando sobre a ligação com o grunge. A cena de rock alternativo dos anos 90 foi um lugar muito produtivo, principalmente para mulheres. Sonic Youth, L7, Hole, Garage, o próprio Bikini Kill. Bandas que poderiam até não ter um destaque muito grande na mídia, mas foram fundamentais na cena. A Kim Gordon (baixista e vocalista do Sonic) foi como uma mãe para muitas bandas na época. E uma curiosidade que a Kathleen Hanna, inspirou o Kurt a compor "Smells Like a Teen Spirt, simplesmente a música que catapultou o Nirvana. Mas a ligação deles era além disso; eles eram bem próximos e muito do posicionamento político de Kurt veio da convivência dele com o movimento punk de Washington.
Enfim, já falei bastante e ainda tenho mais algumas coisas para abordar sobre o assunto, mas esse texto já está grande demais. Como falei, provavelmente esse texto vai ter uma continuação. Até lá, contentem-se com esse.
GIRLS TO THE FRONT!
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Thoughts
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PermalinkFiquei curioso com o Moonlight prometido lá no meio. Meu palpite é que ali a pergunta vira do avesso, e o que se tira do menino é justamente o direito de ficar triste.
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PermalinkO Girl Power cheio de corações é o que sai quando um departamento de marketing lê um manifesto: fica a palavra e desaparece a raiva.
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PermalinkO detalhe mais curioso da história do Teen Spirit é que a Kathleen Hanna escreveu na parede do Kurt que ele cheirava a Teen Spirit, que era a marca de desodorante que a Tobi Vail, namorada dele na época, usava. Ele leu aquilo como frase revolucionária e virou o refrão mais conhecido da década.
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PermalinkDo manifesto inteiro, a parte dos meios de produção foi a única que a indústria nunca comprou. Ficou com as cores e o slogan, e os discos continuaram a ser gravados e vendidos pelos mesmos. Por isso desconfio da ideia de que agora temos referência: referência sem editora própria volta a ser tendência de estação.
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PermalinkBikini Kill, que tempo.
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PermalinkA Fiona Apple que ouves mais do que a tua própria voz passou o primeiro disco furiosa, e a indústria vendeu-a como rapariga triste. Por isso não compro bem a divisão entre tristeza e raiva: a raiva estava lá, quem a arrumou foi o rótulo. Eu apontava menos às vozes e mais a quem escreve a legenda por baixo delas.
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PermalinkA ligação entre a Kathleen Hanna e o Nirvana me fez pensar em quantas vezes a gente conhece a música famosa e nunca a pessoa que deu a ideia. Aposto que a parte 2, com o grunge, vai surpreender muita gente que acha que conhece bem os anos 90. Gostei muito de ler isso aqui, GIRLS TO THE FRONT!
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PermalinkObs.: eu de que o Grunge surge antes e não se resume ao Nirvana. Mas queria pontuar que de maneira direta o Riot Grrrls influenciou um movimento da mesma época
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