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A Aparição - Parte 10

aleroz

Conteúdo da publicação

A psicóloga permanecia no canto da sala.

Não participava mais da discussão.

Apenas observava Aurora pela janela.

Semanas.

Já fazia semanas que aquela garota estava ali.

A cidade continuava falando dela.

Os jornais também.

Aparição.

Milagre.

Alienígena.

Ameaça.

Santa.

Anomalia.

Cada jornal tinha uma palavra diferente.

Mas, para aquela psicóloga, havia uma palavra que nenhuma reportagem parecia usar.

Menina.

Ela tinha uma filha quase da mesma idade de Aurora.

Naquela hora, provavelmente já estava em casa.

Talvez o marido tivesse ido buscá-la na escola.

Talvez estivessem jantando.

Talvez a filha estivesse reclamando de alguma coisa que acontecera naquele dia.

Pensou em como era estranho.

Uma adolescente voltava para casa depois da escola.

Uma rotina absolutamente comum.

E outra adolescente, da mesma idade, estava presa no centro de uma floresta cercada por soldados, cientistas, câmeras e jornalistas.

Embora ninguém pudesse dizer que Aurora estivesse realmente presa.

Ela nunca tentara sair.

Nunca pedira para sair.

Nunca demonstrara medo.

Nunca atacara ninguém.

Os exames também não ajudavam.

O corpo era humano.

Os tecidos eram humanos.

O sangue era humano.

Os cabelos eram humanos.

Quando alguns fios foram recolhidos para análise, não encontraram nada extraordinário.

Nada.

Era apenas cabelo.

A pele era humana.

O corpo era humano.

Os órgãos funcionavam.

Os exames não mostravam nenhuma doença.

Nenhuma alteração conhecida.

Nenhuma explicação.

Mesmo assim, o Exército continuava tratando Aurora como uma ameaça potencial.

Não porque ela tivesse feito alguma coisa.

Mas porque ninguém sabia o que ela poderia fazer.

A psicóloga olhou novamente pela janela.

Aurora estava ali.

Parada.

Flutuando.

Observando.

Parecia tranquila.

Parecia até entediada.

A psicóloga sentiu uma tristeza que não conseguia explicar.

Aurora estava bem.

Era isso que os exames diziam.

Mas alguma coisa nela parecia profundamente errada.

Não porque estivesse doente.

Talvez porque estivesse bem demais.

Uma garota naquela situação deveria estar assustada.

Deveria perguntar onde estava.

Deveria pedir pela mãe.

Deveria querer ir para casa.

Aurora não fazia nada disso.

Ela apenas observava.

A psicóloga olhou para o relógio.

22h03.

Já havia passado do seu horário.

Ela pegou o casaco.

Uma pesquisadora perguntou:

— Você vai embora?

— Sim.

— Amanhã?

— De manhã.

Ela guardou algumas coisas na bolsa.

Antes de sair, olhou mais uma vez pela janela.

Aurora continuava no mesmo lugar.

A psicóloga ficou alguns segundos olhando para ela.

Pensou na própria filha.

Então saiu.

Do lado de fora, soldados continuavam posicionados ao redor da floresta.

Holofotes iluminavam as árvores.

Equipamentos funcionavam durante toda a noite.

Câmeras continuavam registrando cada movimento.

E Aurora permanecia ali.

Não havia conseguido ser levada para um hospital.

Não havia conseguido ser levada para uma base.

Não havia conseguido ser colocada em uma cápsula.

Não havia conseguido ser tirada daquela floresta.

Não porque estivesse lutando.

Não porque estivesse fugindo.

Simplesmente porque, de alguma maneira que ninguém compreendia, Aurora continuava onde estava.

A psicóloga entrou no carro.

Precisava voltar para casa.

Precisava ver sua filha.

Enquanto isso, atrás das barreiras, Aurora continuava olhando para o mundo.

Como se esperasse que alguém finalmente entendesse alguma coisa.

Ou como se não estivesse esperando absolutamente nada.

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Thoughts

  • Neidinha

    A palavra menina no meio daquela lista toda foi a que me pareceu certa. Você já pensou em pôr a filha dela frente a frente com a Aurora?

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  • tesouro_e_paz

    Dez partes acompanhando e a Aurora ainda não fez nada além de olhar. O Exército gastando holofote a noite inteira com uma menina entediada, uai. Aposto que quem cansa primeiro é quem paga a conta disso tudo.

    Permalink

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